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Transativistas Atacam Mulheres em Londres – 13.09.2017

Não importa o quanto transativistas cometam e defendam essa violência ela tem um nome: VIOLÊNCIA MASCULINA MISÓGINA!!

Mulher de 60 anos é agredida por transativistas no Speaker’s Corner em Londres na última quarta feira dia 13. localizado no Hyde Park este era o ponto de encontro para feministas e pessoas interessadas em participarem do evento chamado “O que é Gênero?”. O debate tinha sido primeiramente marcado para acontecer numa biblioteca comunitária em Londres, mas as organizadoras sofreram perseguição e ameaças por transativistas e a biblioteca cancelou o evento um dia antes, dia 12. Porém para seguirem com o evento, foi organizado um outro local, que desta vez foi mantido em segredo para garantir a segurança dos participantes. Apenas o ponto de encontro foi divulgado, dali seguiriam para o novo local.
E então transativistas apareceram no Speaker’s Corner para protestar contra o evento, foi quando, como aparece no vídeo, um transativista chega para agredir uma das mulheres que estavam ali. Logo depois outro começa a dar socos na feminista que desvia para se proteger.

Feministas estão sendo silenciadas e censuradas por serem críticas a noção de gênero. Até quando mulheres terão que sofrer ameaças e agressões? isso que está acontecendo a muito tempo vem sendo abafado pelo medo que as pessoas tem de serem erroneamente acusadas de transfobia por qualquer desacordo que tenham com as teorias de identidade de gênero.

A Corrida

Estava começando uma corrida. Ia ser longa e perduraria a noite, precisava-se estar preparada.

Ao meu redor vi apenas mais uma mulher. Estávamos na frente, mas a sensação era estranha porque não é bem como se estivéssemos na frente, é mais como se não houvessem outras pessoas para correr.

Assim são os sonhos, eles fazem e não fazem sentido.

Então partimos da largada, eu estava na frente e pensei que já que éramos só duas poderíamos fazer juntas? Nos olhamos e estávamos confiantes. Ficamos lado a lado mas por poucos metros apenas, pois senti um peso vindo dos pés. Ao olhar para eles vi que eu estava com botas pesadas. Mas como? me perguntei. O que aconteceu que eu coloquei os sapatos errados? Ela olhou pelos ombros. Sim eu já havia ficado a uns metros para trás. Fez uma menção de voltar. Eu acenei com a mão, vai lá. Não dá para dizer que ela sorriu, mas como era reconfortante o seu olhar é como se fosse um sorriso. Havia solidariedade entre nós. Hesitei em voltar para trocar os sapatos. Perderia muito tempo. E só então passou uma pessoa por mim, e mais uma, e foram passando uma após outra e eu vi que não ia conseguir acompanhar com aquelas botas, mas voltar e buscar os sapatos corretos igualmente iriam me atrasar. Voltei, melhor confiar na minha corrida do que confiar que com o tempo o peso me liberte. Fui trocar os sapatos e não achava o de corrida. E o tempo passava e eu ia ficando mais ansiosa e mais para trás. Peguei outro sapato qualquer, mais leve que as botas, mas ainda não apropriado para a ocasião. Coloquei nos pés mesmo assim mas sem sentir segurança com a opção. Assim que recomecei a correr o sapato escorregou do meu calcanhar e de repente eu não conseguia mais me mover. Eu tentava mas não conseguia. Eu tava imobilizada só movendo os braços, eu virei uma espécie de estátua. E com a tremenda ansiedade que eu agora sentia eu acabei acordando, como costumamos fazer para escapar de um pesadelo. Ou de um sonho.

madrugada de 13 de setembro de 2017

aline rod.

A segurança dos homens para cometerem violências e a culpabilização das mulheres

A invasão dos homens ao espaço e corpos das mulheres é uma violência comum, cotidiana, cometida de várias formas. Na semana passada essa realidade se tornou bastante evidente quando um homem ejaculou no pescoço de uma mulher no ônibus. A gravidade da violência e também por ter sido cometida em espaço público não teve como ser abafada como são outros tipos de violências cometidas contra às mulheres.

Parte mais leve desta realidade, digamos assim, nós todas as mulheres estamos bastante acostumadas a lidar. Pegando apenas a invasão dos homens em transportes públicos eu não saberia contar as vezes que homens invadiram meu espaço ou cometeram abusos. Uma vez um desconhecido tirou o fone do meu ouvido para falar comigo. Eu achei aquilo ultrajante e peguei meu fone de volta e não lhe dei mais ouvidos literalmente. Isso só para ilustrar o direito que os homens se sentem de invadir o espaço das mulheres. Os homens constantemente interrompem mulheres, quando falamos e quando estamos no nosso silêncio. Quando estamos fazendo algo que eles julgam que fazem melhor começam a nos explicar muitas vezes coisas que já sabemos muito bem ou melhor que eles. Quantas vezes vendo a fraqueza dos homens em querer provar um conhecimento sobre algo banal, eu me vi lhes ouvindo apenas por constrangimento alheio. Muito provável que o meu sentimento de “constrangimento alheio” tenha raiz justamente na questão de que nós mulheres somos criadas a sermos compassivas e compreensíveis. A compaixão e a compreensão embora sejam consideradas virtudes para humanos, elas são muito mais uma obrigação para as mulheres do que para os homens. Os homens são mais estimulados a serem “autênticos” e suas ações ásperas são comumente justificadas como “homem de temperamento forte”, “não leva desaforo pra casa”, “um verdadeiro homem”, enquanto nós por reagirmos mesmo quando sem agressividade somos sempre “a louca”, “a histérica”, “a mal amada”.

Eu realmente não saberia dizer quantas vezes fui importunada no ônibus. Aos 13 anos porém eu passei pelo primeiro abuso de grau mais grave no transporte coletivo. Nesta primeira vez eu estava sentada na janela olhando pra rua pensativa como já era meu hábito, aguardando como todo mundo que está ali aguarda – minha parada chegar. Então eu sinto algo na minha vagina. Algo impossível de não sentir, porém devido a total discrepância daquilo que eu sentia com o que me parecia razoável em termos reais – ali no ônibus afinal das contas – eu cheguei a questionar a mim mesma se eu realmente tinha sentido aquilo. Eu não entendia de onde vinha aquilo. Porém eu olhei instintivamente para trás e havia um homem de seus mais de 30 anos, ele me olhava e tinha um sorriso sarcástico no rosto. Eu não soube o que fazer no primeiro momento. Eu soube porém que eu não teria como provar que aquilo tinha acontecido, e me bastou um segundo de observação para saber- o homem colocou a mão no vão do banco, entre o assento e o encosto, como eram os assentos na época, porque ele se achou no direito, e mais que isso- é importante ressaltar – se achou seguro para fazê-lo. Eu passei o resto do percurso elaborando uma estratégia em como eu desceria do ônibus, e se ele descesse atrás de mim? Eu também pensei em mudar de lugar mas eu me senti paralisada, eu julguei que seu eu me levantasse seria confirmar que ele havia me atingido. Muito estranho aquele meu pensamento, eu queria fingir que ele não havia me tocado, mas não por mim, eu queria que ele achasse que não tinha sido bem sucedido, embora eu queria sair correndo dali.

É muito desproporcional que os homens se sintam seguros para cometerem os abusos que cometem, incluindo em espaços públicos, e nós mulheres não nos sentimos seguras para reagir, pedir ajuda ou denunciar os abusos que sofremos. Isso é importante ressaltar. Não estou falando com isso que nós mulheres não reagimos, estou falando que é desproporcional a segurança com que os homens sentem de cometer abusos em relação a falta de segurança que temos e sentimos para reagir aos abusos. Isso é parte da guerra não declarada contra nós mulheres e que estamos “acostumadas”, nos cabendo apenas sobreviver no meio desta guerra da melhor forma que podemos. Muitas de nós não sobrevivem.

Alguns anos depois, lembrando que estou me atendo apenas a violência masculina no transporte público, lá estava eu, novamente num ônibus aguardando a hora de chegar em casa numa noite de segunda feira. Então senta um homem ao meu lado. Como era noite e eu olhava pela janela, foi possível pelo reflexo do vidro ver uma movimentação estranha vindo do homem. O braço dele mexia sem parar porém estava embaixo de uma pasta. Eu soube na hora o que ele fazia mas eu me senti travada para fazer alguma coisa. Eu novamente não estava preparada para aquilo, eu acho que nunca vou estar completamente, embora com o tempo de vida hoje me sinto bem mais capacitada para agir contra a violência masculina, mas não imune.

As pessoas costumam me considerar autoconfiante, com capacidade de resposta. Mas eu não consegui naquele momento colocar em ação toda essa minha virtude, ou defeito já que como mulher pode ser considerado como tal. Foram inúmeras vezes que já revisitei este episódio tentando entender do porquê eu não ter falado com as pessoas ao meu redor, ou ter chamado a atenção do motorista, ou cobrador. Uma das razões eu lembro, foi de que eu poderia estar cometendo um equívoco já que o que o homem fazia era literalmente por debaixo dos panos. Uma outra razão que eu também encontrei depois de recordar sobre o “ocorrido” foi vergonha. Eu senti vergonha por estar sendo atacada, como se houvesse uma espécie de culpa em mim, como se fosse possível que eu fosse a culpada. A vergonha que eu senti foi uma vergonha por antecipação, é como se eu soubesse que as pessoas me olhariam incrédulas, desconfiadas e ou iam me questionar sobre o que eu tinha feito para aquele homem fazer aquilo.

De certa forma a autoconfiança que eu procurei desde pequena desenvolver apesar de todo bombardeio do patriarcado que nós mulheres recebemos para não desenvolvermos, acho que foi o que me levou naquele dia a julgar que eu poderia me livrar sozinha sem ajuda das pessoas. Então, como da vez do primeiro abuso no ônibus, eu comecei a pensar numa estratégia de como sair daquela “situação”. Eu estava apavorada, mas conseguia raciocinar, eu jogava com o tempo e na verdade precisava que demorasse bastante, que o ônibus parasse em todas paradas possíveis até eu descobrir o que fazer. Eu sabia que principalmente naquelas circunstâncias, eu não poderia descer sozinha na parada de ônibus próxima a minha casa que era um local ermo e sem iluminação pública decente, era noite por volta das 23h. Depois de avaliar bastante, eu encontrei uma possível saída para o meu problema e decidi que era melhor eu descer uns dois quilômetros antes de casa, pois isso se daria numa avenida supostamente mais movimentada e que se caso ele descesse eu teria mais chances de não ser atacada. Para o caminho a percorrer depois até em casa à noite e sozinha, bem essa seria uma nova estratégia a solucionar. Também como parte da minha estratégia, eu pensei em descer só quando o ônibus parasse, ao contrário do comum que é levantar com certa antecedência e puxar a cordinha (que hoje é um botão). Esta estratégia porém era arriscada, pois dependia de que alguém solicitasse parar aonde eu queria ou que alguém solicitasse o ônibus da tal parada. Decidi arriscar. De repente faltavam três paradas para o meu destino – que não era de fato o meu destino final. Como para uma mulher pode ser difícil chegar em casa sob essa realidade, e ela também pode nunca chegar. Fui me preparando psicológica e fisicamente para tanto. Quando a parada chegou eu pulei do assento o mais rápido que pude e contornei as pernas do homem que se masturbava incessantemente, sempre por debaixo da pasta, imaginando que o mesmo não desceria já que não havia se levantado e solicitado a parada, e que teria um pingo de vergonha de mudar de ideia em cima da hora. Eu não sei porque cargas d’água eu pensei que um homem que não tinha vergonha de se masturbar em público pudesse realmente sentir vergonha de qualquer outra coisa. Desci com uma espécie de alívio que durou apenas um segundo pois ao olhar para trás para me verificar da minha segurança, como num filme de horror, ali ele se encontrava, na mesma parada que eu. Ele havia descido do ônibus. Pânico. Isso só me confirmou o que acontecia e os meus medos do que me poderia acontecer. Para minha “sorte” tinham três pessoas na parada e eu fiquei torcendo para que elas ali se mantivessem até eu bolar o plano B. E o homem se manteve igualmente ali aguardando sua presa. Ele me mantinha como refém. Tudo em silêncio. Tudo sozinha. Então uma pessoa pegou o próximo ônibus e dali uns minutos a segunda, quando eu vi que logo a terceira pessoa ia pegar o seu ônibus eu resolvi agir rapidamente, olhei ao meu redor e vi um grupo de pessoas se aproximando, eram três homens, eu então disse olá tudo bem? E comecei a caminhar com aqueles homens, o que não me garantia muita segurança, mas eu não tinha muitas chances. Eu não pensei na época em confrontar fisicamente aquele homem que havia se masturbado no ônibus e pronto para me atacar, além dele ser bem maior do que eu, eu não sabia se ele estava armado, eu tampouco estava interessada em dar-lhe as costas e esperar para que me atacasse. E foi assim que eu me livrei desse homem, os três caras estavam indo para a mesma direção que eu e nos separamos a umas duas quadras antes da minha casa.

Havia porém uma outra razão para eu ter ficado em silêncio durante todo o meu suplício, que nesta narrativa eu escolhi deixar para o final. Eu lembro que eu pensei que se caso eu procurasse ajuda das pessoas no ônibus e caso elas não agissem com indiferença e me fizessem sentir vergonha, que podia acontecer que se desencadeasse o linchamento daquele homem. Parece esquisito eu ter escolhido a integridade física daquele homem em contraponto a minha própria. Mais tarde quando eu já estava segura eu só pensava que ele poderia estar atrás de uma outra mulher e agora eu me sentia culpada perante a esta conclusão.

Vendo que dos últimos casos de violências contras às mulheres das últimas semanas surgiram debates sobre punitivismo eu me lembrei de tudo isso que me aconteceu de todos os detalhes, e me perguntei, de quem e para quem essas pessoas estão falando sobre punitivismo? Quem são as pessoas em grande maioria que além de cometerem as violências primárias costumam cometer crimes de vingança? Pergunto, fora considerar que as denúncias feitas por mulheres contra homens podem talvez se tornarem escrachos e possíveis mas muito improváveis linchamentos o que está sendo feito para parar a violência dos homens? Quais medidas a esquerda tem tomado para acabar com a violência masculina? Nem mesmo acreditar nas mulheres agredidas a esquerda costuma acreditar, são incansáveis as denúncias de abuso que não mudam absolutamente nada na vida do agressor que muito pelo contrário continua andando pelos mesmos cenários que sempre andou. Então esta questão sobre o punitivismo além de tudo o que já foi mencionado é também falha em vários sentidos. Ela parece se alienar da realidade material. As pessoas que estão sendo punidas em primeiro lugar são as mulheres. Não que o debate sobre punitivismo não possa acontecer, mas também ele demonstra a prioridade da preocupação com a segurança dos homens. A misoginia é estrutural, dar menos importância a segurança das mulheres é sua consequência. Dentro de uma perspectiva de debate você sempre pode escolher uma neutralidade, se distanciar para elaborar teorias que podem até fazer sentido, teoricamente, mas que não correspondem com a realidade ou que favorecem os opressores, neste caso a neutralidade pode ter escolhido um lado.

Os homens mantém as mulheres como reféns, o patriarcado e a misoginia inerente a ele, nos atingem diariamente, a nossa rotina pode ser pesada e perigosa, mas nós mulheres somos sempre culpabilizadas, seja por estarmos no “lugar errado”, na hora “inapropriada para uma mulher”, com as roupas “erradas” (ou não), seja por vocalizarmos nosso sofrimento com o preço de sermos as responsáveis pela segurança dos nossos algozes.

 

aline rod.

A Questão do Desaparecimento – Uma Reflexão Sobre o Apagamento da Lesbianidade –

Pelo dia e mês da visibilidade lésbica decidi fazer a tradução deste texto que trata de uma realidade atual das mulheres lésbicas. Que as mulheres lésbicas sejam ouvidas ao mesmo tempo que não silenciadas.
– 29 de agosto dia da visibilidade lésbica –

A Questão do Desaparecimento – Uma Reflexão Sobre o Apagamento da Lesbianidade
-por Claire (Sister Outrider)

Estes são tempos estranhos para ser uma jovem mulher lésbica. Ou melhor, jovial. No tempo que me levou para evoluir de uma inexperiente sapatão caçula em uma completa e formada lésbica, a tensão entre as políticas de identidade do queer e a libertação das mulheres se tornou realmente insuportável. O facebook adicionou reações da bandeira do orgulho gay no mesmo mês que eles começaram a banir mulheres lésbicas por nos descrevermos como butch (algo como sapatão ou caminhão em português). Enquanto a legislação de casamento e o direito de adoção para casais do mesmo sexo se tornam cada vez mais parte da sociedade dominante, o direito de mulheres lésbicas de se auto definirem e declararem seus limites sexuais é comprometido dentro da comunidade LGBT+. Tais contradições são características desta era, mas isso não torna elas mais fáceis de suportar dia após dia.

Amor é amor, a não ser que aconteça de você ser uma mulher lésbica – neste caso sua sexualidade será incansavelmente desconstruída sob suspeita de você estar sendo excludente. Como já escrevi anteriormente, cada sexualidade é por definição excludente. Sexualidade é um conjunto de parâmetros que governa as características que potencialmente nos atraem nas outras pessoas. Para lésbicas, é a presença das características sexuais primárias e secundárias das mulheres que geram (mas não garantem) a possibilidade de atração. O sexo, e não o gênero (nem mesmo a identidade de gênero), é o fator chave. Mas no ponto de vista queer, assim como no da sociedade patriarcal dominante), lésbica é uma designação contestável.

Mulheres lésbicas são encorajadas a se descreverem como queer, um termo tão abrangente e vago que parece ser desprovido de significado específico, pelos motivos de que ninguém que possuí um pênis é tido como inteiramente fora dos nossos limites sexuais. Jocelyn MacDonald coloca muito bem:

“Lésbicas são mulheres, e mulheres são ensinadas que devemos estar disponíveis sexualmente como objetos de consumo público. Então nós despendemos muito tempo dizendo “Não”. Não, nós não vamos transar ou nos relacionar com homens; não, nós não vamos mudar de ideia quanto a isso; não, este corpo não é território masculino. Lésbicas, hetero ou bissexuais, nós mulheres somos punidas sempre que tentamos demarcar limites. O queer sendo um termo genérico torna realmente difícil para lésbicas assegurarem e manterem estes limites, porque se torna impossível nomear estes limites.”

Em tempos em que o reconhecimento do sexo biológico é tratado como um ato de intolerância, a homossexualidade é automaticamente problematizada – as consequências não previstas das políticas identitárias de gênero são enormes e de largo alcance. Ou ainda, seria mais correto dizer, que a sexualidade lésbica virou um problema: a ideia de que nós mulheres direcionemos nossos desejos e energias de uma para outra continua suspeita. De alguma forma, o padrão de homens centrarem homens nas vidas deles nunca recebe o mesmo backlash (reação negativa, resposta em forma de ataque). As lésbicas são uma ameaça ao status quo, seja no heteropatriarcado ou na cultura queer. Quando nós lésbicas rejeitamos a ideia de nos relacionarmos com alguém com pênis, nós somos taxadas de “fetichistas de vaginas” e ginefílicas – Levando em conta que a sexualidade de lésbicas é rotineiramente patologizada no discurso queer, assim como a sexualidade lésbica é patologizada pelo conservadorismo social, não é surpresa para mim que tantas mulheres jovens sucumbam a pressão social e abandonem o termo lésbica em favor do termo queer. O auto apagamento é o preço da aceitação.

“Não é nenhum segredo que o medo e o ódio a homossexuais permeiam nossa sociedade. Mas o desprezo por lésbicas é distinto. É diretamente arraigado no repúdio à autodefinição da mulher, à autodeterminação da mulher, às mulheres que não são controladas pela necessidade, pelo comando ou pela manipulação masculina. O desprezo por lésbicas é mais comumente um repúdio político às mulheres que se organizam em seu próprio benefício em busca de estarem presentes no espaço público, de que sua força seja validada, que sua integridade seja visibilizada.

Os inimigos das mulheres, aqueles que estão determinados a nos negar a liberdade e a dignidade, usam a palavra lésbica para provocar o ódio às mulheres que não se conformam. Este ódio ecoa em toda parte. Este ódio é sustentado e expressado por praticamente todas as instituições. Quando o poder masculino é desafiado, este ódio se intensifica e se inflama de forma a ser volátil, palpável. A ameaça é de que esse ódio pode explodir em violência. A ameaça é onipresente porque a violência contra a mulher é culturalmente aplaudida. E assim a palavra lésbica, gritada ou sussurrada em tom de acusação, é usada para direcionar a hostilidade dos homens contra as mulheres que ousam se rebelar, e é também usada para assustar e intimidar as mulheres que ainda não se rebelaram.” – Andrea Dworkin

A política de identidade queer tende a pensar que mulheres nascidas mulheres se interessarem exclusivamente por outras mulheres é um sinal de intolerância. Não vamos desperdiçar parágrafos com equívocos. Este mundo já tem silenciamentos acerca de gênero mais do que o suficiente, e é invariavelmente as mulheres que pagam o maior preço por estes silenciamentos – neste caso, mulheres que amam outras mulheres. Então eu digo o seguinte: lésbicas negarem categoricamente a possibilidade de se relacionarem com alguém com pênis é tido como transfóbico pela política queer porque não inclui mulheres trans na esfera dos desejos de lésbicas. A lesbofobia inerente na redução da sexualidade lésbica à fonte de validação, obviamente recebe passe livre.

Ainda assim, a sexualidade lésbica não necessariamente exclui pessoas que se identificam como trans. A sexualidade lésbica pode se estender a pessoas que nasceram mulheres que se identificam como não binárias ou queergênero. A sexualidade lésbica pode se estender a pessoas que nasceram mulheres que se identificam como homens trans. Comparando a alta proporção de que homens trans auto identificados viviam como lésbicas butch antes de transicionarem, não é incomum que homens trans façam parte de relacionamentos lésbicos.

Aonde está o limite entre uma lésbica butch e um homem trans? Durante suas reflexões sobre a vida das lésbicas, Roey Thorpe considera que “…invariavelmente alguém pergunta: Aonde todas as butches foram parar? A resposta curta é masculinidade trans (e a resposta longa requer um artigo próprio). Em qual parte dentro do espectro de identidade termina o butch e o trans começa?

O limite é amorfo, embora de forma imaginativa Maggie Nelson tenta traçar em The Argonauts. O parceiro dela, o artista Harry Dodge, é descrito por Nelson como um “butch charmoso em T.” segundo Nelson “qualquer semelhança que eu observe nos meus relacionamentos com mulheres não é a semelhança como Mulher, e certamente não é a semelhança das partes envolvidas. Ao invés disso é a esmagadora compreensão compartilhada do que significa viver no patriarcado.” Dodge é gênero fluido e de aparência masculina. A testosterona e a cirurgia de remoção dos seios não removem a compreensão do seu local neste mundo como mulher. Estas verdades coexistem.

A ideia de que lésbicas são transfóbicas porque os limites da nossa sexualidade não se estendem em acomodar o pênis é uma falácia falocêntrica. E a pressão nas lésbicas para redefinirem esses limites é francamente assustadora – se baseia numa atitude do direito de propriedade sobre os corpos das mulheres, uma atitude que é parte do patriarcado e agora tem sido reproduzida na esfera queer. As mulheres lésbicas não existem para que sejam objetos sexuais ou fontes de validação, mas como seres humanos autodefinidos com desejos e limites próprios.

Conversar sobre a política queer com amigos homens gays da mesma idade que eu é algo revelador. Eu sou lembrada de duas coisas: para os homens, ‘não’ é uma palavra aceita como assunto encerrado. Com mulheres, o não é tratado como uma abertura à negociação. A maioria dos homens gays fica horrorizada ou então surpresa com a noção de que os parâmetros de suas sexualidades possam ou devam mudar de acordo com as imposições da política queer. Alguns (os mais sortudos – a ignorância é uma benção) não estão familiarizados com a fantasiosa teoria queer. Outros (os recentemente inciados) estão, como era de se esperar, resistentes a problematização da homossexualidade do ponto de vista queer. Teve um que chegou a sugerir que gays, lésbicas e bissexuais rompessem com a sopa de letrinhas do alfabeto da política queer e se auto organizassem especificamente em torno das suas sexualidades – dado que as lésbicas estão sendo sujeitas a caça às bruxas TERF (feministas radicais trans excludentes em português) por terem feito a mesma sugestão, foi ao mesmo tempo encorajador e lamentável ouvir de um homem que está fora do feminismo radical dizer a mesma coisa sem medo de ser censurado.

Fico feliz em dizer que nenhum dos homens gays que eu chamo de amigos optaram pelo que pode ser descrito como a lógica de Owen Jones: rejeitar as preocupações das mulheres lésbicas e as tratar como atos de intolerância, numa tentativa de conseguir biscoitos-de-arco-íris da aprovação como aliado trans. A onda de homens de esquerda em lucrarem com a misoginia para consolidar sua reputação é um conto tão antigo quanto o patriarcado. Não é uma grande surpresa que isso aconteça dentro da comunidade queer, já que a cultura queer é dominada por homens.

A comunidade queer definitivamente pode afastar as mulheres lésbicas. Embora eu tenha participado de espaços queer quando eu estava me assumindo, acabei me retirando cada vez mais daquele contexto com o tempo. Eu não sou de forma alguma a única – muitas mulheres lésbicas da minha faixa etária se sentem excluídas e deslocadas nos ambientes queer, lugares que nos dizem que deveríamos pertencer. Não são apenas lésbicas mais velhas que são resistentes a política queer, apesar de que deus sabe o quanto elas nos avisaram sobre a misoginia nela. Meu único arrependimento é não ter ouvido antes – que eu tenha perdido meu tempo e energia tentando conciliar divergências ideológicas entre o queer e o feminismo radical.

O discurso queer se utiliza de uma abordagem coerciva para forçar lésbicas a se conformarem – ou nós acatamos o queer e pertencemos ao grupo, ou nós seremos apenas figuras irrelevantes que estão “por fora” como “as velhas lésbicas chatas”. Esta abordagem, na misógina discriminação pela idade, foi equivocada: eu não consigo imaginar nada que eu quisesse ser mais do que uma lésbica mais velha, e é maravilhoso saber que este é o meu futuro. A influência que tem em mim a profundidade do pensamento das mulheres mais velhas, a forma como elas me desafiam e me guiam no processo de consciência feminista, tem um papel central em formarem tanto a minha noção sobre o mundo como compreender meu lugar nele. Se eu for realmente sortuda, um dia eu terei aquelas conversas elevadas (e as vezes, intelectualmente extenuantes) com as futuras gerações de jovens lésbicas.

Embora eu aprecie o apoio e a sororidade das lésbicas mais velhas (de longe meus seres humanos favoritos), em certos aspectos eu também as invejo pela relativa simplicidade da existência lésbica nos anos 70 e 80. A razão para esta inveja: elas viveram vidas lésbicas num tempo anterior a política queer se tornar dominante. Eu não estou dizendo isso desconsiderando ou implicando que o passado
foi uma utopia para os direitos de gays e lésbicas. Não foi. A(s) geração(ões) deles tiveram a cláusula 28 (“section 28”), cláusula que bania que a homossexualidade fosse considerada nas escolas como relacionamento familiar normal) e a minha tem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os avanços que beneficiam minha geração são resultado direto da luta deles. Ainda assim as lésbicas podiam viver pelo menos parte de suas vidas numa época em que de todas as razões pelas quais a palavra lésbica foi encarada com desgosto, ser considerada “demasiado excludente” não era uma delas. Não houve um ímpeto, dentro de um contexto feminista ou gay, tornar a sexualidade lésbica esquisita (“queer” em inglês, a autora aqui faz um trocadilho).

Algumas coisas não mudaram muito. A sexualidade lésbica é comumente degradada. As mulheres lésbicas ainda estão nas campanhas lésbicas do “Não se preocupe, eu não sou aquele tipo de feminista.” Só que agora, quando eu checo as minhas notificações no Twitter, realmente levo um tempo para descobrir se minha lesbianidade ofendeu a “alt-right” (nova denominação da extrema direita) ou da esquerda queer. Isso faz alguma diferença? A lesbofobia tem o mesmo formato. O ódio às mulheres é o mesmo.

Durante a Parada Gay, uma foto de uma mulher trans sorridente vestindo uma camiseta manchada de sangue dizendo “eu soco as TERFs” circulou nas redes sociais. A imagem tinha a seguinte legenda “isso é como a libertação gay se parece”. Aquelas de nós que vivem na intersecção entre a identidade gay e a mulheridade – lésbicas- são frequentemente taxadas de TERFs puramente pelo fato de que nossa sexualidade torna esta reivindicação dúbia. Considerando que vivemos num mundo onde uma a cada três mulheres sofre violência física ou sexual durante sua vida, eu não me surpreendo– não tem nada de revolucionário ou contracultural em fazer uma piada sobre bater em mulheres. A violência contra as mulheres foi glorificada sem pensar duas vezes, colocada como um objetivo de políticas libertárias. E nós todos sabemos que TERFs são mulheres, já que homens que definem limites são raramente sujeitos a tais ataques. Apontar a misoginia obviamente resulta numa nova enxurrada de misoginia.

Existe uma réplica preferida reservada para as feministas que criticam as políticas sexuais da identidade de gênero, uma resposta certamente associada mais com adolescentes meninos do que qualquer política de resistência: “chupe meu pau de garota”. Ou, se a maldade se junta com uma tentativa de originalidade, “engasgue com meu pau de garota”. Ouvir “engasgue com meu pau de garota” não parece nada diferente de ouvir te dizerem que engasgue num pau de qualquer tipo, mesmo assim isso se tornou já quase uma parte da rotina do discurso de gênero que se abriu no Twitter. O ato permanece o mesmo. A misoginia permanece a mesma. E isso está dizendo que neste cenário a gratificação sexual é derivada de um ato que muito literalmente silencia as mulheres.

Uma frase icônica de Shakespeare em Romeu e Julieta proclama que “uma rosa com qualquer outro nome teria um aroma igualmente doce.” Com isso em mente (por existir muito mais tragédia do que romance sobre esta situação), eu diria que independente do nome um pênis iria repelir sexualmente as lésbicas. E isso é ok. O desinteresse sexual não é a mesma coisa que a discriminação, a opressão ou a marginalização. Porém, sentir que a sexualidade é um direito que se tem sobre alguém é : ele é parte fundamental da opressão das mulheres, e se manifesta claramente na cultura do estupro. Dentro da concepção queer não há espaço dedicado para discussões sobre a misoginia que possibilita o se sentir no direito de ter acesso sexual aos corpos de mulheres. Simplesmente reconhecer que o assunto existe é considerado inaceitável, e como resultado, temos a misoginia protegida por camadas e camadas de silêncio.

Esta não é uma época radiante para se ser uma lésbica. A falta de vontade das políticas queer para simplesmente aceitar a sexualidade lésbica como válida por direito é profundamente desamparadora, ao ponto de se privilegiar o desejo de ter sexo sobre o direito de recusa ao sexo. E mesmo assim a conexão lésbica persiste, como sempre persistiu. Os relacionamentos lésbicos seguem florescendo enquanto oferecem uma alternativa radical ao heteropatriarcado – só porque não é particularmente visível agora, apenas por não ter o apelo dominante (isto é, patriarcal) que tem a cultura queer, não significa que não esteja acontecendo. As lésbicas estão em toda a parte – isso não vai mudar.

Nolite te bastardes carborundorum.

Claire

traduzido por Ação Antisexista

original aqui
https://sisteroutrider.wordpress.com/2017/07/01/the-vanishing-point-a-reflection-upon-lesbian-erasure/amp/

Além de sofrermos abusos, nos querem caladas – sobre as denúncias de abusos de homens contra as mulheres no meio musical

Nas últimas semanas surgiram denúncias de abuso por parte de homens de diferentes bandas, e com isso se iniciou um debate nas “redes sociais”. Como de costume, os debates são rasos, as pessoas sem um mínimo de entendimento das consequências que os abusos causam nas mulheres passaram a questionar a veracidade dos fatos e as mulheres abusadas, bem como apesar de uma total falta de compreensão sobre o feminismo, direcionaram suas opiniões sobre feministas provocando o silenciamento por parte de muitas mulheres e críticas àquelas que ousam confrontar a dominação masculina.
segue o texto publicado por lá.

Além dos abusos que nós mulheres sofremos, nos querem caladas, o abuso não pode ser revelado, tem que se manter como um segredo ou alguma coisa suja que não pode manchar esta ou aquela cena, o ambiente, a família, as amizades. Mas que amizades seriam exatamente as que não se preocupam com a nossa integridade física e emocional? Que só ficam contentes com a gente quando concordamos com seguirmos sendo oprimidas em silêncio? Qual a finalidade de perante uma denúncia desviar o assunto e diluir a gravidade das consequências dos abusos cometidos contra uma mulher? Diluir o assunto com o intuito de salvar a pele dos homens em detrimento de machucar as mulheres? Diluir o assunto para dividir as mulheres entre si? Por que é mais importante a preocupação com o emprego dos homens, com a carreira deles, com o seu status, do que com o corpo e o psicológico das mulheres? E seus traumas? E com a carreira delas? (sim muitas mulheres perdem o emprego quando sofrem abuso, não podem trabalhar porque o ‘parceiro’ não deixa entre outras causas). E só um pouco aí, quantas de nós mulheres que estão na música temos que incessantemente por anos a fio provar a nossa competência, ou talento, ou só o direito de estarmos ali com ou sem talento mesmo? O que significa que no meio de uma denúncia de abuso as pessoas acham mais “adequado”, mais urgente e relevante falar que “as vezes é possível que as denúncias sejam irresponsáveis”? Qual a finalidade de elaborar palavras que apenas servem como uma ótima justificativa e salvação para homens abusivos?
O que leva uma pessoa a achar o que ela julga irresponsável (e aí teríamos ainda que partir do princípio que seu julgamento é correto) causa mais danos do que a própria violência cometida? Isso só demonstra quem está em primeiro lugar e só corrobora com o porquê de continuarmos resistindo.

O que eu vi aqui foi que no meio de uma denúncia e de um debate que podia trazer mais solidariedade com as mulheres e entre elas mesmas, foi mais importante ressalvar que o orgulho dos homens não pode ser ferido sobre hipótese alguma, antes uma mulher abusada, do que um orgulho de homem machucado. E quanto carreira e sustentabilidade, pois somos nós mulheres em comparação aos homens que pertencemos a classe que recebe menos pelos mesmos serviços prestados, que criamos filhos sozinhas, que não conseguimos ou perdemos emprego por estarmos grávidas ou por termos filhos pequenos, e comumente porque nossa capacidade é questionada e é preferível colocar um homem no posto. Muito ruim as posições que li aqui, homens sendo acusados de abuso ou suas bandas e ao invés de se retratarem (perderam a chance) procuraram sem nenhum constrangimento usarem do momento para salvarem a pele de uma forma muito oportunista e ainda por cima sobre o sofrimento de mulheres abusadas. É possível que se acredite que nós não sabemos o que nos acontece com nós mesmas e que palavras incoerentes e que não condizem com a realidade vão entrar na cabeça de todas as mulheres e que o feminismo vai sumir? Não, o feminismo não vai sumir, o que precisa sumir antes disso é a opressão e exploração cometida contra as mulheres. Por quê não se começa primeiro apontando a opressão e se solidarizando ao invés de apontar os possíveis erros cometidos por mulheres abusadas? E quais erros essas mulheres realmente cometeram? Procurar apoio? Se sentirem mais dignas e quem sabe com sorte menos sozinhas? E elas tem que serem perfeitas?

O que de fato se sente quanto uma mulher retira uma denúncia? alívio? E alívio pelo que exatamente? Porque se estava preocupado com a saúde da moça ou porque agora a sua banda pode seguir de vento em popa? Alguém cavoca se é verdade mesmo que não aconteceu nada agora? Alguém pede agora provas de que o que não aconteceu não aconteceu mesmo?

Vocês sabem porque mulheres voltam atrás nas denúncias de violência? Vocês se sentem bem se eu disser que esse modus operandi visto aqui contribui para isso? E consequentemente com mais violência contra a mulher? Que ser paternalista e elogiar mulheres por se comportarem como “preferível” contribui para o silenciamento de mulheres? E para que sofram mais violências?

O desconforto que debates assim podem causar não pode ser mais importante que a segurança física e emocional das mulheres. Eu acho que é possível fazermos melhor que isso.

aline rod.

A Linguagem Misógina do Discurso Liberal e o Apagamento da Realidade das Mulheres

“Bio chicas” é um dos termos mais ofensivos e desrespeitosos que já ouvi ser usado para se referir a meninas. Ouvi este num debate sobre “desconstrução de gênero”. Engraçado, que esta abordagem de desconstrução nada mais é que apagar a opressão e exploração que nós mulheres sofremos desde que nascemos. Engraçado que esta tal desconstrução tem o objetivo de negar que a opressão e a exploração das mulheres são baseadas no sexo. O gênero é uma construção social, determinada pelo sexo, ou alguém acredita que é tirado unidunitê a cada pessoa que nasce e que se escolhe por acidente qual gênero esta pessoa vai ter? O gênero é determinado pelo sexo e vai determinar o tipo de tratamento que uma pessoa vai receber. As mulheres vão fazer parte da classe subordinada e os homens farão parte da classe dominante, e isso significa que as mulheres terão seus corpos controlados pelo estado e suas leis – por exemplo a criminalização do aborto – sendo as mulheres punidas por tal crime, correndo risco de vida em aborto clandestino, ou ainda obrigadas a manter a gravidez contra a sua vontade independente das condições que se encontram.
Este tratamento determinado pelo sexo também significa que as mulheres serão vistas como propriedade dos homens de tal forma que a violência perpetrada pelos homens contra as mulheres se dará tanto por homens próximos como por estranhos, fazendo parte da guerra não declarada contra as mulheres, o que por sua vez significa todos tipos de violência incluindo tirar suas vidas – o feminicídio.
Esse tratamento igualmente significa que as oportunidades na vida serão distintas desde a infância, sendo a autoestima e a autoconfiança de uma menina completamente atacadas desde muito cedo enquanto as dos meninos comumente estimuladas e insufladas. Isso significa que os corpos dessas meninas serão objetificados e hipersexualizados desde pequenas. Isso significa que meninas e mulheres fazem parte da classe que sofre de forma incontestavelmente maior com abuso e violência sexual.
Isso significa ainda, que estas oportunidades continuarão sendo distintas e que as mulheres irão receber salários menores pelos mesmos serviços prestados, ou serão “naturalmente direcionadas” a profissões menos valorizadas. Isso significa que a prostituição será uma “oferta” incomparavelmente mais presente para mulheres e meninas. Isso significa que as mulheres serão as protagonistas da tortura sofrida na pornografia que vende o estupro e a violência contra a mulher como entretenimento e diversão. E isso por sua vez significa manter a cultura do estupro.

Simplesmente não querem se referir as meninas como meninas porque isso estaria excluindo “meninas não bio”, considerando o sentimento destas mais importante e relevante do que as consequências materiais da opressão baseada no sexo que se seguirá por toda a vida de uma menina. Infelizmente a esquerda foi cooptada pelo liberalismo e não percebeu, e estamos vendo uma onda de políticas identitárias substituindo o feminismo e o tratando como ultrapassado. Não só negando o feminismo, mas distorcendo e moldando a luta das mulheres para que atenda as necessidades de outros grupos – porque as mulheres nunca serão prioridade. Sabemos muito bem que pertencemos a segunda classe no patriarcado, somos tratadas desde que nascemos assim, sabemos que a misoginia é tão verdadeira e poderosa que o backlash* sempre vai acontecer de uma forma nova e revestida.

Agora temos que lidar com o discurso do “subversivo” que nada mais é do que estar disfarçado nesta categoria, porém mantém a mesma ordem de que nós mulheres sejamos exploradas e que temos que acatar isso caladas. O discurso do subversivo ataca erroneamente as feministas chamando-as de conservadoras para ganhar a discussão. Argumento desonesto e sem absolutamente um mínimo de entendimento do que significa a luta feminista e o que significa a importância de garantir que não sejamos silenciadas.

O discurso liberal tá se encarregando de criar, “em nome da diversidade”, vários termos que apagam as realidades de nós mulheres, nos sufocando com o intuito de extinguirem nossa resistência. Porém isso nunca vai acontecer. Enquanto houverem mulheres nesse mundo haverá luta. Enquanto formos exploradas e oprimidas sempre haverão mulheres priorizando sua sobrevivência.

aline rod.

*backlash no contexto feminista é o contra-ataque ou reação negativa ao feminismo.

“Gênero não é uma outra palavra para Sexo”

A opressão das mulheres é baseada no sexo. O gênero é uma construção social. Sendo assim, as pessoas que nascem com vagina são clocadas no gênero feminino e as pessoas que nascem com pênis são colocadas no gênero masculino. O gênero é uma convenção que coloca as mulheres como subalternas dos homens – fundamento do patriarcado. Esta noção de que as mulheres são inferiores aos homens leva as mulheres a serem tratadas de forma diferente e desfavorável da dos homens. Este tratamento tem consequências materiais na vida das mulheres como a discriminação, o controle ao corpo das mulheres incluindo o controle reprodutivo, menores salários e oportunidades, violência sexual massivamente maior contra as meninas e mulheres, violências físicas e psicológicas específicas, prostituição e tráfico sexual, mutilação genital, feminicídio.

É por isso que a opressão das mulheres é baseada no sexo. O gênero é dado a pessoa quando ela nasce.

Dizer isso não significa que se está negando a realidade de outras pessoas, dizer isso é reconhecer a luta das mulheres e de onde vem a opressão e exploração que sofrem desde seu nascimento.
Negar a realidade das mulheres é misoginia.

Homens Abusivos Que Usam do Feminismo Para Conseguirem Imunidade

Alguns homens se beneficiam ao usarem do feminismo para conseguirem imunidade. São homens que não diferente de outros abusam de mulheres, porém descobriram que “apoiando” o feminismo eles nunca serão descobertos nem cobrados. São homens que lançam textos sobre feminismo ou discursam feminismo mas nunca tiveram nem de perto a tentativa de se retratarem com as mulheres que eles abusaram. Isso nos mostra que ele não está interessado em praticar o discurso, nem apoiar as mulheres, mas se livrar da culpa. O que só mostra seu grau de manipulação, só confirma o quanto foi abusivo. Só comprova que ele continua sendo abusivo ao seguir passando por cima dos sentimentos e da realidade das mulheres que ele abusou, sem nenhum escrúpulo. Ora, se esse homem se dá ao trabalho de ler textos sobre abuso e distribuí-los ou discursar sobre feminismo, significa que ele tem acesso para entender a questão. Mas muito pelo contrário, ao invés de procurar entender o que é de fato abuso, ele escolhe continuar sendo um homem manipulativo, logo, abusivo. Ele continua desta forma que escolheu – de fingir que nada aconteceu e ainda adentrar no feminismo como cooperador – a causar danos no psicológico da mulher que ele abusou, pois além de ter sido abusada, ela agora tem que lidar com o total apagamento dos abusos que sofreu, e ainda vê-lo procurando ser reconhecido como apoiador da luta das mulheres. Mais uma vez o patriarcado exige apenas dela que resolva sozinha os seus traumas. Mais uma vez ela tem que achar forças para enfrentar uma nova batalha.

O comportamento manipulativo e narcisista de seu abusador tá sempre lá presente ao alcance deste para que possa se beneficiar, para conseguir algo em troca, para conseguir o que ele deseja e só o que ele deseja (característica do seu narcisismo), e para que se mantenha na mesma posição social que tinha antes de cometer os abusos.

Algumas pessoas vão dizer que bastava então as mulheres abusadas por esses homens fazerem denúncias. Bastava mesmo? Elas por acaso não as fazem? Quantas mulheres denunciam seus abusadores e são tachadas de exageradas, vingativas, rancorosas e mentirosas? Quantas mulheres depois dos abusos que sofreram ainda tem que lidar com estar constantemente tendo que provar para todo mundo que o que lhes aconteceu é verdade? Quantas mulheres ficam estigmatizadas e são ostracizadas por denunciarem abuso enquanto seus abusadores não só se safam mas recebem solidariedade da comunidade? Quantas vezes a mulher mesmo que não faça uma denúncia numa escala pública, aberta, fala sim para amigos mais próximos ou em comum com seu abusador e tem que ver o mesmo continuando receber o mesmo tratamento sem nenhuma ressalva por parte de nenhuma dessas pessoas? Nem todas as mulheres estão também dispostas a se exporem, principalmente porque sabem que não serão apoiadas.
E por que a responsabilidade disso tudo fica com a vítima do abuso?
O que a sociedade está querendo nos dizer?

A obrigação não está na mulher em fazer a denúncia, mas deveria estar nos homens não cometerem abusos e se cometerem se responsabilizarem por isso. Isso não é dizer que as mulheres não devem denunciar, de forma alguma, isso é tirar a responsabilidade exclusiva dos ombros das mulheres abusadas e também compreender as que não se sentem seguras para fazê-lo.

É muito comum homens que cometeram abusos preferirem enxergar que o que aconteceu foi uma questão pessoal, uma coisa entre homem e mulher, das “relações interpessoais”, e falham em compreender que o que aconteceu foi completamente fruto do patriarcado, que enquanto lhes beneficia, tem desfavoráveis consequências materiais e específicas às mulheres dentro deste mesmo sistema.

Mas esses mesmos homens (pasmem!) discursam também sobre a estrutura do patriarcado! Como se ele tivesse imunidade, como se ele não tivesse colaborado e não seguisse colaborando com essa estrutura. Então o homem abusador que defende que se deve meter a colher na violência contra a mulher, que demonstra ter consciência de que o pessoal é político, por quê ele de repente tenta a todo custo defender que o que ele fez foi meramente a nível humano, natural e pessoal, e procura agora separar o pessoal do político? Para esta eu tenho a resposta: por conveniência e covardia.

É conveniente oscilar entre o que é pessoal do que é político quando se trata de você mesmo. E é covardia desde quando ele se utilizou da manipulação, e segue incessantemente com o seu comportamento covarde. Eu acho é muito triste, não me dá nenhuma alegria escrever este texto nem recompensa. Mas está feita a denúncia. Esta é a minha denúncia, contra todos os homens que se safam dos abusos que cometem, saibam vocês que nós sabemos muito bem o que aconteceu. E se lhes resta um pingo de dignidade admitam que o que fizeram foi abusivo, lembrem do que acontecia durante o tempo que se relacionavam, lembrem das mentiras relevantes e graves, e igualmente das atitudes, que como consequência, só estendeu o prazo de validade da manipulação que se operava. lembrem dos impedimentos que criaram sejam nas escolhas que suas parceiras faziam, seja nas roupas que vocês criticavam ou no comportamento delas com o intuito de controlá-las. Lembrem de como vocês as usaram para prazer pessoal ou para outros fins quando ao mesmo tempo desconsideravam as necessidades ou dificuldades delas. lembrem daquele momento que vocês já sabiam o que tava acontecendo mas optaram por deixá-la no escuro e a enganaram até o fim, mas não vacilaram de forma alguma, de sugá-la até drená-la quase que completamente porque “sua companheira” estava ali para te servir e nutrir afinal das contas. Lembrem de que foram vocês que continuaram andando pelos mesmos espaços que tinham em comum enquanto ela teve que se retirar, e não esqueçam que muitas vezes esses espaços eram o ganha pão dela, e aqui vale lembrar que as mulheres tem menor poder econômico em comparação aos homens. Lembrem do que vocês faziam no foro íntimo, quando sua parceira estava dormindo. Porque elas não esqueceram, e ao contrário de vocês, elas se culpabilizam por “terem deixado chegar até aquele ponto”. O patriarcado é tão cruel que a culpa sempre fica com a mulher. Foi ela em fim que aguentou porque quis.

aline rodrigues

Áustria – Vendida a casa onde José Fritzl torturou e estuprou a filha para um proprietário de uma “casa noturna”.

Essa notícia é muito perturbadora. Toda essa história é muito perturbadora. Um pai que manteve a filha em cativeiro estuprando-a repetidamente por 24 anos. 24 anos. Como se não bastasse os estupros e a privação, Elisabeth a vítima (sua filha), teve sete filhos decorrentes dos estupros, dos quais três (com 5, 18 e 19 anos) nunca haviam visto a luz do dia até serem resgatados em 2008.
Agora um dono de um “strip club” comprou a casa por 160.000 euros. É como um filme de terror, é como uma risada bem grande na nossa cara, no sofrimento das mulheres. O ódio às mulheres tanto não tem limites quanto é negligenciado. Eu sempre considero relevante lembrar que o patriarcado antecede ao capitalismo, porém eu também sei que o capitalismo e o patriarcado andam juntos e se sustentam entre si. A compra desta casa é uma ‘jogada de marketing’, e o mais incrível é que associa a exploração das mulheres com estupro e incesto como propaganda, nem se preocupa em negar e defender que “os clientes compram um serviço como qualquer outro”, como costumam dizer. Eu vejo assim pelo menos, pra mim tá bastante claro. Me perturba demais esta notícia, mexe com alguma coisa dentro de mim, um absolutamente medo do que tudo isso possa causar um “incremento” no abuso, exploração, sofrimento, na vida dessas mulheres. Porque a fantasia masculina está sempre garantida e impulsiona e gera o que os liberais chamam de “trabalho sexual”, em detrimento ao mal-estar, a insegurança, a vulnerabilidade, a exploração das mulheres, as desiguais oportunidades e a violência contra a mulher.

link da notícia:
http://metro.co.uk/2016/12/07/house-where-josef-fritzl-tortured-and-raped-daughter-sold-to-strip-club-owner-6306260/

* essa notícia veio no meu feed de notícias no fb através da página “Wipeout Misoginy”. Agora a Ação Antisexista tem pagina no fb também. Confere lá, curte e apoie!

Vênus em Fúria #5 – 19Março

Vênus em Fúria #5 hoje!

Festival para arrecadar fundos para o Girls Rock Camp Brasil, projeto absolutamente importante, espetacular, para resgatar a autoestima de meninas, capacitando-as para a música e desenvolvendo a parceria entre meninas e mulheres. O festival é todo organizado e composto por mulheres – equipe técnica, roadies, produção e direção de palco, todas as bandas tem mulheres na sua formação – e isso é igualmente relevante e inspirador.
Muito feliz de poder tocar hoje e participar mesmo que de forma singela nesse projeto.
Obrigada por me convidarem.