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Pelo fim da violência, pela vida das mulheres

No último dia do ano é normal que as pessoas estejam com o pensamento no futuro, num ano melhor, independentemente de quais sejam as suas crenças, ou descrenças. Sem querer tornar pesado este momento, principalmente porque sim é muito exaustiva a opressão patriarcal, e triste, injusta e covarde a violência oriunda deste sistema contra às mulheres. Mas como um sinal de respeito as mulheres que tiveram suas vidas ceifadas e que não podem ver o novo ano ou chegarem ao seu futuro.

No dia 31 de dezembro de 2016, Isamara Filier foi assassinada pelo seu ex marido juntamente com seu filho de 8 anos e mais 10 pessoas. O feminicídio em massa, acabou com a vida de 9 mulheres – “Eu tentei pegar a vadia no almoço de Natal e dia da minha visita, assim pegaria o máximo de vadias daquela família” – Sidnei Ramis de Araújo, o assassino, que cumpriu sua promessa misógina.

Ele também justifica porque matará seu filho: “Morto também já estou, porque não posso ficar contigo, ver você crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas.” Fica difícil qual ponto pegar para se discorrer sobre. Mas vamos julgar que neste instante não precisamos falar sobre tudo o que sempre viemos falando, e vamos nos ater numa coisa então por hora. Egoísmo masculino. O egoísmo talvez tenha na masculinidade seu maior ápice. Julgar que as vidas de sua ex mulher, seu filho, e mais 10 pessoas devem ser extinguidas porque sua ex mulher está pedindo a separação e a guarda do filho é egoísmo masculino. E a prova mais violenta disso é que na verdade, com o distanciamento, o que aconteceria é que ele não mais poderia exercer a violência contra a sua família o quanto gostaria. Isamara Filier havia registrado cinco boletins de ocorrência contra Sidnei Ramis por ameaças de agressão e morte além de uma denúncia de abuso sexual contra o filho. O egoísmo masculino é o homem centrado na sua autoimportância levado a crer, pela própria lei dos homens, que ele está em primeiro lugar na hierarquia até mesmo para decidir sobre a vida e a morte. O egoísmo masculino em sua plenitude, costuma causar violência a outras pessoas, especialmente mulheres. Isso nos leva a pensar que nós, as mulheres, somos ou podemos ser a ameaça a este sistema patriarcal. Embora o patriarcado seja a verdadeira ameaça a nossa sobrevivência, sendo os homens os idealizadores e iniciadores do que podemos chamar de guerra, a nossa insubmissão e oposição são as ferramentas possíveis para que esta estrutura venha a ruir e chegar ao seu fim. E ela só será feita se seguirmos lutando pela nossa libertação e pelos nossos direitos. Sempre.

Em memória a Isamara Filier e a todas as mulheres assassinadas vítimas da violência masculina, que só pode existir porque o patriarcado permite e se retroalimenta da sua inerente misoginia.

Aline Rod.

link para o texto escrito na época:

Violência Masculina – uma reflexão após mais um feminicídio

Dia Internacional da Não Violência Contra à Mulher – [ Sobre o Feminicídio]

“O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.”
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher

O número de feminicídios cresce no Brasil, em relação a 2016 o ano de 2017 teve um aumento de 6,5 % de mulheres assassinadas, chegando a uma média de 12 mulheres assassinadas por dia, ou, a cada duas horas uma mulher é assassinada no país.

Feminicídio é um crime de ódio às mulheres. No Brasil o cenário mais preocupante é do feminicídio cometido por parceiro ou ex parceiro. Geralmente o feminicídio é premeditado e precede a um padrão de violência aterrador, por isso em muitos casos ele poderia ser evitado. Infelizmente muitas mulheres não conseguem evitar de serem mortas ou obter ajuda, e ainda que procurem, mesmo por meios legais, tem suas denúncias ignoradas, ou tratadas sem a devida importância e urgência. No patriarcado as reivindicações das mulheres são comumente descartadas. Assim como suas vidas.

Violência Masculina – uma reflexão após mais um feminicídio

Quantas mulheres ainda precisam ser assassinadas pelos seus (ex) maridos, (ex) namorados, (ex) amantes ou mesmo pretendentes para que sejamos ouvidas e garantirmos nossa sobrevivência? O que precisa para que as denúncias de mulheres contra seus abusadores sejam tratadas com seriedade?

A misoginia mata. A misoginia é combustível para o feminicídio. Mas para o feminicídio ainda se encontram justificativas e culpabilização da vítima. As mulheres são incessantemente questionadas sobre onde foi que erraram, o que fizeram ou deixaram de fazer. As mulheres lutam sozinhas, cada uma na sua ilha, contra todo um sistema que ataca a sua integridade ao mesmo tempo que a responsabiliza pelas violências sofridas. Mas para que exista uma violência sofrida existe uma violência cometida. A vítima de feminicídio não pode ser seu próprio algoz. A violência dos homens contra as mulheres só pode se manter numa sociedade patriarcal, que gera a violência e se alimenta dela para seguir existindo. Essa é a verdade cruel do patriarcado. Para que os homens continuem com o domínio nas suas mãos é necessário que o bem-estar das mulheres seja ignorado ou negado.

A violência misógina pode se manifestar para qualquer mulher, mulher estranha, mulher próxima. O grau maior de intimidade não garante segurança às mulheres, pelo contrário, o risco de uma mulher sofrer violência é proporcional a proximidade dela com homens. Esta constatação causa desconforto, eu sei, porém esse desconforto não pode prevalecer a integridade das mulheres, não pode ser mais importante e urgente do que garantir às mulheres sua existência.

Negar isso acaba por contribuir em perpetuar o feminicídio, pois cria-se uma falsa realidade de que o âmbito doméstico ou privado é seguro e confortável (porque sim, deveria ser). Essa falsa realidade pode se refletir no próprio comportamento das mulheres, que acabam igualmente introduzindo pra si a ideia de que aquele comportamento agressivo do seu parceiro pode não ser tão perigoso assim. Porém é um verdadeiro conflito interior, porque quando uma mulher sofre algum tipo de violência no âmbito privado ela mais do que ninguém sente na pele sua sobrevivência ou bem-estar ameaçados. Ela sabe. Não a subestime. Porém estamos dizendo a ela que é um problema que ela tem que resolver sozinha, como se não fosse um problema político, como se não fosse consequência do sistema patriarcal e da misoginia inerente a ele. Como se fosse um problema pessoal, o que geralmente leva a crer que ela é o problema. Nestas circunstâncias as mulheres permanecem na situação de risco porque não encontram saída, seus receios e suas experiências são desprezados e elas não tem a quem recorrer se não a si mesmas, e torcer para que o pior desfecho seja uma coisa que só existe na página do jornal.

Isamara Filier não pode mais falar e muito provavelmente não foi ouvida enquanto viva. Não nos parece agora “à toa” que Isamara lutou para obter a guarda do filho e garantir que o feminicida Sidnei Ramis de Araújo se mantivesse distante. Ela lutou com o que pode, e mesmo assim não foi suficiente, porque a violência masculina está na estrutura patriarcal e não sofre restrições nem barreiras. E mesmo que agora nos pareça obvio dos seus motivos para manter o ex marido distante, existe apoio de uma parte da sociedade ao feminicida, o que nos mostra a verdadeira face do patriarcado – o desprezo e ódio pelas mulheres e consequentemente pelo nosso bem-estar.

O senso de direito de Sidnei Ramis de cometer seu crime foi tão grande que ele é ainda o único que pode ser ouvido através da carta que deixou. Ele matou Isamara, o filho e outras dez pessoas, na maioria mulheres, sem lhes dar nenhuma chance de reagir e lhes calando para todo sempre.

Na luta pela libertação das mulheres é nossa responsabilidade não deixar as mulheres lutando sozinhas pela sua sobrevivência e bem-estar. Nós tampouco devemos culpabilizar as mulheres por se relacionarem com homens. A culpabilização das mulheres pelas violências que sofrem sempre foi e continua sendo uma poderosa ferramenta para justificar e desculpar a violência masculina.

aline rod.