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Larga Viva – uma carta de repúdio a declaração de Paz Berti

Está sendo organizado para o dia 15 de março a Larga Viva, um evento pelo mês de março, para lembrar o dia 8, dia das mulheres, dia de luta.

Eu recebi um convite via e-mail para o evento e nele havia um link pro fa$ebook.

Acessei o link e tive o desprazer de ver a discussão gerada adivinhem pelo que? Tenho certeza que muitas já adivinharam, pois é, estão discutindo em como é excludente e autoritário o evento ser exclusivo de mulheres! Como ousam as mulheres fazerem um evento por elas e para elas?

Tudo começou porque o MC chamado Paz Berti se diz “censurado”, excluído e classificado porque não vai “poder” tocar neste evento pelo dia das mulheres que ousam serem as protagonistas do evento!

Ele diz assim:’Só queria informar que me tirarem da programação do próximo Largo Vivo por ter pênis e não xereca. Ta todo o errado!!! Tenho que lutar diariamente com atitudes machistas, homofóbicas e agora algumas femistas se sumarem. É complicado pensar um feminismo de esse jeito.’

Sim, é verdade, eu também custei a acreditar em tamanha ignorância e misogina. E tudo isso vindo de quem? De um cara que se diz feminista. Nem vou mencionar o fato que ele usou a palavra “femista”.

Vamos então colocar umas coisas para você Paz.

Primeiro, que você pode se dizer feminista mas isso não significa que: 1)você seja um 2) que homens possam ser feministas 3) qual “jeito” é o “feminismo certo” para você Paz Berti.

Você poderia ser uma aliado talvez, mas isso você também não é porque você acabou de demostrar.

O que aconteceu é que um homem se sentiu machucado e tá muito triste porque as mulheres não lhe priorizaram! E ele se diz feminista! Fala sério!

Notem que quando ele se refere a vagina ele fala “xereca”!, já ao se referir ao seu lindo pênis ele usa a palavra….pênis. Ele diz que sofre diariamente com atitudes machistas e homofóbicas e ele mesmo tem atitudes machistas e homofóbicas, e misóginas! É misoginia desqualificar a vagina em primeiro lugar! E é machismo supervalorizar seu pênis meu querido, caso você não saiba.

E aí este mesmo cara posa numa foto de saia sem camisa com uma garota do lado de mãos dadas também sem camisa, onde nos seus corpos está escrito “nem homem” “nem mulher”. Porém caro Paz, por mais que você ande por aí de saia você continua sendo privilegiado. E caso você não saiba você não é oprimido pelo patriarcado, você no máximo sente desconforto com as regras do mesmo, mas você é PRIVILEGIADO pelo patriarcado, de tal forma que basta você trocar suas saias por uma calça. Já nós mulheres mesmo de calças somos assediadas nas ruas, somos estupradas todos os dias, assassinadas por termos XERECAS (arg, que nojo esta coisa que fede a peixe já disseram muitos homens gays nos anos 70). Ou seja, não vai fazer nenhuma diferença para mim usar roupas neutras, hum seriam “masculinas”? Ou usar roupas que foram feitas para mulheres usarem.

Seguindo o show de horrores machista, ele tem apoiadoras que não titubearam em sair para “ajudá-lo”, em sua defesa, pobre coitadinho. Sabem por que isso acontece? Porque nós mulheres somos educadas para darmos prioridade aos homens. Porque nós mulheres sempre temos que ser apaziguadoras, porque nós mulheres estamos ‘classificadas’ – para usar o termo usado por Paz – como da classe inferior. Logo nós internalizamos o machismo e também somos capazes de atitudes machistas e misóginas. E é por isso que o feminismo existe caso você não saiba, para lutarmos contra o machismo e a misoginia vigentes e institucionais, lutarmos por nossa autonomia que inclui reaprendermos e buscarmos o que nos foi tirado e negado.

Uma das garotas que lhe defende diz assim:“Te ajudo e descolamos todo um equipo pra fazer dois palcos.Se ser feminista eh isso Sigo sendo anti machista e libertária.”

Sim gente, eu não estou inventando.

Eu também não acredito que passa pela cabeça de alguém alterar a programação, passar por cima literalmente das decisões e /ou vontades de outras mulheres para defender um homem, e tudo isso, ambxs dizem em nome do feminismo!

Pois o feminismo não é não uma luta para favorecer os homens! Ah não sabia! Pois é, o feminismo é uma luta das mulheres para as mulheres. E muitos homens que sentem desconforto com o machismo, que se sentem mal serão igualmente beneficiados nesta luta das mulheres.

Nós não seremos nem salvas, nem libertas, nem protegidas por vocês homens. São os homens que nos assediam nas ruas e em todos os espaços(trabalho, escolas, lazer, etc), são os homens que nos estupram, nos ameaçam, nos agridem física, emocional e verbalmente. Assim como você Paz acabou de fazer. Você está nos agredindo por não receber o tratamento que você acha que merece. E isso se dá por causa do seu privilégio, porque você não foi educado para ser excluído não é mesmo? Você cresceu tendo todos os espaços internos e externos sendo seus!

Nós não! Nós fomos educadas como inferiores e crescemos lutando por espaços ou nos conformando que os espaços não são nossos. Nós só temos estas duas opções. Nos conformar ou lutar!

Não Paz, você não é feminista, sinto lhe dizer. Você deve repensar o que você está sendo para o feminismo, para as mulheres e lésbicas, e repensar suas atitudes.

O machismo não se luta com paz. O machismo se enfrenta com muita luta, com muita batalha, até porque o machismo é a guerra não declarada contra as mulheres.

enilador

link para o evento Larga Viva

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“Anarquismo na Atualidade” – fala feita na 4ª FLAPOA

Segue uma fala feita na 4ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, no dia de abertura, 15 de novembro passado. Foram feitas várias falas sobre anarquismo na atualidade. Depois seguiu-se um debate.

“Anarquismo na atualidade.

Aqui no Brasil o anarquismo teve uma visibilidade gigante devido as manifestações. A revolta tomou conta das ruas. Esta revolta foi absolutamente importante e uma manifestação das nossas insatisfações, uma necessidade de denunciarmos as injustiças pela ação direta. A ação direta não é apenas uma ação isolada e de ataque, pois ela é construída todos os dias. E embora esta visibilidade tenha tomado as proporções que tomou, as práticas anarquistas, as organizações ou formas de nos organizarmos libertárias são antigas. Anarquistas sempre se organizaram e procuraram alternativas para viver/sobreviver.

O anarquismo teve um período de hibernação no sentido de que parece ter ficado por algum tempo sem uma continuidade devido aos anos de ditadura. Nos anos 80 o anarquismo teve uma retomada muito forte e também sob influencia do punk. As bandas, as pessoas envolvidas encontraram no anarquismo e nas práticas anarquistas, nas práticas autogestionárias (por exemplo ocupações, espaços autogeridos, em fim) a busca pela libertação. A busca por viver e sobreviver perante as injustiças, a busca por alternativas que não as dos moldes tradicionais. A busca por pensar e construir lutando contra o controle das opressões institucionalizadas que estamos submetidas, submetidos.

Mas eu tenho pouco tempo para falar aqui, sendo esta apenas uma introdução, um apanhado muito generalizado sobre o anarquismo na atualidade. O que quero colocar para as que estão aqui presentes, e para os que estão aqui presentes, é de que o anarquismo nunca existirá sem feminismo.

E que isto para mim é atualidade.

Nós mulheres anarquistas que nos envolvemos em espaços anarquistas em busca por libertação, encontramos muita resistência de que nestes espaços nos escutem. De que nestes espaços exista de fato uma libertação. De que nestes espaços estejamos seguras. Não queremos nenhum tipo de segurança vindo de outrem, não queremos sermos protegidas, não é disto que estou falando. Falo de que precisamos que nestes espaços estejamos seguras para alcançarmos objetivos libertários em todas as esferas das nossas vidas. Não uma libertação pela metade, uma libertação que é sugerida muitas vezes como prioritária enquanto nós mulheres anarquistas sabemos muito bem de nossas prioridades, de nossas urgências, e de toda a opressão machista da qual sofremos, da qual lutamos contra todos os dias.

Sim, não existe anarquismo sem feminismo. A revolução diária, utópica, ou de fato, não será revolução se ela não for feminista. Não é aceitável que o feminismo seja luta de segunda ordem.

Temos visto na atualidade cada vez mais denúncias de agressões por parte de “companheiros”. É possível que dentro de espaços anarquistas tenhamos que lidar com a opressão do patriarcado como se estivéssemos nos espaços não anarquistas? É obvio que o patriarcado se reflete nas pessoas e não poderia ser diferente com nós anarquistas. Por isso justamente que temos que destruir com o machismo que está dentro de nós.

Eu repudio totalmente a ‘acusação’ de que estou me focando e sendo separatista. Porque sim, eu estou me focando e serei separatista se tiver que ser. Porque sectário já é o patriarcado, e também aprendi do anarquismo a me organizar. Esta suposta “união” de lutas muitas vezes abafa, invisibiliza opressões específicas. Também totalmente repudio tentativas de boicote a autonomia das mulheres e sei porquê elas existem. Porque existe medo de confrontar privilégios, porque existe medo de perder o controle sobre o comportamento e sobre os corpos de mulheres e lésbicas. Porque ou não se nota ou é bom estar com o poder a seu alcance para quando se precise ou se queira usar.

E sim quando digo nós mulheres o faço porque estou me colocando numa classe. Porque precisamos nos colocar como classe, como grupo, porque a opressão se apresenta para todas nós mulheres, anarquistas ou não.

Nos protestos mulheres foram estupradas por policias e supostos companheiros. Vimos homens se aproveitando da confiança e da proximidade na luta para subjugar mulheres que acabaram sendo violentadas e abusadas. E sempre se questiona a mulher. O que ela fez, o que ela vestia, que horas eram.

E enquanto nas ruas corremos da polícia, nós mulheres temos ainda uma outra ameaça. E quando nos separamos de nosso grupo de afinidade, de nosso bloco, temos isso em mente e nos nossos corações, porque desde que nascemos a ameaça e o abuso são institucionalizados, fazem parte do ar que respiramos.

Não meus amigos, sim, não amigas, amigos, especificamente para vocês, que nesta linguagem patriarcal me ignora, me exclui e me invisibiliza. Então: não meus amigos, não existe anarquismo sem feminismo. O patriarcado antecede ao capitalismo. E a atualidade continua patriarcal.Não existem práticas libertárias enquanto nós mulheres não formos livres.

Só seremos livres quando todas formos livres.

Não se ponham no caminho da nossa libertação.”

enila dor.
15 de novembro 2013

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Por que ela não tá nem aí pra sua Insurreição//tradução

Por Que Ela Não Tá Nem Aí Pra Sua Insurreição é um texto que fala sobre machismo num contexto específico de Nova Iorque, na cena anarquista insurrecionária da qual a autora faz parte. Ela faz uma crítica sobre como o machismo está presente mesmo neste contexto, pois as mulheres enfrentam a opressão do patriarcado fora, mas também dentro de espaços anarquistas/libertários. Poderíamos dizer espaços supostamente anarquistas e libertários e não estaríamos sendo radicais, apenas sendo coerentes, pois não é possível que nestes espaços o machismo seja aceito, que seja uma opressão praticada como normalidade ou mesmo “apenas” ignorado. Não é possível ignorar o machismo. Isso só acontece porque existe interesse em manter as mulheres sob domínio dos homens. Lendo o texto percebemos que é uma situação análoga as cenas das quais nós também nos encontramos. Boa leitura.

ação antisexista

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Tradução de Why she doesn’t give a fuck about your Insurrection

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4ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre//15,16 e 17 Nov.

Feminismo Autônomo- Reflexões hoje, as 17h!

Hoje as 17h estará acontecendo o debate sobre autonomia no feminismo, fazendo parte do Ciclo da Autonomia no Espaço Deriva.

Algumas das questões que estarão sendo trazidas ao debate são:

-Perspectiva autonomista do feminismo em contraponto ao feminismo institucional.

-Feminismo e Anarquismo:

*como traçar objetivos comuns para ambas as lutas.
*Resistência às ideias feministas no meio anarquista.
*Discriminação e Violência em espaços libertários.

-Necessidade de espaços feministas exclusivos:  resistência que encontramos para nos organizarmos neste sentido e suas razões.

-Apropriação do feminismo por homens:  protagonismo de homens no feminismo e processos colonizadores.

-Feminismo Branco, classe medista, excludente e colonizador.

-Autonomia sobre nossos corpos: aborto e propriedade.

Além destes tópicos o debate é aberto a todos coletivos e individuas que quiserem trazer suas propostas para construirmos juntas esta parte do ciclo.

O Espaço Deriva fica na Rua Ramiro Barcelos 1853.

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Ciclo da Autonomia – Espaço Deriva

Todo sábado, a partir das 17h, convidamos coletivos e pessoas para debater alguns temas a partir de uma perspectiva autonomista, e este mês os temas serão: saúde, feminismo, transporte, tecnologias e alimentação. Em setembro, teremos oficinas sobre comunicação, economia, justiça e comunalismo.

Consideramos que a onda de manifestações dos últimos meses nos mostra que tem muita coisa interessante acontecendo ao mesmo tempo, muitos debates e gente querendo fazer coisas para tranformar a sociedade. No entanto, o fato de ser um movimento principalmente de rua tem feito muitas vezes com que as pessoas fiquem meio perdidas, sem saber o que fazer além das manifestações, e os processos continuam muito desarticulados. Enquanto autonomistas, nos preocupa ver que as pautas estão sempre marcadas por reivindicações aos governos, e a políticas públicas, e muito pouco aparece no debate a inquietação com a autonomia das ações – a possibilidade de “trabalhar” os temas mais além de estar sempre pedindo para o estado. Achamos que isso reflete bastante a maneira de fazer política que já acontece há bastante tempo entre os movimentos sociais, mas também que essa “estratégia” (se chega a ser uma) está bastante desgastada – e isso é visível na inquietação de várias pessoas com quem temos conversado, mesmo as que vem dessa trajetória. Basicamente, pensamos que tem muita energia circulando por aí, e gostaríamos de criar espaços para canalizar essa energia mais além do diálogo com o estado, que costuma acabar com frustrações, já que este dificilmente dá conta das demandas.

Então propomos fazer um ciclo de encontros entre pessoas e coletivos que queiram compartilhar suas inquietações nesse sentido, pensando as possibilidades – e dificuldades – de atuar autonomamente. Como autonomia estamos entendendo não só o fato de não pautar suas ações pelo estado – tanto em termos financeiros, quanto de agenda – (e poderíamos também incluir grandes instituições como partidos e organismos internacionais), mas também de buscar maneiras de organização autogeridas e de se pensar no entorno de maneira que – na falta de palavra melhor – chamaremos de sustentável. A ideia é que, a partir de temas, diferentes grupos que trabalham com aquilo possam contar as ideias que os movem, suas experiências e suas dificuldades, para assim pensarmos juntxs as possibilidade de atuar com autonomia.

Espaço Deriva
Ramiro Barcelos, 1853
www.deriva.com.br

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Porque a crítica à Marcha das Vadias não é puritanismo

A apropriação do termo Vadia – utilizada pela Marcha das Vadias – é criticada como estratégia feminista por muitas de nós, provocando um longo debate. Eu compartilho da opinião de que a apropriação do termo não trará mudanças, que pelo contrário o termo Vadia contribui para nos objetificar e subjugar, que não ajuda como estratégia contra o estupro, e que ignora a realidade de muitas de nós, principalmente das mulheres e crianças prostituídas, embora pareça se solidarizar.

Neste debate surgiu o argumento de que seria por conservadorismo e por uma sexualidade reprimida que se critica a apropriação do termo. Em contraponto, se passou a assumir como uma espécie de “vantagem” inerente às pessoas que são a favor da apropriação da palavra vadia, como sendo bem resolvidas* e/ou sexualmente ativas.

A primeira coisa que me salta aos olhos é que sexualidade reprimida não é um defeito, é um problema, e como tal não serve como acusação nem ofensa. Dizer que as pessoas são muito reprimidas como crítica a este comportamento, é culpá-las pelo que lhes foi imposto. Já, alertar para isso e incentivar que as pessoas lutem contra esta repressão é algo construtivo. Além disso, não são todas as pessoas reprimidas que são como os estereótipos que se tem de pessoas quadradas e conservadoras. Não são também todas as pessoas que não tem sexualidade ativa que são de fato reprimidas, elas podem ter outros motivos para não serem ativas, e nem é verdade que as pessoas ativas são necessariamente felizes sexualmente.

Este tipo de afirmação parte do ponto de que sexo é algo bom sempre. Sexo nem sempre é bom, porque depende da situação, do momento, com quem, e do prazer. É uma afirmação também que ignora completamente as pessoas assexuais – que não sentem desejo sexual. Pode ser difícil da gente pensar assim num primeiro momento, já que existe uma forte repressão sexual e que somos impelidas a pensar que a luta por uma sexualidade livre significa fazermos sexo quando bem entendermos com quem bem quisermos, quando na verdade sexualidade livre significa além disso é claro, que nossas opções sexuais não sejam motivos para sermos perseguidas, e tampouco que as pessoas sejam perseguidas ou inferiorizadas quando não são sexualmente ativas, por opção ou não.

Apropriar-se do termo vadia não é sinônimo de uma sexualidade bem resolvida. Vai muito além da sexualidade de uma pessoa (embora possa fazer parte) as opções e táticas políticas que ela toma para si. Eu diria que optar por não usar o termo vadia tem muito mais a ver com uma preocupação quanto a sexualidade mal resolvida da sociedade e todas as implicações disso (estupro, controle, objetificação…) do que com a própria sexualidade (ainda que esta seja também mal resolvida). E embora uma mulher possa adotar o termo vadia como tática política, não significa que uma mulher que se apropria do termo vadia, se torna automaticamente politizada e liberta.

Ir para a Marcha usando “roupas de vadia” e se apropriar do termo vadia, passaram a ser considerados símbolos de autonomia e de se estar bem resolvida, naturalmente que ao criticar  essas formas de ação ficamos vulneráveis para sermos consideradas mulheres fechadas, conservadoras. É bem fácil de entender o receio que muitas podem sentir em questionar a Marcha, já que nos exclui automaticamente do círculo de vanguarda.

Não podemos ignorar que existe uma pressão também na mulher para provar sua feminilidade, sexualidade e sua capacidade de fêmea. A nossa sexualidade é controlada através de repressão e também de cobranças das nossas “capacidades e poderes” sexuais. É consenso de que o termo vadia é usado quando querem nos xingar, mas não é também usado para designar mulher boa de cama no imaginário machista? Estaríamos nós inconscientemente atreladas á opinião dos outros quanto às nossas capacidades de sedução, porque de certa forma queremos ser aceitas, estar incluídas, mesmo que numa sociedade que nos machuca? Não estou dizendo que este sentimento é o que leva à existência da Marcha, longe disso, estou apenas colocando que este sentimento pode estar presente dificultando desassociar sexualidade com participação na Marcha (que não se trata de sexualidade mas de estupro), podendo também gerar constrangimento para quem a critica, por ter sua sexualidade questionada.

Assim as mulheres questionadoras da simbologia adotada pela Marcha das Vadias são taxadas de conservadoras e de “mal resolvidas”. Pensem bem, isso não é muito diferente de dizer que feminista é mal amada,que falta um homem no seu corpo.

*O termo bem resolvida(o) também está atrelado as especificidades no contexto patriarcal, nem sempre significa algo positivo, as vezes parece até dar uma idéia contrária, de conformidade. Ademais é bastante difícil identificar conceitos como esse, numa sociedade patriarcal onde a sexualidade é um tabu. Isso passa também pela questão do consentimento, pois uma pessoa bem resolvida pode não estar atenta aos desejos da sua parceira (o) e numa outra escala, às vontades das pessoas a quem ela tenta suas investidas.

enila dor.
Outubro 2012

-Este texto  também faz parte da compilação Considerações sobre a Marcha das Vadias e Outros Textos, que você pode ler todo aqui na sessão de zines.

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Considerações sobre a Marcha das Vadias

A Slut Walk surgiu em Toronto no Canadá em abril de 2011, quando um policial declarou que “as mulheres deveriam evitar se vestirem como putas para não serem violentadas”. A declaração absurda culpabiliza a vítima e justifica quem exerce tal violência. Em resposta, várias mulheres organizaram a SlutWalk. E assim em varias partes do mundo se sucedeu o que no Brasil se chama de Marcha das Vadias.

A declaração do policial, porém, reflete uma opinião que não é novidade. Sempre a ouvimos e há muito nós feministas/ mulheres reivindicamos que não importa como uma mulher se veste, hora ou lugar que se encontra, nada pode justificar o estupro. A mulher não pede para ser violentada. Muitas são as mulheres também que são estupradas pelos próprios maridos, namorados, conhecidos, etc., demonstrando a mentalidade de que mulher é propriedade, e como tal pode ser “utilizada” pelo proprietário como ele bem quiser. O homem que lhe é estranho, que não a conhece, também se sente proprietário daquela mulher naquele momento e se acha no direito de violentá-la.

Nós mulheres não podemos ser culpadas por estas violências sofridas. A culpa da violência é do agressor! Ponto. Nós mulheres temos que ter o direito de nos vestirmos como quisermos. Agora, se a marcha das Vadias utiliza deste argumento, esquece por outro lado que o termo Vadia (também puta ou vagabunda) é extremamente opressor, que existe apenas no contexto da sociedade patriarcal, e se apropriar do termo não vai trazer mudanças no sentido de diminuir a violência sexual. Sim, não é porque uma mulher se veste “como uma vadia” que ela “merece” ser estuprada, assim como se vestir mais “discretamente” não vai garantir segurança para nenhuma mulher, pois a violência que os homens agressores cometem não depende da roupa que uma mulher veste. Depende dele.

Inicialmente a marcha surgiu como protesto, mas logo foi adotada em vários lugares e passou a ser uma ação feminista, e por isso também que é criticada, pois ela não se encaixa para muitas de nós como uma ação feminista por mudanças radicais, pelo contrário, para muitas de nós ela ofusca e ignora questões importantes. Ela ignora que a apropriação do termo vadia reforça a objetificação da mulher, e ela ignora que para as prostituídas o termo carrega o significado de exploração e vulnerabilidade máxima quanto às violências que sofrem.

As mulheres que vão para a Marcha vestidas “de vadia” pensam estarem contestando algum valor conservador, mas ignoram que o próprio conceito de se vestir “como puta” é hipócrita nesta sociedade patriarcal e capitalista. Porque as roupas curtas e justas consideradas roupas “de puta”, são também as que o mercado nos impõe para que sejamos desejáveis. A realidade é que existe controle sobre como devemos nos vestir para sermos aceitas na sociedade, para sermos respeitadas, mas também disponíveis e atraentes. Que a nossa revolta seja contra a mentalidade machista da sociedade e contra o mercado competitivo capitalista e patriarcal que se utilizam disso para nos controlar e lucrar.

Quando questionados o termo e a forma de ação da Marcha das Vadias, prontamente houve uma tentativa de acabar com qualquer argumento, acusando este de moralista e conservador, impedindo um maior aprofundamento da discussão.

Assim aconteceu também com a questão da prostituição que foi trazida ao debate, pois vadia além de ser o xingamento que os homens fazem para as mulheres que não lhes agradam e o rótulo dado à mulher que “dá pra todo mundo”, é o termo usado para se referir à “prostituta”, “a maior Vadia de todas.”

Não existe nenhum respeito pelas prostituídas, elas são objetos descartáveis de prazer e de poder masculino, podendo sofrer qualquer tipo de tratamento.

Quando questionada a Marcha das Vadias como sendo a voz das prostituídas e que era composta pelo contrário, de uma grande maioria de mulheres e garotas de posição privilegiada, estas mulheres e garotas responderam que a marcha servia também para se solidarizar com as prostitutas. Mas eu acredito que se vestir “como uma prostituta”, com roupas “de vadia” e se apropriar do termo Vadia para ir à Marcha é uma forma colonizadora de agir, mesmo que seja com a intenção de se solidarizar, porque é fácil se apropriar dos termos e vestimentas sem ser uma prostituta no dia-a-dia. Por uma questão de consideração com as prostituídas, por amor a elas, é que não compreendo que deixemos de lado seus sofrimentos, ofuscando-os ao dizermos que somos também vadias, mas não sofrendo as mesmas conseqüências disso, que são como os homens as tratam todos os dias. Estas mulheres são constantemente estupradas, espancadas, humilhadas, roubadas, abusadas e assassinadas por serem vadias como profissão, sem que isso tenha sequer reconhecimento de um tratamento indigno, pois estes homens se acham no direito de tratarem elas do jeito que eles quiserem, pois eles não as consideram nada mais do que um objeto que eles vão usar, e eles sabem que nunca serão punidos por serem violentos ou abusivos com elas, e muito provavelmente nada lhes vai acontecer, mesmo se matarem uma prostituta. A sociedade também não reconhece que o tratamento a elas é indigno, e quando faz acredita ser um problema secundário. Moralismo para mim é pensar que por uma mulher ser prostituta nada que aconteça a ela caracteriza abuso, afinal ela “ta aí pra isso”. Moralismo para mim é achar que uma mulher que anda com vários homens é vadia, ao invés de pensar que uma mulher que anda com vários homens é uma mulher que anda com vários homens, não há necessidade de rotulá-la. Não há necessidade deste rótulo para nenhum comportamento que uma mulher tenha, ou situação que ela se encontre, e não vale a pena nos apropriamos de um termo que não é um significado verdadeiro sobre nenhum comportamento ou situação, mas uma maneira de reprimir qualquer comportamento que nós mulheres possamos ter que não agrada a sociedade, ou partes dela.

Eu acho revoltante ver as pessoas se referirem a prostituição como uma profissão da qual quem tem a “cabeça aberta” encara-a tranquilamente, e só uma pessoa conservadora mesmo pra não aceitar isso nos “dias de hoje”. O que “os dias de hoje” nos mostra de tão positivo para as mulheres prostituídas? Eu acho que esta é uma forma de pensar pra aliviar a consciência, de tirar a responsabilidade social que devemos ter, a de lutar por igualdade para todas as pessoas. Como se a prostituição fosse uma profissão como qualquer outra, como se as profissões não fossem resultado das desigualdades. Pois se existe exploração no trabalho para a maioria das pessoas, existe exploração dupla na prostituição, pelo capital e pelo domínio masculino. A mulher é que é explorada e subjugada pelo homem -sendo prostituta ou não- e a prostituta está ainda mais vulnerável na maioria das vezes. Para uma libertação de fato da mulher, o ideal seria um mundo onde as mulheres não fossem prostituídas simplesmente porque o ideal para a nossa libertação é que tenhamos autonomia incluindo a dos nossos corpos. Incluir como autonomia a escolha da prostituída em vender seu corpo, é ignorar que ela está sujeita a qualquer tipo de tratamento. A prostituta não é uma trabalhadora comum, mas uma escrava sem direito à reclamar. O argumento de que existem mulheres que gostam de serem prostitutas e que por isso não seriam exploradas visto que “sabem muito bem o que estão fazendo e são donas dos seus corpos”, é uma forma superficial de encarar o problema, pois este “saber o que se quer” se confunde com aceitação e com sobrevivência. As oportunidades são muito diferentes para as pessoas, dependem de gênero, classe, cor e etnia. Muitas das mulheres prostitutas foram criadas em ambientes de prostituição – isso não pode ser considerado uma escolha. As mulheres prostitutas são na verdade prostituídas – levadas ou forçadas a isso. Prostituição é conseqüência, fruto do poder hegemônico dos homens, e não uma escolha. A dicotomia entre moralismo x liberação como argumento para o engajamento das mulheres à Marcha, só dificulta o debate. A crítica a apropriação do termo vadia para a Marcha das Vadias nunca nem sonhou em dizer que prostituição é depravação. Nem é depravação ser prostituta, nem é moralismo querermos ver e sermos mulheres livres!

Não é servindo o homem que nós mulheres nos libertaremos, não é sendo escravas sexuais que seremos livres e não é alimentando seus desejos em contraponto aos nossos que acabaremos com a hegemonia masculina, ainda que uma mulher acredite que ela própria deseja isso.

É um absurdo que a prostituição seja execrada por razões moralistas carregadas de hipocrisia, isso é trabalho para as instituições e mentalidades conservadoras. Mas também é absurdo que sejam ignorados o sofrimento, a exploração, o abuso, a violência, o estupro e a escravidão inerentes a ela.

Vejo aí uma postura bem típica neo liberal, que vê a compra e venda do sexo como uma prestação de serviço normal, esquecendo que a desigualdade é intrínseca a prostituição, assumindo que nada se pode fazer quanto ao domínio masculino. A solução não é proibir a prostituição nem perseguir prostitutas obviamente. A solução para todas sermos mulheres livres é destruir com o patriarcado, com o controle exercido pelos homens e seus privilégios em todas as esferas da sociedade. A solução é empoderar as mulheres individualmente e como classe. Isto é uma idealização com certeza, mas nem por isso vamos nos conformar e lutar pela metade.

Nossa luta deve se constituir em não sermos donas de casa submissas nem serviçais dos desejos dos homens, que nada mais são que duas faces da mesma moeda. A sociedade é hipócrita suficiente para manter ambas as faces, comumente utilizadas por um mesmo homem que utiliza “dos serviços” da dona de casa e da prostituta, evidenciando que ele exerce controle e domínio onde quer que ele circule.

A Marcha das Vadias teve intenção de se solidarizar, mas ignora ou abafa estas questões, e ainda pode alimentar preconceitos e reforçar papéis. Em relação a estratégia adotada pela Marcha, pergunto, como os homens vêem a Marcha passar? Na prática, os homens que passam pela Marcha, prestam atenção nas mulheres com “pouca roupa”. E isso acontece porque eles estão chocados? Ao contrário de se importarem, a grande maioria dos homens se diverte, e eu não acredito que isso traga algum benefício para nós mulheres. Eu não acho estratégico que sejamos objeto de desejo destes homens, acho que isso é uma coisa fundamental, que nós mulheres não façamos parte das preliminares hipotéticas que estes homens possam elaborar nas suas cabeças. E vou além, eu acho que é mais provável do que parar, pensar e entender a mensagem, que um homem agressor espere uma das manifestantes na primeira esquina se ele tiver a oportunidade, quando esta estiver sozinha.

Sinto que falta dialogarmos muito, nos conhecermos mais e lutarmos muito mais para a nossa libertação, para amadurecermos nas nossas lutas e reivindicações buscando desenvolver estratégias que ajudem aos nossos objetivos. Penso que a sinceridade nos nossos argumentos é chave para não cairmos em reformismos, não podemos nos utilizar de argumentos que tendem apenas a convencer, não temos nada a ganhar se não ganharmos a liberdade, nada a ganhar se não formos todas mulheres livres!

enila dor.
Outubro 2012

-Este texto faz parte do zine Considerações Sobre a Marcha das Vadias e Outros Textos, que você encontra na íntegra na sessão de zines aqui no site.

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Programa na Rádio Cordel Libertário- Anarc@feministas!!!

Nesta quinta, 18, a Rádio Cordel Libertário transmite Anarc@feministas! Esta é a segunda edição do programa Anarcopunk, Muito Além do Barulho, e nós estaremos participando juntamente com outras companheiras e coletiv@s!

Participe deste bate papo, onde estaremos compartilhando experiências, contando nossa própria história, contextualizando o Anarcofeminismo no Brasil, os problemas que enfrentamos como o machismo e a misoginia dentro e fora da cena, e as dificuldades que encontramos para construirmos espaços feministas, mesmo dentro do anarquismo e do punk.

Fortalecendo o Anarcofeminismo, nossa luta!

Acesse o programa no site radiocordel-libertario.blogspot.com.br  às 21:10h, quinta feira, 18 de abril.

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Chamada para ato público – 8 de março é luta!

8 de março é dia Internacional da Mulher, porém não é dia de comemoração e sim dia de luta! É dia para refletirmos sobre as opressões que nós mulheres somos submetidas e manifestarmos nosso descontentamento.

Estaremos amanhã reunidas nos manifestando no Largo Glenio Peres às 17h.

Venha para a luta!

Leia mais no panfleto da mani! panfleto8março

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