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Dia Internacional da Mulher – Relato sobre as demos de Potsdam e Berlim

No momento me encontro em Berlim. Aqui tenho articulado com grupos feministas e pude participar de duas demos que aconteceram final de semana passado pelo Dia Internacional da Mulher. Sábado aconteceu a demonstração e protesto organizada por Women in Exile & Friends na cidade de Potsdam que juntou mais de 200 mulheres. Caminhamos pela cidade com nossas faixas e cartazes, gritando frases contra o patriarcado e as fronteiras.

Domingo, no dia 8 de março marchamos também em protesto pelas ruas de Berlim. As mulheres da comunidade Curda estiveram em peso na marcha da qual organizaram juntamente com outros grupos feministas como o grupo International Women Space, e outros grupos de esquerda. Ao mesmo tempo acontecia outra marcha em Berlim organizada por outros grupos feministas. Ambas marchas finalizaram no Brandeburgertor (Portão de Brandenburgo) num total de 8 mil pessoas. Havia um palco montado onde algumas mulheres fizeram suas falas e também bandas compostas por mulheres  tocaram.

Aqui, não diferente do Brasil, também existem homens querendo protagonizar as marchas feministas. No início da marcha em Berlim, as Curdas falaram no microfone para que os homens presentes ficassem na parte de trás da marcha. Vários homens ignoraram este pedido, seja por não terem ouvido ou não terem “entendido” ou por não acharem relevante e propositalmente desafiarem isso. Mais de uma vez varias de nós íamos dizendo para eles irem para trás. Mas o espaço era público e com uma concentração muito grande de pessoas com várias delas se somando no meio do caminho o que tornou mais difícil. Felizmente nós mulheres eramos em número muito maior e nossas vozes e presença se sobressaíram.

As duas demos ( Potsdam e Berlim) foram organizadas por grupos feministas que têm ênfase nos direitos das mulheres imigrantes e refugiadas. Estes grupos lutam contra o racismo, a discriminação, a deportação e denunciam o tratamento dado pelo governo alemão. Uma das exigências destes grupos é abolir os “lagers” (campos de isolamento) como são chamados por ativistas os prédios  aonde as refugiadas e refugiados são obrigados a ficar. O nome utilizado pelo estado alemão é Asylheim (casas de asilo). Porém as pessoas que estão pedindo asilo são colocadas em espaços muito pequenos, tem seus direitos básicos negados, estão sempre sobre risco de serem deportadas, e são marginalizadas ao serem obrigadas a ficarem em áreas restritas e distantes dos centros lhes deixando mais vulneráveis a ataques racistas.

Estes grupos feministas de refugiadas e imigrantes fazem um trabalho para garantirem espaços seguros para as mulheres e trabalham com questões específicas que as mulheres enfrentam.

Não posso deixar de frisar a frente que as mulheres Curdas fizeram na demonstração com seus dizeres, com suas mãos erguidas, com sua música que todas cantavam bem alto. Desta maneira contribuíram para que a demonstração fosse bastante forte e emocionante de forma bastante impressionante.

Eu me sinto muito feliz por ter podido participar das marchas e por estar tendo a oportunidade de articular com as mulheres que encontro aqui de diferentes partes do mundo. Os grupos feministas, as mulheres e as nossas exigências formam uma rede de solidariedade e ações por uma luta em comum: a luta contra a opressão do patriarcado que nos ataca diretamente. A forma como somos atingidas pela opressão quando decorrente de virmos de locais diferentes (muitas formas são exatamente iguais) não nos afasta se respeitarmos nossas diferentes circunstâncias, e nos une ao nos reconhecermos  como classe explorada por vivermos em sociedades misóginas.

13.03.2015

Marcha em Berlim

Marcha em Potsdam

 

 

 

informação adicional sobre o dia: a demo feminista na cidade de Nuremberg foi atacada por neonazis que jogaram objetos e spray de pimenta nas pessoas que estavam na marcha. Algumas pessoas tiveram ferimentos leves.

 

 

 

Mulheres são parte da piada para a banda francesa ‘Attentat Fanfare!’

No dia 12 de janeiro passado, eu vi o show da banda francesa Atenttat Fanfare, no VL na cidade de Halle na Alemanha. O VL é uma hausprojekt, uma casa onde acontecem gigs, oficinas, encontros de grupos de esquerda e também é uma comunidade onde moram várias pessoas. Em seus princípios estão o anti racismo, o anti sexismo, a anti homofobia e a luta contra o anti semitismo.

Eu não fui propriamente para o show, mas estava na casa e acabei ficando. A banda subiu no palco. Os integrantes estavam todos fantasiados, exceto pela mulher que toca acordeon. O vocalista estava de pijamas e pantufas, e os outros integrantes vestiam outras fantasias ou acessórios ‘engraçados’. um deles estava ‘fantasiado’ de mulher. Não pude deixar de pensar que a piada era muito ruim.

Os homens sempre acham uma grande sacada se vestirem de mulher para serem engraçados e debochados. É misógino querer fazer graça com vestimentas associadas às mulheres. Enquanto para os homens pode ser uma brincadeira usar salto alto, maquiagem, etc, para a mulher é como o patriarcado nos força à feminilidade e estabelece como padrões de beleza que nos oprimem.

Apesar de eu ter críticas a esta e outras características da banda não foram estas as razões para eu escrever.

Faço aqui um relato do que se sucedeu durante o show.

No meio do show entre uma música e outra, o vocalista parou para anunciar a próxima música e começou dizendo: “eu estive no Rio no Brasil e lá as mulheres tem grandes ‘tetas’ e bundas incríveis.” E juntamente gesticulava desenhando seios e bundas grandes no ar com as mãos enquanto arregalava os olhos. Eu realmente não acreditei no ponto que chegara. Já estava bastante intragável aquela banda, mas este foi o dado mais concreto e sem nenhuma sombra de dúvida do que estava acontecendo ali. Esta frase só tem a seguinte leitura: misoginia e racismo. Falar das mulheres daquele jeito. Se referir daquela forma às mulheres brasileiras, de um país que muito provavelmente ele nunca tenha pisado, mas que se pisou também não melhora em nada.

Com esta atitude, ele mostrou sem nenhum constrangimento o seu privilégio como homem e como europeu. Ele achou muito engraçado utilizar do estereótipo que se têm – e que também se vende – da mulher brasileira. Ele não está nem aí para o que isso representa. O quanto as mulheres no Brasil são exploradas por exemplo pelo turismo sexual, que seus compatriotas, outros europeus e homens de outros países mais ricos fazem.

Ele simplesmente não sofre com a objetificação do seu corpo, ao contrário de nós mulheres que temos nossos corpos controlados pelo patriarcado e suas leis, onde nossos corpos são objetificados e vendidos em rótulos de cerveja, objetificados e violados inclusive por homens que confiamos. Onde os padrões de beleza nos oprimem e levam muitas mulheres a uma busca incansável e infrutífera pelo corpo perfeito do qual o capitalismo (além do patriarcado) se alimenta. Padrões estes que levam às mulheres, incluindo meninas muito novas, a depressão, anorexia, bulimia e outros transtornos que por si só já são muito sérios, mas que ainda podem levar à morte. Ele se coloca do degrau da misoginia, do privilégio de macho eurocentrado e racista. Ele se apresenta desta forma mesmo num local de reputação libertária e política. Porque os homens se sentem no direito de serem machistas e se beneficiam disso.

Eu reagi gritando contra o vocalista em meio ao som alto as seguintes frases: “you have no right to say what Brazilian women are! you sexist! you racist!”

Ele respondeu dizendo: “maybe I’m too drunk”.

O público seguiu dançando e eles continuaram tocando tranquilamente. E eu me retirei da sala.

Eu não quero com isso culpabilizar as pessoas que ali se encontravam pela falta de reação. Estou me atendo aos fatos, porque estes dizem bastante sobre como aconteceu e como eu me senti. E entendo que principalmente mulheres podem não se sentirem seguras para reagir. Acredito também que algumas pessoas “não viram”, não perceberam. Porém também não deixo de notar que parte deste “não ver” é por conta de que a luta contra a misoginia e o machismo não são consideradas causas legitimas. A luta das mulheres é luta de segunda ordem, para não dizer de terceira ou quinta muitas vezes na escala de hierarquia de lutas. Esta falta de reação me surpreendeu bastante neste contexto específico, diz muito sobre como patriarcado funciona e que é também dominante na cena de esquerda.

Eu posso dizer que eu notei. Eu fui atingida, nós todas as mulheres fomos atingidas pela atitude do vocalista,e por isso faço esta denúncia.

Gostaria de dizer que não sou patriota, não estava defendendo o “meu país”. Isso foi apenas coincidência, teria reagido contra ele da mesma forma se ele estivesse falando de qualquer mulher de qualquer outro lugar do planeta. O que ele fez é culpabilizar as mulheres por serem exploradas. Porque ele não falou dos homens que as exploram, das indústrias que as exploram, do sistema patriarcal. Ele estava objetificando e também debochando das mulheres que ele vê serem retratadas na mídia como enfeites de carnaval.

Porém a ofensa foi a todas as mulheres que ali estavam, quer as pessoas percebam isso ou não. E isso é misoginia.

Dizer que é “só uma piada” não é um bom argumento de defesa. Deu para perceber isso. Não melhora em absolutamente nada, apenas confirma o grau de misoginia e desrespeito pelas mulheres ao tratá-las como objeto também de chacota.

Machistas não passarão!

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Este relato está escrito já fazem uns dias e gostaria de informar que só está sendo publicado depois de eu ter colocado no offenes plenum da casa, que é uma reunião aberta à qualquer pessoa interessada em saber como a casa funciona, sugerir propostas e debater problemas como este. A casa se mostrou solidária e foi tirado nesta reunião que apoiariam minha iniciativa de relatar o ocorrido. As pessoas da casa também me falaram para avisá-las de qualquer situação sexista que ocorrer dentro dela porque não intencionam tolerar.

enilador

 

————————————————-  atualizado no dia 12.03.15