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Todos Contra a Mulher

 

Muito enervante tudo que envolve a acusação de estupro contra Neymar.
Não é que me surpreenda ver que a cultura do estupro anda de vento em popa, mas sempre me revolta ver o desprezo e o ódio às mulheres inseridos nos discursos, e que eles passem despercebidos. Desde que a acusação veio à tona, já vemos nas escolhas dos termos a minimização da violência, enquanto o mais ético seria chamar de acusação ou denúncia de estupro, preferem se referir como suposta agressão ou suposto estupro. A formação de opinião se faz desde o início da abordagem, reproduzida com intuito de descredibilizar a mulher, ou pela completa parcialidade nos “questionamentos” – que no final de contas são a própria cultura do estupro.

Junto com isso o que vemos é uma série de acusações à mulher, ao mesmo tempo que buscam inocentar as atitudes do homem. Nunca a gente vê as pessoas justificando em massa a atitude da mulher, já o comportamento do homem é tido como aceitável. É considerado normal usar de poder e dinheiro para conquistar mulheres, mas a outra via é veementemente rechaçada. Eu não estou afirmando que foi isso que atraiu a Najila (o poder, a fama, o dinheiro), mas se ela é criticada por “se vender”, o Neymar teria que ser criticado por “comprar”. É disso que estou falando, da discrepância nas críticas, na parcialidade do que é moral e aceitável e do que não é. O homem com dinheiro e fama é muito poderoso, porém não ouvi nenhuma vez de que Neymar quis se aproveitar de sua posição para fazer uma conquista, mas ouvimos até agora muitas vezes que Najila quis se aproveitar da fama, dinheiro e poder de Neymar, mesmo que ela nem tenha como reter nenhuma dessas coisas consigo, pois pertencem a Neymar. Mas o corpo da mulher, este pertence ao homem, sempre é justificável acessar os corpos de mulheres através de dinâmicas que refletem a desigualdade e até mesmo quando se usa de violência.

E então o próprio Neymar coloca o caso abertamente através de uma rede social expondo uma conversa íntima que teve com Najila que incluía os nudes que ela havia enviado de forma privada a ele. Além da exposição em si ser humilhante (nem vou entrar no mérito de ser crime), qual a relevância das mensagens e seu conteúdo para o caso? Nenhuma pessoa tem obrigação de performar nenhum ato sexual que não queira não importando em que momento dos acontecimentos. Quando uma pessoa diz não, é não e pronto, não importa que a pessoa foi até lá, que agora tá nua, que deu uns beijos e uns amassos. Qualquer pessoa tem o direito de ao se sentir acuada, agredida, ofendida, ou mesmo desconfortável, desistir do que for que esteja rolando. A Najila disse que não queria sem preservativos e ele não aceitou e a forçou. Ponto final da história.

É tão triste toda esta história, tão deprimente de ver que a própria Najila se vê obrigada a entregar provas, vídeos, áudios da violência. Os advogados dela para a nossa estupefação não fizeram orientações básicas, e eles mesmo fazem o papel dos advogados de defesa de Neymar (pois é né), ao dizerem que sem tais provas “não dá para defendê-la”. Desde quando vítimas de violência sexual precisam de registro da violência em vídeos? E se ela nunca teve os vídeos? E se ela disse que tinha gravações porque achou que era a única forma de conseguir dar início a uma denúncia? Novamente, não estou dizendo que ela não tem os vídeos, mas que pouco importa que tenha, se tivesse algo registrado que incriminasse o Neymar, facilitaria a acusação, mas isso não é imperativo para uma denúncia de estupro. Se, como estão supondo, ela mentiu sobre os vídeos, mancha a credibilidade dela? Sim, e a credibilidade de Neymar? De repente aquele cara que sempre foi considerado desonesto nas suas quedas em campo passou a ter sua credibilidade intocável.
Já o primeiro advogado saiu do caso porque segundo ele Najila tinha dito que havia sofrido uma agressão e que o ato sexual tinha sido consensual. Ele diz que ela afirmou que “durante o ato Neymar se tornou uma pessoa violenta, agredindo-a”, e segue dizendo que este seria “o fato típico central (agressão) pelo qual ele deveria ser responsabilizado cível e criminalmente”. Mas só um pouco aí, o ex advogado de Najila ‘acusa’ ela de no boletim de ocorrência ter feito uma “alegação totalmente dissociada dos fatos descritos”, se referindo ao que ela disse aos sócios advogados. Mas e a dissociação que este advogado tá fazendo sobre o que caracteriza um estupro? Como é possível definir que as agressões físicas de Neymar contra Najila não significam coação e consequentemente estupro? E como que um advogado ao ouvir uma cliente lhe contar sobre as agressões que foi vítima durante um ato sexual, não pensou ele mesmo (como advogado que é!) que isso caracteriza coação sexual? Porque é muito provável que ele mesmo ache ser dentro da normalidade que homens sejam violentos com mulheres, e que toda mulher deve no fundo gostar. Mas o que mais me impressiona é concluir sem sombra de dúvida que “até aqui” é só violência física, e que só “à partir daqui” é estupro, descartando-se fatores psicológicos envolvidos durante o processo todo. Não, este não é trabalho de um advogado de acusação de estupro. E é correto que advogados exponham conversas que tiveram com ex cliente?

Daí surgiu a advogada feminista para defender o jogador. E por decidir defendê-lo, ela foi expulsa do Cladem – Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, que é uma entidade de advogadas feministas da qual a advogada fazia parte. Eu fiquei bastante contemplada com a decisão do Cladem, que sem hesitar tomou a única atitude possível para o que se propõe. Aliás poderia corrigir o título com “Todos, menos o Cladem, contra a mulher”. Em nota o Cladem diz:

Entendemos que toda e qualquer pessoa tem direito à defesa dentro dos limites processuais estabelecidos pela ordem jurídica. De modo que, considerando as recentes denúncias envolvendo o jogador Neymar Jr., a ele deve ser assegurado o devido processo legal.

Entendemos também que todo e qualquer advogado e advogada tem constitucionalmente o direito ao livre exercício de sua profissão, descabendo perquirir-se publicamente acerca dos motivos pelos quais um ou outro caso lhe é oferecido e aceito.

Contudo, sendo o CLADEM uma organização composta por advogadas feministas, com mais de três décadas de atuação ética em defesa dos direitos das mulheres e, por consequência, de luta contra a violência simbólica que se expressa dentro e fora do sistema de justiça criminal em casos a envolver violência contra as mulheres, em especial quando o debate público versa sobre o estupro, comunica que a advogada Maíra Fernandes, recentemente contratada para a defesa do jogador Neymar Jr., conforme tomamos conhecimento via imprensa, já não mais pertence a nossa organização.”

Ou seja, não há dúvidas de que o Cladem acredita que toda pessoa tem direito à defesa, e de que não se opõe que Maíra Fernandes tenha direito a sua decisão como advogada, porém não lhe compete enquanto feminista defender um homem acusado de estupro. A premissa feminista é jamais presumir que uma mulher que denuncia uma violência sexual esteja mentindo. Não tem absolutamente nada de errado com a decisão do Cladem – que foi repudiada pela OAB. A advogada não foi desligada da entidade pelo seu direito de advogar, mas por ferir um conceito básico feminista, numa organização feminista. Mas ainda vamos precisar de muito tempo para termos nossas formas de nos organizarmos compreendidas.
Uma outra coisa que me chamou a atenção sobre a advogada, foi a sua declaração, em que ela diz que se convenceu, “absolutamente, de que se trata de uma falsa acusação de estupro” e “o que vi me deixou em tudo confortável para exercer a defesa do cliente”. Como feminista eu posso dizer, não é possível se sentir “em tudo confortável” com uma falsa acusação de estupro. Como advogada ela pode se sentir para defender Neymar, mas não como uma feminista. E é esta a exata razão de que ela não está sendo questionada como advogada, mas como feminista. Além disso, jamais pode ser confortável para nenhuma feminista saber que uma mulher fez falsas acusações de estupro, se é uma coisa que nos atrapalha e machuca é oferecer chances para descredibilizar as mulheres que sofrem violências.

“A Najila se complica” é o que mais lemos nos jornais. Ela de fato não é “a vítima perfeita”, ela enviou nudes, trocou mensagens de cunho sexual, o ex-marido e os advogados dizem que ela é vingativa, temperamental e acusam que ela mentiu sobre o vídeo, sobre o arrombamento, sobre muitas coisas. Mas nada disso, mesmo se provado verdade, nega em si que ela foi agredida e abusada, e antes mesmo de todas estas coisas virem a conhecimento publico ela já foi acusada de mentir. Este é o ponto – a primeiríssima reação da sociedade é sempre inocentar o homem acusado de estupro, enquanto acusam a mulher de estar mentindo. É sempre igual, já vimos todas as vezes que surgiram acusações semelhantes. No dia 1º de junho veio de conhecimento público a acusação, e já no dia 6 um deputado do PSL/RJ protocolou um projeto de lei em referência ao caso envolvendo Neymar, segundo o próprio deputado. Mas como foi possível tirar uma conclusão precipitada de falsa denúncia? Como é possível que isso seja algo cabível? Para nosso maior infortúnio a lei foi apelidada por internautas de lei Neymar da Penha. Não é possível descrever o ultraje e o desrespeito a alusão. Maria da Penha sofreu duas tentativas de assassinato pelo seu marido, e por decorrência das agressões ficou paraplégica. A lei que leva seu nome não só é importantíssima ao combate da violência doméstica contra as mulheres no Brasil, como é referência mundial. Além deste, foram apresentados mais 4 projetos, fechando um total de 5, em apenas poucos dias depois da acusação contra Neymar. Eduardo Bolsonaro parabenizou as iniciativas “para agravar pena de mulheres inescrupulosas que acusam falsamente homens de crimes e calúnias. Acredite, tem mulher bandida que faz carreira assim”, tuitou.

Fica bastante claro que proteger Neymar tem como objetivo proteger todos os homens. Sabemos o quanto é comum e tido como normalidade forçar uma mulher no sexo, como é corriqueiro que homens não aceitem usar preservativos, que se tornem agressivos, entre outras atitudes coercitivas. Inocentar Neymar antes de qualquer investigação é tanto causa como consequência da cultura do estupro, assim como da estrutura patriarcal que subjuga as mulheres.

 

Alteração na data da reunião da Frente Pela Legalização do Aborto// Ato em memória às vítimas da Ditadura

A data da reunião da Frente Pela Legalização do Aborto que seria hoje foi alterada para o dia 10 de abril já que hoje no mesmo horário estará acontecendo um ato para lembrar os 55 anos do golpe militar no país. Sempre é importante lembrar o 31 de março, para que não fique no esquecimento os 21 anos de ditadura no Brasil e as atrocidades cometidas durante o regime militar.

Foram muitas as mulheres que foram torturadas, estupradas (também tortura), incluindo mulheres grávidas, que não eram poupadas de choques elétricos nas suas vaginas, mamilos, nos seus órgãos internos. Mulheres sofriam ameaças de que suas filhas e filhos seriam mortos. Crianças, e até mesmo bebês bem pequenos, foram sequestradas, sofreram tortura e foram mortas. Ana Lídia Braga tinha apenas 7 anos de idade quando foi sequestrada, torturada, estuprada e assassinada em 1973, o suspeito era o filho do Ministro da Justiça na época, Alfredo Buzaid. Assim como Ana, a menina de 8 anos Araceli Crespo também foi torturada, ela foi estuprada diversas vezes quando foi mantida em cárcere privado. Algumas mulheres grávidas sofreram aborto devido às torturas e em alguns casos o aborto foi a própria forma de tortura que àqueles homens soldados lhes infligiam. As violências contra às mulheres e meninas eram bem específicas.

No momento atual da história do país o presidente é um homem que nega o golpe de 64 ao dizer que não “houve ditadura no Brasil”. Na semana passada Bolsonaro orientou que os quartéis fizessem as “comemorações devidas” pelo 31 de março.

O mesmo governo que em seu discurso já deu várias declarações de ser contra o aborto em todos os casos – um retrocesso aos nossos avanços pelos direitos e pela vida das mulheres – exalta uma época em que mulheres grávidas eram torturadas e sofriam abortos durante estas torturas.

A Frente Pela Legalização do Aborto estará hoje no ato, então estamos trocando nossa atividade de hoje e estaremos nos somando a manifestação em memória às vítimas de tempos tão sombrios, reforçando nossa luta por nossos direitos e em memória de todas as mulheres que foram presas, torturadas e as que foram assassinadas. Convidamos a todas mulheres que iriam à reunião que seria hoje para se juntarem a nós. E no dia 10 de abril faremos nossa reunião organizativa.

Hoje 1/04 – Ato “Ditadura Nunca Mais” às 17:30h na Esquina Democrática

10/04 – quarta feira – Reunião Organizativa da Frente Pela Legalização do aborto às 18:30 no Camp – Escola de cidadania, centro de Porto Alegre. Esta reunião é exclusiva para mulheres.

 

Prostituição é Exploração

Quando você critica a prostituição você sempre tem que ouvir alguém te perguntando o que você tem contra as mulheres prostituídas.

Por acaso quando você critica qualquer outro tipo de exploração, tortura ou escravidão alguém te pergunta o que você tem contra estas pessoas exploradas, torturadas ou escravizadas?

 

 

A Nova Pasta Mulher e o Antigo Ataque aos Nossos Direitos

A futura ministra da nova pasta Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, diz que o Estatuto do Nascituro será prioridade no ministério que comandará no governo de Bolsonaro. O Estatuto do Nascituro proposto em 2007 pelos deputados Osmânio Pereira e Elimar Máximo Damasceno, não permite o aborto sobre nenhuma circunstância. (Atualmente, a interrupção da gravidez é permitida no Brasil em caso de risco de vida da mãe, gestação causada por estupro e quando o feto é anencéfalo). Integrada ao texto do Estatuto do Nascituro, está a proposta de que a vítima de estupro receba um pagamento de uma bolsa custeada pelo estuprador ou pelo governo quando o agressor não for identificado. Em 2013, na última votação do projeto, ele foi apelidado de “bolsa estupro”, porque é exatamente o que esta proposta significa. É um ataque aos direitos das mulheres.

É um tipo de legalização para o estupro, porque aceita que o estupro existe e cria uma “saída” para que o controle reprodutivo sobre as mulheres não seja ameaçado. Mas por quê não se aceita que o aborto existe? Já que as mulheres abortam por quê não criar condições humanas básicas para as mulheres? Se a resposta é “porque o aborto é crime”, e o estupro não é? Os homens estupram, mas as mulheres não podem abortar. A ideia de uma “bolsa estupro” dá continuidade a violência contra às mulheres. É a misoginia em toda sua perversidade. As mulheres são estupradas sem distinção de classe social, cultura ou raça. Da mesma forma os homens que estupram não se enquadram numa categoria única de classe social, cultura ou raça. Isso é a supremacia masculina, e para que ela se mantenha é preciso aliviar a culpa dos homens controlando e punindo as mulheres.

As mulheres já são punidas por abortarem no Brasil, muitas vezes até mesmo nos casos previstos em lei enfrentam dificuldades, e com o Estatuto do Nascituro a punição se estenderia à obrigatoriedade de levar uma gravidez decorrente de uma violência brutal e traumática. A punição se daria de formas que nem podemos imaginar, parlamentares contrários ao projeto, já alertaram que a medida muito provavelmente forçaria a mulher estuprada a um tipo de relação com seu estuprador para o resto da vida. O que seria extremamente nocivo para a saúde psicológica da mulher, e novamente, de formas que não conseguimos imaginar, pois é impossível abarcar todas as consequências que obviamente fogem de um sistema pragmático ou de algum protocolo.

É um retrocesso que trava ainda mais a luta pela descriminalização do aborto encabeçada há várias décadas por mulheres de gerações anteriores. A punição com a ilegalidade do aborto está na criminalização das mulheres, na ausência de atendimento e de políticas públicas de saúde, deixando as mulheres sozinhas para resolverem a interrupção da gravidez arriscando suas vidas, ou a se tornarem criminosas podendo serem presas. A punição está nas sequelas físicas dos procedimentos precários dos abortos clandestinos. A punição é de morte para milhares de mulheres que não sobrevivem ao aborto. A punição é psicológica causando consequências que podem durar uma vida toda, pelas dificuldades enfrentadas geralmente de forma solitária, por sentimentos de culpa gerados pela própria criminalização e pelos conceitos de moralidade que permeiam a questão. Enquanto estamos lutando para vencermos este quadro já cruel e que nega a nós mulheres nossos direitos humanos básicos, esses projetos sustentados pelo fundamentalismo religioso e pela misoginia, impedem nossos avanços a essas conquistas.

Milhares de mulheres abortam todos os dias no país. As mulheres não vão deixar de abortar por causa de uma pensão. Uma gravidez decorrente de um estupro é um trauma gigantesco, não pode ser reduzido a um problema meramente econômico. É também de uma insinceridade social e política tamanha criminalizar o aborto, pois só se pode proibir o aborto legal, seguro e gratuito, mas não é possível impedir que mulheres busquem meios para interromper a gravidez.

Ainda se faz relevante ressaltar que a própria Damares Alves foi vítima de violência sexual, ela conta que dos 6 aos 8 anos foi estuprada e abusada por dois pastores, homens muito próximos que frequentavam sua casa. Esta parte é um tanto delicada e tem dividido as pessoas que se solidarizam com a sua história entre as pessoas que dizem que isso pouco importa. Dizer que as violências que ela passou pouco importam é uma simplificação e até mesmo uma ingenuidade, e é também inevitavelmente a falta de entendimento sobre como funciona a misoginia estrutural e os processos psicológicos decorrentes de abusos sexuais. É possível compreender o que ela passou quando criança, sem se deixar levar pela sua política conservadora e arbitrária. É possível reconhecer seu sofrimento e manter uma postura crítica e combatente aos programas apresentados por ela no governo que fará parte. E aí entra a questão da ingenuidade em simplificar às críticas colocando em termos de que pouco importa que foi abusada. Pois este fato é justamente utilizado para legitimar as propostas do governo de Bolsonaro. É muito comum este tipo de jogada, de manipulação na política. O simples fato de colocar uma mulher na pasta Mulher, que vai priorizar a proibição do aborto em qualquer circunstância, é uma tentativa de silenciamento às críticas contra esta que é uma supressão dos direitos das mulheres. Mas ao ocupar cargo de tal relevância e autoridade, nem Damares Alves nem o governo que atuará, poderão de forma incólume se utilizar dos abusos que ela foi vítima para vitimizar mais mulheres através de propostas de um governo que se estabelece num discurso retrógrado e que tem orgulho disso. Nós estaremos firmes para fazer oposição ao governo e a propostas como estas, e principalmente nós estaremos firmes lutando para que as mulheres tenham em algum momento neste país seus direitos garantidos e a dignidade que merecem. Milhões de nós não tivemos ou não teremos, mas nos manteremos fortes e principalmente constantes na luta pelos nossos direitos e pelos de todas aquelas que virão.

PEC 181- A criminalização do aborto em todos os casos incluindo nos que já são legalizados no país

Na quarta feira última, dia 8, foi aprovada no Congresso Nacional A PEC 181 que determina que o aborto seja criminalizado em todos os casos. A medida se baseia em afirmar que a vida começa na concepção e procura modificar a constituição que atualmente garante que o aborto no Brasil seja permitido quando é resultante de estupro, quando existe risco de vida para a mãe e quando o bebê é anencéfalo. Ou seja, esta medida prevê que mesmo em caso de estupro a mulher fica sendo obrigada a seguir com a gravidez, mesmo em caso de que a vida da mãe esteja em risco a sua vida vale menos, e mesmo que o bebê vai morrer assim que nascer, a mãe é obrigada a carregar o bebê por 9 meses. Esta medida é um retrocesso que fere os direitos das mulheres de forma avassaladora, e mostra o quão misógina é nossa sociedade que além de negar nossos direitos procura eliminar os direitos que já adquirimos, aumentando ainda mais o controle sobre nossas vidas, sobre nossos corpos. Num país onde estima-se que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos e que os estupradores ficam na maioria das vezes impunes, podemos observar que a punição fica sobre nós. Se nós mulheres fossemos vistas como seres humanos teríamos direitos iguais e a nossa vida teria valor. É inaceitável que nós mulheres tenhamos valor apenas reprodutivo, isso nos destitui da nossa humanidade e nos coloca apenas como aparelhos reprodutores.

Os defensores desta lei se escondem por trás de uma suposta preocupação com a vida, porém eles escolhem quais vidas serão poupadas e quais não, e é a vida das mulheres que é a desprezada.

A proposta de Emenda a Constituição é do deputado Jorge Tadeu Mudalen e foi aprovada na última quarta feira por 18 homens no Congresso contra um voto apenas, sendo este da única mulher na votação. Como é possível que isso seja aceitável? É absolutamente ultrajante que os homens sejam quem decidam as leis sobre nossas vidas enquanto as deles estão protegidas. É inaceitável que sejam os homens que decidam no alto de sua intocabilidade perante a esta questão – pois suas vidas jamais estarão em jogo aqui – sobre qual vida tem mais valor.

O aborto é uma questão de saúde pública. O aborto é uma realidade independente de sua proibição, desta forma as mulheres estão sujeitas a clandestinidade, correndo risco de serem punidas pelo Estado ou mortas pelas más condições dos abortos clandestinos. Todas as mulheres sofrem com a criminalização do aborto seja pelas leis punitivas, pelas condições de saúde seja pelo tabu. Porém a criminalização do aborto também é a criminalização da pobreza, pois são as mulheres de classes mais baixas com menos condições de conseguirem o procedimento. Além disso são também as que mais morrem (embora não as únicas), em decorrência da precariedade dos métodos utilizados. E sendo um país onde o racismo é estrutural as mulheres negras são as mais atingidas.

Nós mulheres não aguentamos mais sermos massacradas e destituídas de direitos, nós estamos fartas de lutarmos por nossa sobrevivência e ainda vermos nossos esforços sendo desprezados ao nos dizerem que já vivemos num mundo de “igualdades”.

 

Aline Rod.

A segurança dos homens para cometerem violências e a culpabilização das mulheres

A invasão dos homens ao espaço e corpos das mulheres é uma violência comum, cotidiana, cometida de várias formas. Na semana passada essa realidade se tornou bastante evidente quando um homem ejaculou no pescoço de uma mulher no ônibus. A gravidade da violência e também por ter sido cometida em espaço público não teve como ser abafada como são outros tipos de violências cometidas contra às mulheres.

Parte mais leve desta realidade, digamos assim, nós todas as mulheres estamos bastante acostumadas a lidar. Pegando apenas a invasão dos homens em transportes públicos eu não saberia contar as vezes que homens invadiram meu espaço ou cometeram abusos. Uma vez um desconhecido tirou o fone do meu ouvido para falar comigo. Eu achei aquilo ultrajante e peguei meu fone de volta e não lhe dei mais ouvidos literalmente. Isso só para ilustrar o direito que os homens se sentem de invadir o espaço das mulheres. Os homens constantemente interrompem mulheres, quando falamos e quando estamos no nosso silêncio. Quando estamos fazendo algo que eles julgam que fazem melhor começam a nos explicar muitas vezes coisas que já sabemos muito bem ou melhor que eles. Quantas vezes vendo a fraqueza dos homens em querer provar um conhecimento sobre algo banal, eu me vi lhes ouvindo apenas por constrangimento alheio. Muito provável que o meu sentimento de “constrangimento alheio” tenha raiz justamente na questão de que nós mulheres somos criadas a sermos compassivas e compreensíveis. A compaixão e a compreensão embora sejam consideradas virtudes para humanos, elas são muito mais uma obrigação para as mulheres do que para os homens. Os homens são mais estimulados a serem “autênticos” e suas ações ásperas são comumente justificadas como “homem de temperamento forte”, “não leva desaforo pra casa”, “um verdadeiro homem”, enquanto nós por reagirmos mesmo quando sem agressividade somos sempre “a louca”, “a histérica”, “a mal amada”.

Eu realmente não saberia dizer quantas vezes fui importunada no ônibus. Aos 13 anos porém eu passei pelo primeiro abuso de grau mais grave no transporte coletivo. Nesta primeira vez eu estava sentada na janela olhando pra rua pensativa como já era meu hábito, aguardando como todo mundo que está ali aguarda – minha parada chegar. Então eu sinto algo na minha vagina. Algo impossível de não sentir, porém devido a total discrepância daquilo que eu sentia com o que me parecia razoável em termos reais – ali no ônibus afinal das contas – eu cheguei a questionar a mim mesma se eu realmente tinha sentido aquilo. Eu não entendia de onde vinha aquilo. Porém eu olhei instintivamente para trás e havia um homem de seus mais de 30 anos, ele me olhava e tinha um sorriso sarcástico no rosto. Eu não soube o que fazer no primeiro momento. Eu soube porém que eu não teria como provar que aquilo tinha acontecido, e me bastou um segundo de observação para saber- o homem colocou a mão no vão do banco, entre o assento e o encosto, como eram os assentos na época, porque ele se achou no direito, e mais que isso- é importante ressaltar – se achou seguro para fazê-lo. Eu passei o resto do percurso elaborando uma estratégia em como eu desceria do ônibus, e se ele descesse atrás de mim? Eu também pensei em mudar de lugar mas eu me senti paralisada, eu julguei que seu eu me levantasse seria confirmar que ele havia me atingido. Muito estranho aquele meu pensamento, eu queria fingir que ele não havia me tocado, mas não por mim, eu queria que ele achasse que não tinha sido bem sucedido, embora eu queria sair correndo dali.

É muito desproporcional que os homens se sintam seguros para cometerem os abusos que cometem, incluindo em espaços públicos, e nós mulheres não nos sentimos seguras para reagir, pedir ajuda ou denunciar os abusos que sofremos. Isso é importante ressaltar. Não estou falando com isso que nós mulheres não reagimos, estou falando que é desproporcional a segurança com que os homens sentem de cometer abusos em relação a falta de segurança que temos e sentimos para reagir aos abusos. Isso é parte da guerra não declarada contra nós mulheres e que estamos “acostumadas”, nos cabendo apenas sobreviver no meio desta guerra da melhor forma que podemos. Muitas de nós não sobrevivem.

Alguns anos depois, lembrando que estou me atendo apenas a violência masculina no transporte público, lá estava eu, novamente num ônibus aguardando a hora de chegar em casa numa noite de segunda feira. Então senta um homem ao meu lado. Como era noite e eu olhava pela janela, foi possível pelo reflexo do vidro ver uma movimentação estranha vindo do homem. O braço dele mexia sem parar porém estava embaixo de uma pasta. Eu soube na hora o que ele fazia mas eu me senti travada para fazer alguma coisa. Eu novamente não estava preparada para aquilo, eu acho que nunca vou estar completamente, embora com o tempo de vida hoje me sinto bem mais capacitada para agir contra a violência masculina, mas não imune.

As pessoas costumam me considerar autoconfiante, com capacidade de resposta. Mas eu não consegui naquele momento colocar em ação toda essa minha virtude, ou defeito já que como mulher pode ser considerado como tal. Foram inúmeras vezes que já revisitei este episódio tentando entender do porquê eu não ter falado com as pessoas ao meu redor, ou ter chamado a atenção do motorista, ou cobrador. Uma das razões eu lembro, foi de que eu poderia estar cometendo um equívoco já que o que o homem fazia era literalmente por debaixo dos panos. Uma outra razão que eu também encontrei depois de recordar sobre o “ocorrido” foi vergonha. Eu senti vergonha por estar sendo atacada, como se houvesse uma espécie de culpa em mim, como se fosse possível que eu fosse a culpada. A vergonha que eu senti foi uma vergonha por antecipação, é como se eu soubesse que as pessoas me olhariam incrédulas, desconfiadas e ou iam me questionar sobre o que eu tinha feito para aquele homem fazer aquilo.

De certa forma a autoconfiança que eu procurei desde pequena desenvolver apesar de todo bombardeio do patriarcado que nós mulheres recebemos para não desenvolvermos, acho que foi o que me levou naquele dia a julgar que eu poderia me livrar sozinha sem ajuda das pessoas. Então, como da vez do primeiro abuso no ônibus, eu comecei a pensar numa estratégia de como sair daquela “situação”. Eu estava apavorada, mas conseguia raciocinar, eu jogava com o tempo e na verdade precisava que demorasse bastante, que o ônibus parasse em todas paradas possíveis até eu descobrir o que fazer. Eu sabia que principalmente naquelas circunstâncias, eu não poderia descer sozinha na parada de ônibus próxima a minha casa que era um local ermo e sem iluminação pública decente, era noite por volta das 23h. Depois de avaliar bastante, eu encontrei uma possível saída para o meu problema e decidi que era melhor eu descer uns dois quilômetros antes de casa, pois isso se daria numa avenida supostamente mais movimentada e que se caso ele descesse eu teria mais chances de não ser atacada. Para o caminho a percorrer depois até em casa à noite e sozinha, bem essa seria uma nova estratégia a solucionar. Também como parte da minha estratégia, eu pensei em descer só quando o ônibus parasse, ao contrário do comum que é levantar com certa antecedência e puxar a cordinha (que hoje é um botão). Esta estratégia porém era arriscada, pois dependia de que alguém solicitasse parar aonde eu queria ou que alguém solicitasse o ônibus da tal parada. Decidi arriscar. De repente faltavam três paradas para o meu destino – que não era de fato o meu destino final. Como para uma mulher pode ser difícil chegar em casa sob essa realidade, e ela também pode nunca chegar. Fui me preparando psicológica e fisicamente para tanto. Quando a parada chegou eu pulei do assento o mais rápido que pude e contornei as pernas do homem que se masturbava incessantemente, sempre por debaixo da pasta, imaginando que o mesmo não desceria já que não havia se levantado e solicitado a parada, e que teria um pingo de vergonha de mudar de ideia em cima da hora. Eu não sei porque cargas d’água eu pensei que um homem que não tinha vergonha de se masturbar em público pudesse realmente sentir vergonha de qualquer outra coisa. Desci com uma espécie de alívio que durou apenas um segundo pois ao olhar para trás para me verificar da minha segurança, como num filme de horror, ali ele se encontrava, na mesma parada que eu. Ele havia descido do ônibus. Pânico. Isso só me confirmou o que acontecia e os meus medos do que me poderia acontecer. Para minha “sorte” tinham três pessoas na parada e eu fiquei torcendo para que elas ali se mantivessem até eu bolar o plano B. E o homem se manteve igualmente ali aguardando sua presa. Ele me mantinha como refém. Tudo em silêncio. Tudo sozinha. Então uma pessoa pegou o próximo ônibus e dali uns minutos a segunda, quando eu vi que logo a terceira pessoa ia pegar o seu ônibus eu resolvi agir rapidamente, olhei ao meu redor e vi um grupo de pessoas se aproximando, eram três homens, eu então disse olá tudo bem? E comecei a caminhar com aqueles homens, o que não me garantia muita segurança, mas eu não tinha muitas chances. Eu não pensei na época em confrontar fisicamente aquele homem que havia se masturbado no ônibus e pronto para me atacar, além dele ser bem maior do que eu, eu não sabia se ele estava armado, eu tampouco estava interessada em dar-lhe as costas e esperar para que me atacasse. E foi assim que eu me livrei desse homem, os três caras estavam indo para a mesma direção que eu e nos separamos a umas duas quadras antes da minha casa.

Havia porém uma outra razão para eu ter ficado em silêncio durante todo o meu suplício, que nesta narrativa eu escolhi deixar para o final. Eu lembro que eu pensei que se caso eu procurasse ajuda das pessoas no ônibus e caso elas não agissem com indiferença e me fizessem sentir vergonha, que podia acontecer que se desencadeasse o linchamento daquele homem. Parece esquisito eu ter escolhido a integridade física daquele homem em contraponto a minha própria. Mais tarde quando eu já estava segura eu só pensava que ele poderia estar atrás de uma outra mulher e agora eu me sentia culpada perante a esta conclusão.

Vendo que dos últimos casos de violências contras às mulheres das últimas semanas surgiram debates sobre punitivismo eu me lembrei de tudo isso que me aconteceu de todos os detalhes, e me perguntei, de quem e para quem essas pessoas estão falando sobre punitivismo? Quem são as pessoas em grande maioria que além de cometerem as violências primárias costumam cometer crimes de vingança? Pergunto, fora considerar que as denúncias feitas por mulheres contra homens podem talvez se tornarem escrachos e possíveis mas muito improváveis linchamentos o que está sendo feito para parar a violência dos homens? Quais medidas a esquerda tem tomado para acabar com a violência masculina? Nem mesmo acreditar nas mulheres agredidas a esquerda costuma acreditar, são incansáveis as denúncias de abuso que não mudam absolutamente nada na vida do agressor que muito pelo contrário continua andando pelos mesmos cenários que sempre andou. Então esta questão sobre o punitivismo além de tudo o que já foi mencionado é também falha em vários sentidos. Ela parece se alienar da realidade material. As pessoas que estão sendo punidas em primeiro lugar são as mulheres. Não que o debate sobre punitivismo não possa acontecer, mas também ele demonstra a prioridade da preocupação com a segurança dos homens. A misoginia é estrutural, dar menos importância a segurança das mulheres é sua consequência. Dentro de uma perspectiva de debate você sempre pode escolher uma neutralidade, se distanciar para elaborar teorias que podem até fazer sentido, teoricamente, mas que não correspondem com a realidade ou que favorecem os opressores, neste caso a neutralidade pode ter escolhido um lado.

Os homens mantém as mulheres como reféns, o patriarcado e a misoginia inerente a ele, nos atingem diariamente, a nossa rotina pode ser pesada e perigosa, mas nós mulheres somos sempre culpabilizadas, seja por estarmos no “lugar errado”, na hora “inapropriada para uma mulher”, com as roupas “erradas” (ou não), seja por vocalizarmos nosso sofrimento com o preço de sermos as responsáveis pela segurança dos nossos algozes.

 

aline rod.

Áustria – Vendida a casa onde José Fritzl torturou e estuprou a filha para um proprietário de uma “casa noturna”.

Essa notícia é muito perturbadora. Toda essa história é muito perturbadora. Um pai que manteve a filha em cativeiro estuprando-a repetidamente por 24 anos. 24 anos. Como se não bastasse os estupros e a privação, Elisabeth a vítima (sua filha), teve sete filhos decorrentes dos estupros, dos quais três (com 5, 18 e 19 anos) nunca haviam visto a luz do dia até serem resgatados em 2008.
Agora um dono de um “strip club” comprou a casa por 160.000 euros. É como um filme de terror, é como uma risada bem grande na nossa cara, no sofrimento das mulheres. O ódio às mulheres tanto não tem limites quanto é negligenciado. Eu sempre considero relevante lembrar que o patriarcado antecede ao capitalismo, porém eu também sei que o capitalismo e o patriarcado andam juntos e se sustentam entre si. A compra desta casa é uma ‘jogada de marketing’, e o mais incrível é que associa a exploração das mulheres com estupro e incesto como propaganda, nem se preocupa em negar e defender que “os clientes compram um serviço como qualquer outro”, como costumam dizer. Eu vejo assim pelo menos, pra mim tá bastante claro. Me perturba demais esta notícia, mexe com alguma coisa dentro de mim, um absolutamente medo do que tudo isso possa causar um “incremento” no abuso, exploração, sofrimento, na vida dessas mulheres. Porque a fantasia masculina está sempre garantida e impulsiona e gera o que os liberais chamam de “trabalho sexual”, em detrimento ao mal-estar, a insegurança, a vulnerabilidade, a exploração das mulheres, as desiguais oportunidades e a violência contra a mulher.

link da notícia:
http://metro.co.uk/2016/12/07/house-where-josef-fritzl-tortured-and-raped-daughter-sold-to-strip-club-owner-6306260/

* essa notícia veio no meu feed de notícias no fb através da página “Wipeout Misoginy”. Agora a Ação Antisexista tem pagina no fb também. Confere lá, curte e apoie!

Vítima ou Sobrevivente?

 

Somos todas vítimas do patriarcado porque é um sistema de opressão e exploração. Somos todas sobreviventes pelas mesmas razões.

Quando eu vejo as pessoas dizendo que as mulheres não devem “agir como vítimas” eu sinto duas coisas. Uma, que eu preferiria que as mulheres saíssem psicologicamente do estado de depressão. Porém não tem como não pensar que este estado de depressão é fruto de uma situação real que não foi inventada. A outra, é que eu não consigo deixar de pensar que quando alguém diz que as mulheres não devem “se fazer de vítimas” que existe por trás disso uma culpabilização das mulheres. Como se elas se sentissem vítimas sem o serem. O que não é possível.

Quando uma mulher é estuprada ela não está se vitimizando, ela está sendo vítima de um estuprador.

Quando uma mulher faz uma denúncia de estupro, ela não está se vitimizando ela está lutando contra a cultura do estupro, ela está alertando outras mulheres, ela está no seu processo de cura da qual só ela pode escolher como se sente – se uma vítima ou uma sobrevivente.

Quando uma mulher chora ao lembrar do abuso que sofreu ela não está se vitimizando. Ela está realmente?

Quando uma mulher não consegue reagir, ela não está se vitimizando! Ela está lutando pela sua sobrevivência.

Uma coisa é nós querermos promover força e resistência para nós mulheres, é querermos desenvolver uma elevação na nossa autoestima tão atacada a todo instante. Uma coisa é querermos promover um aumento na nossa moral, respirar em meio ao nosso abalo emocional. Mas outra coisa diferente é acharmos que só o termo sobrevivente é válido. O termo sobrevivente muitas vezes vem com o discurso do empoderamento. Porém o empoderamento em si é um conceito questionável, visto que se empoderar não é ter poder. Só se empodera quem não tem poder, quem tem poder não se empodera, mas exerce poder. Existe uma grande confusão quanto ao se sentir empoderada como se fosse uma solução. Mais uma das tantas falas do discurso liberal, mais voltado para a indivídua, o que ela toma como ‘empoderador’ independente de que faça uma mudança material na sua vida. Obviamente que a atitude que uma mulher exerce na sua vida traz mudanças materiais, o que estou querendo dizer é que nem sempre uma ‘atitude’ vai lhe garantir o tratamento que você merece. Se fosse assim, bastava a gente dizer que tal coisa nunca vai acontecer para esta coisa nunca acontecer, bastava estar com a atitude ‘certa’. É um discurso perigoso porque fala em termos de mérito e culpabiliza quem não é bem sucedida.

Eu não estou aqui ‘reivindicando’ o termo vítima como se eu achasse uma coisa maravilhosa alguma mulher se sentir vítima. To questionando o que tem me incomodado. E tem me incomodado faz tempo ver as pessoas substituírem a palavra vítima por sobrevivente como se fosse uma ordem, como se fosse uma falha se compreender como vítima. E principalmente para criticar uma mulher que se sente vítima depois de ter sido uma vítima. Por mais que seja melhor para ela ‘levantar a cabeça’, essa resolução não pode vir como uma regra que ela deve seguir. Além do que é bem possível que se autodenominar vítima ou sobrevivente seja parte de ciclos que podem se intercalarem, uma mulher bem pode se dizer vítima e sobrevivente dependendo do ponto de vista que ela enxergar.

Para ser bem sincera eu comecei a pensar sobre essa questão quando eu de cara pensei nas mulheres que não sobreviveram. Eu sempre penso nelas, eu sempre penso nas mulheres que não conseguiram, nas que foram assassinadas.

Se escolhemos dizer que não somos vítimas mas sobreviventes não estaríamos automaticamente chamando as mulheres mortas de as únicas vítimas e com isso lhes tirando ‘o poder’ do qual parece que só nós as sobreviventes teríamos? Não estaríamos com isso sendo meritocratas? Não estaríamos passando por cima dos túmulos dessas mulheres? Não estaríamos silenciando-as ainda mais? E isso por acaso não dá ainda mais poder ao assassino? Pois saibam que as mulheres morrem bravamente, que lutam pela sua sobrevivência, mesmo as que não a alcançam.

Eu totalmente entendo o valor de se sentir uma sobrevivente.

Mas os estupradores não estão violentando as mulheres para que elas se sintam empoderadas.

As vítimas sabem melhor do que ninguém que elas são também sobreviventes, mesmo que elas não usem o termo para si. Porque elas podem, se assim quiserem, te contar o que lhes aconteceu.

aline rod.

Ato Estupradores Não Passarão!!! 15 de Novembro

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Carta de Repúdio a decisão do juiz Paulo Augusto Oliveira Irion pela soltura do estuprador Marlon Patrick Silva de Mello// Ato – Estupradores Não Passarão!

Nós, Mulheres Organizadas Combatendo a Violência Contra a Mulher, viemos por meio desta, repudiar a decisão do juiz Paulo Augusto Irion, de soltar o estuprador Marlon Patrick Silva de Mello, pego em flagrante pela polícia no dia 12 de outubro último.

Era uma noite de domingo quando a adolescente de 16 anos foi brutalmente estuprada e espancada por Rodnei Alquimedes Ferreira da Silva e Marlon Patrick na orla do Guaíba. A menina foi levada para o hospital em estado grave, inconsciente e desfigurada a ponto de dificultar seu reconhecimento por familiares.

A decisão do juiz demonstra como a violência contra a mulher é naturalizada e reforçada diariamente a tal ponto que, mesmo sendo pego em flagrante, o juiz considerou de maior valia o fato do estuprador ser réu primário, alegando que o estupro foi um caso isolado na vida de Marlon Patrick. No entanto, o fato isolado ao qual o juiz se refere não é um delito comum, mas um crime hediondo decorrente da misoginia e da cultura do estupro. É notório o quão irresponsável foi a decisão do juiz ao minimizar o crime e também a dimensão da dor da vítima, bem como as consequências na sua vida. A definição de fato isolado se aplica melhor na condenação de um estuprador.

A cultura do estupro se dá na objetificação de nós mulheres e no senso comum de que o corpo feminino é propriedade do homem. A cultura do estupro se dá na hiperssexualização de nós mulheres nas diferentes esferas sociais, e na forma monstruosa que mídia reproduz estes estereótipos. A cultura do estupro se dá na banalização do estupro, na culpabilização das vítimas que são sempre questionadas, sejam pelas roupas, pelo comportamento, ou qualquer outra justificativa que sabemos servir somente para abrandar o que não pode ser abrandado. Desta vez não foi diferente, quando vimos os jornais chamarem atenção para a aparência da vítima, ou ao fato do pai da menina declarar que a filha “estava rebelde ultimamente”, para citarmos alguns exemplos. Sabemos que estas justificativas são meios de desvalidar nossa palavra e menosprezar nossa dor.

Procurem a culpa onde ela está que vocês acharão. A culpa é do estuprador e nunca da vítima.

A decisão de soltar o estuprador expõe ainda mais a vítima, a coloca em risco e também outras mulheres, e desencoraja a denúncia por parte de todas as mulheres que sofrem abuso, enquanto incentiva a perpetuação da violência contra a mulher através da impunidade.

Esta resolução e a cobertura midiática não são exclusividades deste caso, mas o padrão pelo qual se mantém um arranjo social cruel que expõe as mulheres a violências.

Repudiamos a decisão do juiz e o consideramos incapaz de julgar crimes sexuais e de violência contra a mulher, e exigimos que a justiça ampare e proteja as vítimas negligenciadas por interpretações arbitrárias de magistrados.

A maioria dos juízes que julgam casos de estupro são homens. Questionamos se como homens sejam capazes de compreender e tratar de questão tão grave com a seriedade que nós mulheres merecemos.

Estupradores não passarão!

Não nos calaremos!

Em solidariedade a vítima,

Mulheres Organizadas Combatendo a Violência contra a Mulher

Porto Alegre, 22 de Outubro de 2014

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Foto do ato que aconteceu ontem na frente do Fórum central de Porto Alegre, onde o juiz Paulo Augusto Irion presidia uma audiência.

No ato foi lida a carta acima que também foi entregue no gabinete do juiz. Foram feitas falas e gritos de luta em solidariedade a vítima e a todas as mulheres sobreviventes de abuso. Foi expressado o nosso repúdio a forma como o juiz está tratando o caso: ele entendeu que o estupro foi um “caso isolado” na vida de Marlon Patrick Silva de Mello.

Várias pessoas que entravam e saíam do fórum paravam para entender e ouvir o que estava sendo dito e várias mulheres se solidarizaram ao ato e mostraram sua indignação. Fomos impedidas por seguranças do local  quando nos direcionamos na entrada da parte lateral do Fórum e a polícia foi chamada. Resistimos e continuamos nosso ato até o final.