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A Questão do Desaparecimento – Uma Reflexão Sobre o Apagamento da Lesbianidade –

Pelo dia e mês da visibilidade lésbica decidi fazer a tradução deste texto que trata de uma realidade atual das mulheres lésbicas. Que as mulheres lésbicas sejam ouvidas ao mesmo tempo que não silenciadas.
– 29 de agosto dia da visibilidade lésbica –

A Questão do Desaparecimento – Uma Reflexão Sobre o Apagamento da Lesbianidade
-por Claire (Sister Outrider)

Estes são tempos estranhos para ser uma jovem mulher lésbica. Ou melhor, jovial. No tempo que me levou para evoluir de uma inexperiente sapatão caçula em uma completa e formada lésbica, a tensão entre as políticas de identidade do queer e a libertação das mulheres se tornou realmente insuportável. O facebook adicionou reações da bandeira do orgulho gay no mesmo mês que eles começaram a banir mulheres lésbicas por nos descrevermos como butch (algo como sapatão ou caminhão em português). Enquanto a legislação de casamento e o direito de adoção para casais do mesmo sexo se tornam cada vez mais parte da sociedade dominante, o direito de mulheres lésbicas de se auto definirem e declararem seus limites sexuais é comprometido dentro da comunidade LGBT+. Tais contradições são características desta era, mas isso não torna elas mais fáceis de suportar dia após dia.

Amor é amor, a não ser que aconteça de você ser uma mulher lésbica – neste caso sua sexualidade será incansavelmente desconstruída sob suspeita de você estar sendo excludente. Como já escrevi anteriormente, cada sexualidade é por definição excludente. Sexualidade é um conjunto de parâmetros que governa as características que potencialmente nos atraem nas outras pessoas. Para lésbicas, é a presença das características sexuais primárias e secundárias das mulheres que geram (mas não garantem) a possibilidade de atração. O sexo, e não o gênero (nem mesmo a identidade de gênero), é o fator chave. Mas no ponto de vista queer, assim como no da sociedade patriarcal dominante), lésbica é uma designação contestável.

Mulheres lésbicas são encorajadas a se descreverem como queer, um termo tão abrangente e vago que parece ser desprovido de significado específico, pelos motivos de que ninguém que possuí um pênis é tido como inteiramente fora dos nossos limites sexuais. Jocelyn MacDonald coloca muito bem:

“Lésbicas são mulheres, e mulheres são ensinadas que devemos estar disponíveis sexualmente como objetos de consumo público. Então nós despendemos muito tempo dizendo “Não”. Não, nós não vamos transar ou nos relacionar com homens; não, nós não vamos mudar de ideia quanto a isso; não, este corpo não é território masculino. Lésbicas, hetero ou bissexuais, nós mulheres somos punidas sempre que tentamos demarcar limites. O queer sendo um termo genérico torna realmente difícil para lésbicas assegurarem e manterem estes limites, porque se torna impossível nomear estes limites.”

Em tempos em que o reconhecimento do sexo biológico é tratado como um ato de intolerância, a homossexualidade é automaticamente problematizada – as consequências não previstas das políticas identitárias de gênero são enormes e de largo alcance. Ou ainda, seria mais correto dizer, que a sexualidade lésbica virou um problema: a ideia de que nós mulheres direcionemos nossos desejos e energias de uma para outra continua suspeita. De alguma forma, o padrão de homens centrarem homens nas vidas deles nunca recebe o mesmo backlash (reação negativa, resposta em forma de ataque). As lésbicas são uma ameaça ao status quo, seja no heteropatriarcado ou na cultura queer. Quando nós lésbicas rejeitamos a ideia de nos relacionarmos com alguém com pênis, nós somos taxadas de “fetichistas de vaginas” e ginefílicas – Levando em conta que a sexualidade de lésbicas é rotineiramente patologizada no discurso queer, assim como a sexualidade lésbica é patologizada pelo conservadorismo social, não é surpresa para mim que tantas mulheres jovens sucumbam a pressão social e abandonem o termo lésbica em favor do termo queer. O auto apagamento é o preço da aceitação.

“Não é nenhum segredo que o medo e o ódio a homossexuais permeiam nossa sociedade. Mas o desprezo por lésbicas é distinto. É diretamente arraigado no repúdio à autodefinição da mulher, à autodeterminação da mulher, às mulheres que não são controladas pela necessidade, pelo comando ou pela manipulação masculina. O desprezo por lésbicas é mais comumente um repúdio político às mulheres que se organizam em seu próprio benefício em busca de estarem presentes no espaço público, de que sua força seja validada, que sua integridade seja visibilizada.

Os inimigos das mulheres, aqueles que estão determinados a nos negar a liberdade e a dignidade, usam a palavra lésbica para provocar o ódio às mulheres que não se conformam. Este ódio ecoa em toda parte. Este ódio é sustentado e expressado por praticamente todas as instituições. Quando o poder masculino é desafiado, este ódio se intensifica e se inflama de forma a ser volátil, palpável. A ameaça é de que esse ódio pode explodir em violência. A ameaça é onipresente porque a violência contra a mulher é culturalmente aplaudida. E assim a palavra lésbica, gritada ou sussurrada em tom de acusação, é usada para direcionar a hostilidade dos homens contra as mulheres que ousam se rebelar, e é também usada para assustar e intimidar as mulheres que ainda não se rebelaram.” – Andrea Dworkin

A política de identidade queer tende a pensar que mulheres nascidas mulheres se interessarem exclusivamente por outras mulheres é um sinal de intolerância. Não vamos desperdiçar parágrafos com equívocos. Este mundo já tem silenciamentos acerca de gênero mais do que o suficiente, e é invariavelmente as mulheres que pagam o maior preço por estes silenciamentos – neste caso, mulheres que amam outras mulheres. Então eu digo o seguinte: lésbicas negarem categoricamente a possibilidade de se relacionarem com alguém com pênis é tido como transfóbico pela política queer porque não inclui mulheres trans na esfera dos desejos de lésbicas. A lesbofobia inerente na redução da sexualidade lésbica à fonte de validação, obviamente recebe passe livre.

Ainda assim, a sexualidade lésbica não necessariamente exclui pessoas que se identificam como trans. A sexualidade lésbica pode se estender a pessoas que nasceram mulheres que se identificam como não binárias ou queergênero. A sexualidade lésbica pode se estender a pessoas que nasceram mulheres que se identificam como homens trans. Comparando a alta proporção de que homens trans auto identificados viviam como lésbicas butch antes de transicionarem, não é incomum que homens trans façam parte de relacionamentos lésbicos.

Aonde está o limite entre uma lésbica butch e um homem trans? Durante suas reflexões sobre a vida das lésbicas, Roey Thorpe considera que “…invariavelmente alguém pergunta: Aonde todas as butches foram parar? A resposta curta é masculinidade trans (e a resposta longa requer um artigo próprio). Em qual parte dentro do espectro de identidade termina o butch e o trans começa?

O limite é amorfo, embora de forma imaginativa Maggie Nelson tenta traçar em The Argonauts. O parceiro dela, o artista Harry Dodge, é descrito por Nelson como um “butch charmoso em T.” segundo Nelson “qualquer semelhança que eu observe nos meus relacionamentos com mulheres não é a semelhança como Mulher, e certamente não é a semelhança das partes envolvidas. Ao invés disso é a esmagadora compreensão compartilhada do que significa viver no patriarcado.” Dodge é gênero fluido e de aparência masculina. A testosterona e a cirurgia de remoção dos seios não removem a compreensão do seu local neste mundo como mulher. Estas verdades coexistem.

A ideia de que lésbicas são transfóbicas porque os limites da nossa sexualidade não se estendem em acomodar o pênis é uma falácia falocêntrica. E a pressão nas lésbicas para redefinirem esses limites é francamente assustadora – se baseia numa atitude do direito de propriedade sobre os corpos das mulheres, uma atitude que é parte do patriarcado e agora tem sido reproduzida na esfera queer. As mulheres lésbicas não existem para que sejam objetos sexuais ou fontes de validação, mas como seres humanos autodefinidos com desejos e limites próprios.

Conversar sobre a política queer com amigos homens gays da mesma idade que eu é algo revelador. Eu sou lembrada de duas coisas: para os homens, ‘não’ é uma palavra aceita como assunto encerrado. Com mulheres, o não é tratado como uma abertura à negociação. A maioria dos homens gays fica horrorizada ou então surpresa com a noção de que os parâmetros de suas sexualidades possam ou devam mudar de acordo com as imposições da política queer. Alguns (os mais sortudos – a ignorância é uma benção) não estão familiarizados com a fantasiosa teoria queer. Outros (os recentemente inciados) estão, como era de se esperar, resistentes a problematização da homossexualidade do ponto de vista queer. Teve um que chegou a sugerir que gays, lésbicas e bissexuais rompessem com a sopa de letrinhas do alfabeto da política queer e se auto organizassem especificamente em torno das suas sexualidades – dado que as lésbicas estão sendo sujeitas a caça às bruxas TERF (feministas radicais trans excludentes em português) por terem feito a mesma sugestão, foi ao mesmo tempo encorajador e lamentável ouvir de um homem que está fora do feminismo radical dizer a mesma coisa sem medo de ser censurado.

Fico feliz em dizer que nenhum dos homens gays que eu chamo de amigos optaram pelo que pode ser descrito como a lógica de Owen Jones: rejeitar as preocupações das mulheres lésbicas e as tratar como atos de intolerância, numa tentativa de conseguir biscoitos-de-arco-íris da aprovação como aliado trans. A onda de homens de esquerda em lucrarem com a misoginia para consolidar sua reputação é um conto tão antigo quanto o patriarcado. Não é uma grande surpresa que isso aconteça dentro da comunidade queer, já que a cultura queer é dominada por homens.

A comunidade queer definitivamente pode afastar as mulheres lésbicas. Embora eu tenha participado de espaços queer quando eu estava me assumindo, acabei me retirando cada vez mais daquele contexto com o tempo. Eu não sou de forma alguma a única – muitas mulheres lésbicas da minha faixa etária se sentem excluídas e deslocadas nos ambientes queer, lugares que nos dizem que deveríamos pertencer. Não são apenas lésbicas mais velhas que são resistentes a política queer, apesar de que deus sabe o quanto elas nos avisaram sobre a misoginia nela. Meu único arrependimento é não ter ouvido antes – que eu tenha perdido meu tempo e energia tentando conciliar divergências ideológicas entre o queer e o feminismo radical.

O discurso queer se utiliza de uma abordagem coerciva para forçar lésbicas a se conformarem – ou nós acatamos o queer e pertencemos ao grupo, ou nós seremos apenas figuras irrelevantes que estão “por fora” como “as velhas lésbicas chatas”. Esta abordagem, na misógina discriminação pela idade, foi equivocada: eu não consigo imaginar nada que eu quisesse ser mais do que uma lésbica mais velha, e é maravilhoso saber que este é o meu futuro. A influência que tem em mim a profundidade do pensamento das mulheres mais velhas, a forma como elas me desafiam e me guiam no processo de consciência feminista, tem um papel central em formarem tanto a minha noção sobre o mundo como compreender meu lugar nele. Se eu for realmente sortuda, um dia eu terei aquelas conversas elevadas (e as vezes, intelectualmente extenuantes) com as futuras gerações de jovens lésbicas.

Embora eu aprecie o apoio e a sororidade das lésbicas mais velhas (de longe meus seres humanos favoritos), em certos aspectos eu também as invejo pela relativa simplicidade da existência lésbica nos anos 70 e 80. A razão para esta inveja: elas viveram vidas lésbicas num tempo anterior a política queer se tornar dominante. Eu não estou dizendo isso desconsiderando ou implicando que o passado
foi uma utopia para os direitos de gays e lésbicas. Não foi. A(s) geração(ões) deles tiveram a cláusula 28 (“section 28”), cláusula que bania que a homossexualidade fosse considerada nas escolas como relacionamento familiar normal) e a minha tem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os avanços que beneficiam minha geração são resultado direto da luta deles. Ainda assim as lésbicas podiam viver pelo menos parte de suas vidas numa época em que de todas as razões pelas quais a palavra lésbica foi encarada com desgosto, ser considerada “demasiado excludente” não era uma delas. Não houve um ímpeto, dentro de um contexto feminista ou gay, tornar a sexualidade lésbica esquisita (“queer” em inglês, a autora aqui faz um trocadilho).

Algumas coisas não mudaram muito. A sexualidade lésbica é comumente degradada. As mulheres lésbicas ainda estão nas campanhas lésbicas do “Não se preocupe, eu não sou aquele tipo de feminista.” Só que agora, quando eu checo as minhas notificações no Twitter, realmente levo um tempo para descobrir se minha lesbianidade ofendeu a “alt-right” (nova denominação da extrema direita) ou da esquerda queer. Isso faz alguma diferença? A lesbofobia tem o mesmo formato. O ódio às mulheres é o mesmo.

Durante a Parada Gay, uma foto de uma mulher trans sorridente vestindo uma camiseta manchada de sangue dizendo “eu soco as TERFs” circulou nas redes sociais. A imagem tinha a seguinte legenda “isso é como a libertação gay se parece”. Aquelas de nós que vivem na intersecção entre a identidade gay e a mulheridade – lésbicas- são frequentemente taxadas de TERFs puramente pelo fato de que nossa sexualidade torna esta reivindicação dúbia. Considerando que vivemos num mundo onde uma a cada três mulheres sofre violência física ou sexual durante sua vida, eu não me surpreendo– não tem nada de revolucionário ou contracultural em fazer uma piada sobre bater em mulheres. A violência contra as mulheres foi glorificada sem pensar duas vezes, colocada como um objetivo de políticas libertárias. E nós todos sabemos que TERFs são mulheres, já que homens que definem limites são raramente sujeitos a tais ataques. Apontar a misoginia obviamente resulta numa nova enxurrada de misoginia.

Existe uma réplica preferida reservada para as feministas que criticam as políticas sexuais da identidade de gênero, uma resposta certamente associada mais com adolescentes meninos do que qualquer política de resistência: “chupe meu pau de garota”. Ou, se a maldade se junta com uma tentativa de originalidade, “engasgue com meu pau de garota”. Ouvir “engasgue com meu pau de garota” não parece nada diferente de ouvir te dizerem que engasgue num pau de qualquer tipo, mesmo assim isso se tornou já quase uma parte da rotina do discurso de gênero que se abriu no Twitter. O ato permanece o mesmo. A misoginia permanece a mesma. E isso está dizendo que neste cenário a gratificação sexual é derivada de um ato que muito literalmente silencia as mulheres.

Uma frase icônica de Shakespeare em Romeu e Julieta proclama que “uma rosa com qualquer outro nome teria um aroma igualmente doce.” Com isso em mente (por existir muito mais tragédia do que romance sobre esta situação), eu diria que independente do nome um pênis iria repelir sexualmente as lésbicas. E isso é ok. O desinteresse sexual não é a mesma coisa que a discriminação, a opressão ou a marginalização. Porém, sentir que a sexualidade é um direito que se tem sobre alguém é : ele é parte fundamental da opressão das mulheres, e se manifesta claramente na cultura do estupro. Dentro da concepção queer não há espaço dedicado para discussões sobre a misoginia que possibilita o se sentir no direito de ter acesso sexual aos corpos de mulheres. Simplesmente reconhecer que o assunto existe é considerado inaceitável, e como resultado, temos a misoginia protegida por camadas e camadas de silêncio.

Esta não é uma época radiante para se ser uma lésbica. A falta de vontade das políticas queer para simplesmente aceitar a sexualidade lésbica como válida por direito é profundamente desamparadora, ao ponto de se privilegiar o desejo de ter sexo sobre o direito de recusa ao sexo. E mesmo assim a conexão lésbica persiste, como sempre persistiu. Os relacionamentos lésbicos seguem florescendo enquanto oferecem uma alternativa radical ao heteropatriarcado – só porque não é particularmente visível agora, apenas por não ter o apelo dominante (isto é, patriarcal) que tem a cultura queer, não significa que não esteja acontecendo. As lésbicas estão em toda a parte – isso não vai mudar.

Nolite te bastardes carborundorum.

Claire

traduzido por Ação Antisexista

original aqui
https://sisteroutrider.wordpress.com/2017/07/01/the-vanishing-point-a-reflection-upon-lesbian-erasure/amp/

Além de sofrermos abusos, nos querem caladas – sobre as denúncias de abusos de homens contra as mulheres no meio musical

Nas últimas semanas surgiram denúncias de abuso por parte de homens de diferentes bandas, e com isso se iniciou um debate nas “redes sociais”. Como de costume, os debates são rasos, as pessoas sem um mínimo de entendimento das consequências que os abusos causam nas mulheres passaram a questionar a veracidade dos fatos e as mulheres abusadas, bem como apesar de uma total falta de compreensão sobre o feminismo, direcionaram suas opiniões sobre feministas provocando o silenciamento por parte de muitas mulheres e críticas àquelas que ousam confrontar a dominação masculina.
segue o texto publicado por lá.

Além dos abusos que nós mulheres sofremos, nos querem caladas, o abuso não pode ser revelado, tem que se manter como um segredo ou alguma coisa suja que não pode manchar esta ou aquela cena, o ambiente, a família, as amizades. Mas que amizades seriam exatamente as que não se preocupam com a nossa integridade física e emocional? Que só ficam contentes com a gente quando concordamos com seguirmos sendo oprimidas em silêncio? Qual a finalidade de perante uma denúncia desviar o assunto e diluir a gravidade das consequências dos abusos cometidos contra uma mulher? Diluir o assunto com o intuito de salvar a pele dos homens em detrimento de machucar as mulheres? Diluir o assunto para dividir as mulheres entre si? Por que é mais importante a preocupação com o emprego dos homens, com a carreira deles, com o seu status, do que com o corpo e o psicológico das mulheres? E seus traumas? E com a carreira delas? (sim muitas mulheres perdem o emprego quando sofrem abuso, não podem trabalhar porque o ‘parceiro’ não deixa entre outras causas). E só um pouco aí, quantas de nós mulheres que estão na música temos que incessantemente por anos a fio provar a nossa competência, ou talento, ou só o direito de estarmos ali com ou sem talento mesmo? O que significa que no meio de uma denúncia de abuso as pessoas acham mais “adequado”, mais urgente e relevante falar que “as vezes é possível que as denúncias sejam irresponsáveis”? Qual a finalidade de elaborar palavras que apenas servem como uma ótima justificativa e salvação para homens abusivos?
O que leva uma pessoa a achar o que ela julga irresponsável (e aí teríamos ainda que partir do princípio que seu julgamento é correto) causa mais danos do que a própria violência cometida? Isso só demonstra quem está em primeiro lugar e só corrobora com o porquê de continuarmos resistindo.

O que eu vi aqui foi que no meio de uma denúncia e de um debate que podia trazer mais solidariedade com as mulheres e entre elas mesmas, foi mais importante ressalvar que o orgulho dos homens não pode ser ferido sobre hipótese alguma, antes uma mulher abusada, do que um orgulho de homem machucado. E quanto carreira e sustentabilidade, pois somos nós mulheres em comparação aos homens que pertencemos a classe que recebe menos pelos mesmos serviços prestados, que criamos filhos sozinhas, que não conseguimos ou perdemos emprego por estarmos grávidas ou por termos filhos pequenos, e comumente porque nossa capacidade é questionada e é preferível colocar um homem no posto. Muito ruim as posições que li aqui, homens sendo acusados de abuso ou suas bandas e ao invés de se retratarem (perderam a chance) procuraram sem nenhum constrangimento usarem do momento para salvarem a pele de uma forma muito oportunista e ainda por cima sobre o sofrimento de mulheres abusadas. É possível que se acredite que nós não sabemos o que nos acontece com nós mesmas e que palavras incoerentes e que não condizem com a realidade vão entrar na cabeça de todas as mulheres e que o feminismo vai sumir? Não, o feminismo não vai sumir, o que precisa sumir antes disso é a opressão e exploração cometida contra as mulheres. Por quê não se começa primeiro apontando a opressão e se solidarizando ao invés de apontar os possíveis erros cometidos por mulheres abusadas? E quais erros essas mulheres realmente cometeram? Procurar apoio? Se sentirem mais dignas e quem sabe com sorte menos sozinhas? E elas tem que serem perfeitas?

O que de fato se sente quanto uma mulher retira uma denúncia? alívio? E alívio pelo que exatamente? Porque se estava preocupado com a saúde da moça ou porque agora a sua banda pode seguir de vento em popa? Alguém cavoca se é verdade mesmo que não aconteceu nada agora? Alguém pede agora provas de que o que não aconteceu não aconteceu mesmo?

Vocês sabem porque mulheres voltam atrás nas denúncias de violência? Vocês se sentem bem se eu disser que esse modus operandi visto aqui contribui para isso? E consequentemente com mais violência contra a mulher? Que ser paternalista e elogiar mulheres por se comportarem como “preferível” contribui para o silenciamento de mulheres? E para que sofram mais violências?

O desconforto que debates assim podem causar não pode ser mais importante que a segurança física e emocional das mulheres. Eu acho que é possível fazermos melhor que isso.

aline rod.

A Linguagem Misógina do Discurso Liberal e o Apagamento da Realidade das Mulheres

“Bio chicas” é um dos termos mais ofensivos e desrespeitosos que já ouvi ser usado para se referir a meninas. Ouvi este num debate sobre “desconstrução de gênero”. Engraçado, que esta abordagem de desconstrução nada mais é que apagar a opressão e exploração que nós mulheres sofremos desde que nascemos. Engraçado que esta tal desconstrução tem o objetivo de negar que a opressão e a exploração das mulheres são baseadas no sexo. O gênero é uma construção social, determinada pelo sexo, ou alguém acredita que é tirado unidunitê a cada pessoa que nasce e que se escolhe por acidente qual gênero esta pessoa vai ter? O gênero é determinado pelo sexo e vai determinar o tipo de tratamento que uma pessoa vai receber. As mulheres vão fazer parte da classe subordinada e os homens farão parte da classe dominante, e isso significa que as mulheres terão seus corpos controlados pelo estado e suas leis – por exemplo a criminalização do aborto – sendo as mulheres punidas por tal crime, correndo risco de vida em aborto clandestino, ou ainda obrigadas a manter a gravidez contra a sua vontade independente das condições que se encontram.
Este tratamento determinado pelo sexo também significa que as mulheres serão vistas como propriedade dos homens de tal forma que a violência perpetrada pelos homens contra as mulheres se dará tanto por homens próximos como por estranhos, fazendo parte da guerra não declarada contra as mulheres, o que por sua vez significa todos tipos de violência incluindo tirar suas vidas – o feminicídio.
Esse tratamento igualmente significa que as oportunidades na vida serão distintas desde a infância, sendo a autoestima e a autoconfiança de uma menina completamente atacadas desde muito cedo enquanto as dos meninos comumente estimuladas e insufladas. Isso significa que os corpos dessas meninas serão objetificados e hipersexualizados desde pequenas. Isso significa que meninas e mulheres fazem parte da classe que sofre de forma incontestavelmente maior com abuso e violência sexual.
Isso significa ainda, que estas oportunidades continuarão sendo distintas e que as mulheres irão receber salários menores pelos mesmos serviços prestados, ou serão “naturalmente direcionadas” a profissões menos valorizadas. Isso significa que a prostituição será uma “oferta” incomparavelmente mais presente para mulheres e meninas. Isso significa que as mulheres serão as protagonistas da tortura sofrida na pornografia que vende o estupro e a violência contra a mulher como entretenimento e diversão. E isso por sua vez significa manter a cultura do estupro.

Simplesmente não querem se referir as meninas como meninas porque isso estaria excluindo “meninas não bio”, considerando o sentimento destas mais importante e relevante do que as consequências materiais da opressão baseada no sexo que se seguirá por toda a vida de uma menina. Infelizmente a esquerda foi cooptada pelo liberalismo e não percebeu, e estamos vendo uma onda de políticas identitárias substituindo o feminismo e o tratando como ultrapassado. Não só negando o feminismo, mas distorcendo e moldando a luta das mulheres para que atenda as necessidades de outros grupos – porque as mulheres nunca serão prioridade. Sabemos muito bem que pertencemos a segunda classe no patriarcado, somos tratadas desde que nascemos assim, sabemos que a misoginia é tão verdadeira e poderosa que o backlash* sempre vai acontecer de uma forma nova e revestida.

Agora temos que lidar com o discurso do “subversivo” que nada mais é do que estar disfarçado nesta categoria, porém mantém a mesma ordem de que nós mulheres sejamos exploradas e que temos que acatar isso caladas. O discurso do subversivo ataca erroneamente as feministas chamando-as de conservadoras para ganhar a discussão. Argumento desonesto e sem absolutamente um mínimo de entendimento do que significa a luta feminista e o que significa a importância de garantir que não sejamos silenciadas.

O discurso liberal tá se encarregando de criar, “em nome da diversidade”, vários termos que apagam as realidades de nós mulheres, nos sufocando com o intuito de extinguirem nossa resistência. Porém isso nunca vai acontecer. Enquanto houverem mulheres nesse mundo haverá luta. Enquanto formos exploradas e oprimidas sempre haverão mulheres priorizando sua sobrevivência.

aline rod.

*backlash no contexto feminista é o contra-ataque ou reação negativa ao feminismo.

“Gênero não é uma outra palavra para Sexo”

A opressão das mulheres é baseada no sexo. O gênero é uma construção social. Sendo assim, as pessoas que nascem com vagina são clocadas no gênero feminino e as pessoas que nascem com pênis são colocadas no gênero masculino. O gênero é uma convenção que coloca as mulheres como subalternas dos homens – fundamento do patriarcado. Esta noção de que as mulheres são inferiores aos homens leva as mulheres a serem tratadas de forma diferente e desfavorável da dos homens. Este tratamento tem consequências materiais na vida das mulheres como a discriminação, o controle ao corpo das mulheres incluindo o controle reprodutivo, menores salários e oportunidades, violência sexual massivamente maior contra as meninas e mulheres, violências físicas e psicológicas específicas, prostituição e tráfico sexual, mutilação genital, feminicídio.

É por isso que a opressão das mulheres é baseada no sexo. O gênero é dado a pessoa quando ela nasce.

Dizer isso não significa que se está negando a realidade de outras pessoas, dizer isso é reconhecer a luta das mulheres e de onde vem a opressão e exploração que sofrem desde seu nascimento.
Negar a realidade das mulheres é misoginia.

Homens Abusivos Que Usam do Feminismo Para Conseguirem Imunidade

Alguns homens se beneficiam ao usarem do feminismo para conseguirem imunidade. São homens que não diferente de outros abusam de mulheres, porém descobriram que “apoiando” o feminismo eles nunca serão descobertos nem cobrados. São homens que lançam textos sobre feminismo ou discursam feminismo mas nunca tiveram nem de perto a tentativa de se retratarem com as mulheres que eles abusaram. Isso nos mostra que ele não está interessado em praticar o discurso, nem apoiar as mulheres, mas se livrar da culpa. O que só mostra seu grau de manipulação, só confirma o quanto foi abusivo. Só comprova que ele continua sendo abusivo ao seguir passando por cima dos sentimentos e da realidade das mulheres que ele abusou, sem nenhum escrúpulo. Ora, se esse homem se dá ao trabalho de ler textos sobre abuso e distribuí-los ou discursar sobre feminismo, significa que ele tem acesso para entender a questão. Mas muito pelo contrário, ao invés de procurar entender o que é de fato abuso, ele escolhe continuar sendo um homem manipulativo, logo, abusivo. Ele continua desta forma que escolheu – de fingir que nada aconteceu e ainda adentrar no feminismo como cooperador – a causar danos no psicológico da mulher que ele abusou, pois além de ter sido abusada, ela agora tem que lidar com o total apagamento dos abusos que sofreu, e ainda vê-lo procurando ser reconhecido como apoiador da luta das mulheres. Mais uma vez o patriarcado exige apenas dela que resolva sozinha os seus traumas. Mais uma vez ela tem que achar forças para enfrentar uma nova batalha.

O comportamento manipulativo e narcisista de seu abusador tá sempre lá presente ao alcance deste para que possa se beneficiar, para conseguir algo em troca, para conseguir o que ele deseja e só o que ele deseja (característica do seu narcisismo), e para que se mantenha na mesma posição social que tinha antes de cometer os abusos.

Algumas pessoas vão dizer que bastava então as mulheres abusadas por esses homens fazerem denúncias. Bastava mesmo? Elas por acaso não as fazem? Quantas mulheres denunciam seus abusadores e são tachadas de exageradas, vingativas, rancorosas e mentirosas? Quantas mulheres depois dos abusos que sofreram ainda tem que lidar com estar constantemente tendo que provar para todo mundo que o que lhes aconteceu é verdade? Quantas mulheres ficam estigmatizadas e são ostracizadas por denunciarem abuso enquanto seus abusadores não só se safam mas recebem solidariedade da comunidade? Quantas vezes a mulher mesmo que não faça uma denúncia numa escala pública, aberta, fala sim para amigos mais próximos ou em comum com seu abusador e tem que ver o mesmo continuando receber o mesmo tratamento sem nenhuma ressalva por parte de nenhuma dessas pessoas? Nem todas as mulheres estão também dispostas a se exporem, principalmente porque sabem que não serão apoiadas.
E por que a responsabilidade disso tudo fica com a vítima do abuso?
O que a sociedade está querendo nos dizer?

A obrigação não está na mulher em fazer a denúncia, mas deveria estar nos homens não cometerem abusos e se cometerem se responsabilizarem por isso. Isso não é dizer que as mulheres não devem denunciar, de forma alguma, isso é tirar a responsabilidade exclusiva dos ombros das mulheres abusadas e também compreender as que não se sentem seguras para fazê-lo.

É muito comum homens que cometeram abusos preferirem enxergar que o que aconteceu foi uma questão pessoal, uma coisa entre homem e mulher, das “relações interpessoais”, e falham em compreender que o que aconteceu foi completamente fruto do patriarcado, que enquanto lhes beneficia, tem desfavoráveis consequências materiais e específicas às mulheres dentro deste mesmo sistema.

Mas esses mesmos homens (pasmem!) discursam também sobre a estrutura do patriarcado! Como se ele tivesse imunidade, como se ele não tivesse colaborado e não seguisse colaborando com essa estrutura. Então o homem abusador que defende que se deve meter a colher na violência contra a mulher, que demonstra ter consciência de que o pessoal é político, por quê ele de repente tenta a todo custo defender que o que ele fez foi meramente a nível humano, natural e pessoal, e procura agora separar o pessoal do político? Para esta eu tenho a resposta: por conveniência e covardia.

É conveniente oscilar entre o que é pessoal do que é político quando se trata de você mesmo. E é covardia desde quando ele se utilizou da manipulação, e segue incessantemente com o seu comportamento covarde. Eu acho é muito triste, não me dá nenhuma alegria escrever este texto nem recompensa. Mas está feita a denúncia. Esta é a minha denúncia, contra todos os homens que se safam dos abusos que cometem, saibam vocês que nós sabemos muito bem o que aconteceu. E se lhes resta um pingo de dignidade admitam que o que fizeram foi abusivo, lembrem do que acontecia durante o tempo que se relacionavam, lembrem das mentiras relevantes e graves, e igualmente das atitudes, que como consequência, só estendeu o prazo de validade da manipulação que se operava. lembrem dos impedimentos que criaram sejam nas escolhas que suas parceiras faziam, seja nas roupas que vocês criticavam ou no comportamento delas com o intuito de controlá-las. Lembrem de como vocês as usaram para prazer pessoal ou para outros fins quando ao mesmo tempo desconsideravam as necessidades ou dificuldades delas. lembrem daquele momento que vocês já sabiam o que tava acontecendo mas optaram por deixá-la no escuro e a enganaram até o fim, mas não vacilaram de forma alguma, de sugá-la até drená-la quase que completamente porque “sua companheira” estava ali para te servir e nutrir afinal das contas. Lembrem de que foram vocês que continuaram andando pelos mesmos espaços que tinham em comum enquanto ela teve que se retirar, e não esqueçam que muitas vezes esses espaços eram o ganha pão dela, e aqui vale lembrar que as mulheres tem menor poder econômico em comparação aos homens. Lembrem do que vocês faziam no foro íntimo, quando sua parceira estava dormindo. Porque elas não esqueceram, e ao contrário de vocês, elas se culpabilizam por “terem deixado chegar até aquele ponto”. O patriarcado é tão cruel que a culpa sempre fica com a mulher. Foi ela em fim que aguentou porque quis.

aline rodrigues

Vênus em Fúria #5 – 19Março

Vênus em Fúria #5 hoje!

Festival para arrecadar fundos para o Girls Rock Camp Brasil, projeto absolutamente importante, espetacular, para resgatar a autoestima de meninas, capacitando-as para a música e desenvolvendo a parceria entre meninas e mulheres. O festival é todo organizado e composto por mulheres – equipe técnica, roadies, produção e direção de palco, todas as bandas tem mulheres na sua formação – e isso é igualmente relevante e inspirador.
Muito feliz de poder tocar hoje e participar mesmo que de forma singela nesse projeto.
Obrigada por me convidarem.

Ameaça/ Sisters For Liberation – som e letra

Orgulhosamente apresento o som da Ameaça:

Esta é uma faixa da demo da Ameaça, banda que toco bateria e faço os vocais.

Letra de Sisters For Liberation:

We are still here
We survived
You have been trying to erase our herstory
Our deeds
But we are still here
We will survive
We’ll tell by our own ways
We don’t need you
We never did

You try to possess us
You try to destroy us
We are still here
Many of us have survived
The ones who haven’t
The ones you killed
Are our bravest ones
They are in our hearts
Reminding us to keep the fight

Your fire
Your genocide
All of your hatred
All of your lies

We are not fighting for equality
We are not fighting for crumbles
We are sisters for liberation

We are still here
We survived

We are still here
We will survive


site da banda: https://ameaca.bandcamp.com/releases

aline rod.

Problemas técnicos no site

Olá!

O Portal Anarcopunk.org está enfrentando problemas técnicos já fazem algumas semanas e apenas agora eu estou podendo postar. Ainda estou com problemas no meu blog, tipo problemas nos links nas tags, entre outros, então peço um pouco de compreensão de vocês. Espero logo estar tudo resolvido, o pessoal envolvido em solucionar este problema tá fazendo de tudo para isso. Eu escrevi um texto para o dia 8 de março que não foi possível publicar devido a este problema técnico. Porém foi possível publicar o texto Certeza Inabalável  no meu tumblr . E já fica como dica para se alguém quiser me seguir por lá também!

Postarei agora mesmo o texto pelo dia 8 de março deste ano, e já de antemão aviso que dará para visualizar mas tags e links estarão corrompidos.

Se você notar algum outro problema eu agradeceria muito se me informasse, pois mesmo verificando tudo pode estar me escapando alguma coisa.

valeu!

abraços!

aline

 

 

temporario…

no momento estou sem escrever. sem noticiar, denunciar ou informar.
só queria deixar dito aqui que quando for o momento eu volto.
e que minha ausência é temporária e decorrente do rumo que minha vida está.
na verdade só estou explicando mesmo minha ausência. vai que alguém se pergunte, ou que sinta falta de ler por aqui.ou ainda que ache estranho que não comentei nada sobre este ou aquele assunto, já que tanta coisa tem acontecido…

abraço a todas as mulheres que me acompanham. sororidade sempre.

aline

 

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sintam-se totalmente à vontade de comentar….sempre.

A Marcha Das Vadias Não É Solidária

O texto que segue foi escrito há pouco mais de um ano atrás. Porém eu desisti de publicá-lo por vários motivos. Eu me senti cansada ao obter na grande maioria das vezes respostas que demonstraram nenhuma ou pouca compreensão dos argumentos que utilizei em textos ou em conversas (pelo menos no meu convívio). Eu fiquei estigmatizada, eu nem vou explicar, mas eu sei que isso aconteceu. Eu sei também que este é o preço de qualquer ideia menos popular, é o preço pago por feministas, ou qualquer mulher que rompe o silêncio. Tudo bem. Além disso eu conheço muitas mulheres e garotas que são adeptas da Marcha das Vadias, e eu sempre me preocupo com a opinião destas, se elas vão pensar que eu estou contra elas, se elas vão levar para o “lado pessoal”, e acho que no fim sim. E isso também é parte do processo, ou o preço que pago. Mas eu estou absolutamente disposta a lutar pelo feminismo da forma como eu vejo o feminismo: o que eu acredito ser a luta pela libertação de todas nós mulheres.

 Aconteceu uma edição da Marcha das Vadias domingo passado e eu acabei me envolvendo mais uma vez com esse assunto. Achei este texto nas minhas coisas e percebi que ainda está atual com o que eu penso.

Quero agradecer  a todas que me dão apoio, as que comentam aqui no blog, as que compartilham da crítica,as  que tem outras ideias que complementam, a quem compartilha os textos, em fim. 

 

A Marcha das Vadias está consolidada podemos dizer assim. Infelizmente a marcha abafa muitas questões feministas, ao mesmo tempo que utiliza de argumentos feministas para justificá-la. A meu ver a marcha não só é bastante inconsistente como ação feminista mas é contraditória como tal e um passo atrás. Eu acho ainda estranho que as pessoas que defendem a Marcha das Vadias falem em vários feminismos ao mesmo tempo que não aceitam outros feminismos e procuram categorizar qualquer crítica à Marcha como conservadora. A Marcha tem conseguido de forma eficaz uma homogeneização das feministas que nos prejudica bastante. Ser feminista passou a ser sinônimo de ser participante da Marcha ao ponto de ser um choque quando uma feminista não se engaja à Marcha das Vadias.

Por que será que todas as demandas feministas, todas as lutas que mulheres feministas engajadas propõe não são ouvidas nem levadas a sério e a Marcha das Vadias de um dia para o outro passa a ser a “voz das mulheres”? Por que tantos homens passaram a aderir a Marcha das Vadias, sem sequer compreendem outras ações que propomos? E por que ao contrário de um aprofundamento nestas questões ao constatarem isso, as pessoas da Marcha preferem dizer que isso é uma coisa positiva?

Por que a mídia tem tanto interesse na Marcha das Vadias? Acredito que o apelo que a Marcha tem é em função também da sociedade nos querer objetificadas. Desta forma as mulheres estão mais uma vez sendo usadas pelo patriarcado e pelo capitalismo, servindo as propostas neoliberais. A Marcha é um evento que cabe como uma luva na cultura da sexualização e da objetificação dos nossos corpos, mesmo que as pessoas acreditem que é uma forma de lutar pela liberdade de suas sexualidades. Eu acredito que a Marcha das Vadias se encaixa perfeitamente para que não aprofundemos o feminismo e na questão vital de que não está nos libertando, mas corroborando para dizer que sim, somos todas vadias! E isso atinge que ponto exatamente? De liberdade sexual? Eu acredito que não. Para mim abraça a lógica machista de que somos vadias, e somos o que os homens quiserem que sejamos. E agora além de sermos o que os homens querem que sejamos, dizemos sim! E sim, agora descobrimos que podemos ser objetificadas e hipersexualizadas, que isso é muito bom para a nossa liberdade sexual, basta dizermos que somos objeto do nosso próprio desejo! Sério? Para mim abraça a cultura de que somos desejáveis ao olhos de homens e que sigamos nos comportando como objetos de desejo masculino em termos historicamente criados para excitarem os homens, não importa o quanto justifiquemos com o discurso de que somos objeto de nosso próprio desejo. Quem está querendo enganar quem?

A marcha consiste de um ponto de vista extremamente individual, por isso também se enquadra no pensamento neoliberal, onde cada mulher está centrada em si mesma dizendo “eu faço o que eu quero”, “isso é bom pra mim”, “sou livre” ignorando que muitas mulheres não tem a mesma oportunidade de escolha. Muitas de nós mulheres que são ou foram tratadas como vadias não querem se apropriar deste termo, e muitíssimo pelo contrário, queremos nos livrar deste, pois queremos poder sermos nós mesmas sem que nos ponham selos! ‘Eu tenho visto e também sentido na pele, que o termo vadia sempre foi usado como ferramenta misógina. E por mais que a Marcha das Vadias quer se apropriar disso, nós mulheres não vamos deixar de sermos tratadas como vadias, putas, vacas, etc quando alguém assim desejar. Digamos que seja possível ressignificar o termo Vadia, vamos supor que isso seja possível, podemos estar certas de que outro termo será criado para qualquer comportamento ou realidade das mulheres, e as mulheres prostituídas terão que ter uma nova denominação, porque estas precisam ser tratadas como vadias na vista da sociedade. Nós não vamos estar eliminando o problema, apenas mudando de nome, mas continuaremos sendo menosprezadas – umas mais que outras, isso é importante ressaltar: quem são as mais menosprezadas? Ou ainda, quem são as privilegiadas?

Não esqueçam que o termo vadia é um termo criado pelo heteropatriarcado,  porque se refere a mulher em relação ao homem. A mulher sozinha é santa, o outro lado da mesma moeda, de um também estereótipo que visa controlar, pois a mulher também não pode estar sozinha, ela precisa de um homem, mas não mais de um. Já as lésbicas são aberrações e ameaçam o papel da mulher de reprodução. Conceitos heterossexistas e conservadores para que compremos conforme nossa “opção”, conforme no que melhor nos enquadramos.

Mas não, não vale a pena nos rotularmos!

O que é ser uma vadia? É um tipo de comportamento? É usar um tipo de roupa? A mulher que “dá pra todo mundo”?

Eu não acredito em nenhuma destas premissas e acho incrível como esta apropriação apaga de vista as mulheres prostituídas porque fala em comportamento, mas jamais fala sobre a exploração e a violência que as prostituídas enfrentam.Com certeza a marcha não fala pelas mulheres prostituídas, antes pelo contrário ela ignora estas mulheres que não podem escolher um dia do ano, como fazem a maioria das mulheres na marcha ao se apropriarem do termo e se vestirem como vadias. Mulheres que são tratadas com desprezo, abuso e violência, simplesmente porque elas são as “verdadeiras vadias” para a sociedade todos os dias.

Pois nós todas as mulheres, prostituídas ou não, não somos vadias, vagabundas ou vacas. Se uma mulher ou garota que regularmente vai pra escola ou para o trabalho mas um dia por ano resolve ir a marcha utilizando o termo vadia, ela está agindo de maneira colonizadora, porque ela não sofre de forma alguma as consequências de ser uma “vadia de verdade”, ela não tem homens fazendo fila para estuprá-la com respaldo da sociedade, que acredita que suas filhas estão salvas enquanto estas mulheres que “escolheram” serem “prostitutas” existirem para que os homens descarreguem todo seu ódio e violência que sentem pelas mulheres (como disse Rebecca Mott.). Esta mulher ou garota que vai a marcha e diz que é puta, só o diz por estar numa absoluta posição de privilégio que inclui escolher o dia que vai ser ou se vestir “como puta”. O problema não é estar numa posição de privilégio, como alguém me perguntou: “qual o problema destas garotas na maioria brancas de classe média fazerem suas reivindicações?” Não seria problema mesmo, se isso não contribuísse ativamente para apagar os problemas que outras indivíduas estão passando. Feminismo para mim está absolutamente conectado com solidariedade entre mulheres, então torno a repetir que se milhões de mulheres querem se livrar do peso de serem tratadas como vadias e que o termo vadia lhes machuca e elas estão dizendo isso, porque ignorá-las? Será que pelo menos isso não merece a atenção das pessoas que marcham?

Acredito que muitas garotas principalmente as novas, realmente acreditam que o que a Marcha propõe favorece a liberdade de nós mulheres, não duvido das intenções de muitas pessoas envolvidas na Marcha. A questão que coloco não é para ficarmos em batalha, de forma alguma. As críticas que coloco são para propormos uma Marcha que agregue mais mulheres, que todas as mulheres se sintam confortáveis para caminharem juntas.Se a reivindicação é contra a violência sexual, marchemos contra a violência sexual. Se a reivindicação é quanto a nossa sexualidade marchemos por ela. A nossa sexualidade pode ser a nossa não relação com os homens! Ou pode ser também a nossa não sexualidade! Ou a nossa sexualidade está estritamente ligada aos homens e ao que os outros esperam de nós? E seria isso “nossa” sexualidade?

Que a marcha atinja a maioria da pessoas, eu compreendo, pelo espetáculo que virou, pela cobertura midiática e pela genuína necessidade de reivindicar os direitos das mulheres. Mas ela é uma verdadeira bomba de contradição ao feminismo. Ela fere as propostas feministas ao que se estende para todas as mulheres, que além das mulheres sofrerem discriminação e violências, que classe e cor da pele são determinantes para ditarem a maneira de como serão tratadas. Conscientes disso, porque deveríamos nos engajar em ações reformistas como esta?

A Marcha fala de estupro e sexualidade mas de uma forma a apagar demandas feministas importantíssimas. Lutamos pela nossa liberdade sexual, esta liberdade sexual não é liberdade se ela está totalmente inserida no contexto patriarcal, e nos jogos que este impõe de controle, onde o homem domina e a mulher é subjugada e objetificada. Numa sociedade que cansa de justificar o estupro como uma “urgência incontrolável” masculina (para isso servem as “prostitutas”, certo?), ou seja, uma via da sexualidade do homem, enquanto na verdade o estupro é apenas a confirmação de poder e do ódio às mulheres.

Não é uma questão de ser muito dura nas críticas, é uma questão de observar uma falta de consideração e solidariedade com as mulheres prostituídas, com as mulheres negras, as dos povos originários, de etnias, e com todas mulheres que são ou foram tratadas como vadias e vivem uma vida se esforçando para se livrarem destes traumas e de situações brutais, e que apenas a palavra vadia as fazem relembrarem de algo que elas carregam pesadamente. Se as mulheres que vão a marcha preferem ignorar milhões de outras mulheres, são elas que estão sendo duras, a diferença é que elas se consideram alegres, divertidas e liberadas e estão centradas na sua catarse individual. E mesmo que tenham direito obviamente de viverem suas catarses, elas só não podem dizer que estão se solidarizando com todas nós as outras mulheres que sentimos na pele o que é sermos tratadas como vadias. Não, elas não estão.

enilador


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