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Vênus em Fúria #5 – 19Março

Vênus em Fúria #5 hoje!

Festival para arrecadar fundos para o Girls Rock Camp Brasil, projeto absolutamente importante, espetacular, para resgatar a autoestima de meninas, capacitando-as para a música e desenvolvendo a parceria entre meninas e mulheres. O festival é todo organizado e composto por mulheres – equipe técnica, roadies, produção e direção de palco, todas as bandas tem mulheres na sua formação – e isso é igualmente relevante e inspirador.
Muito feliz de poder tocar hoje e participar mesmo que de forma singela nesse projeto.
Obrigada por me convidarem.

Chamado – Greve Geral de Mulheres – 8M 2017

O Patriarcado data de no mínimo cinco mil anos de diferença do capitalismo. O antecede.
Logo, com o fim do capitalismo não está garantida nossa libertação. Ela não se dará automaticamente.

Ao constatar isso eu entendi o que é ser feminista. Ser feminista é viver numa luta sem fim, porque ser mulher já é viver numa guerra. Mesmo que a gente não perceba, mesmo que a gente reproduza comportamentos que corroboram com o patriarcado, é exatamente isso que estaremos fazendo: contribuindo com o patriarcado a nos explorar e oprimir. Quando nós mulheres reproduzimos esses comportamentos nós não somos beneficiadas. As únicas pessoas beneficiadas serão os homens, mesmo os que negam o benefício, porque eles podem ser beneficiados mesmo que não queiram, assim que precisarem ou decidirem que tal momento se faz necessário que se utilizem do benefício.

Ser feminista acima de tudo é aprender a estar só. Uma feminista sempre vai invariavelmente estar só numa parte da sua vida ou por toda ela. Eu falo de só de verdade. Até que ela vai encontrar outras mulheres que estão igualmente sós e ela vai aprender o que é o amor entre mulheres, o que é valorizar uma amiga, dar abertura para uma desconhecida. Inevitavelmente esse agora grupo de mulheres vai se deparar constantemente com rechaço, vai ter que explicar o porquê de sua existência e importância, vai ter que se explicar em casa também. Inúmeras vezes você vai se ver entrando e saindo de grupos que não conseguem se manter porque existe muita pressão para que esses grupos acabem. A pressão pode se dar de forma direta ou indireta. Uma pressão direta é o grupo receber fortes críticas pela forma como atua, geralmente colocada por um grupo de homens ou outro grupo com outro interesse político, ou ainda, ser atacado. Uma pressão indireta vai se dar no âmbito privado, que vai dificultar seu engajamento com suas companheiras feministas. A pressão indireta também se subdivide, ela pode acontecer, por um familiar ou parceiro que pode questioná-la do porquê do envolvimento dela com o feminismo, como por um parceiro ciumento, abertamente ciumento, e o grau de pressão aqui vai se subdividir de novo entre os ciumentos mais brandos até os mais violentos. Já a outra forma de pressão indireta é aquela que não lhe dará tempo para que se engaje ou afetará o seu grau de engajamento porque ela cuida da filha, ou dos filhos, ou da mãe ou do pai, do avô, da sobrinha, da tia, ou dos afazeres domésticos, além de trabalhar ou de ter outras responsabilidades. A desistência ou falta de engajamento com o feminismo também se dá pelo medo de ser abandonada ou ostracizada.

Eu escrevo agora as duas e meia da madrugada depois que eu consegui cumprir com meus outros prazos. Essa não é uma informação relevante em si mesma não fosse pelo fato de ter percebido a uns momentos atrás que quase desisti de escrever porque eu to cansada.
Mas eu sei que eu to mais cansada de como o patriarcado afeta minha vida e de todas as mulheres. Eu to mais cansada de lutar diariamente desde que nasci. E também eu não desisti de escrever esse chamado, porque eu decidi lá bem atrás no meu caminho, que essa luta é uma responsabilidade minha, eu escolhi assim, dentro das minhas opções de escolha, que também não me parecem ser bem caracterizadas como escolha.

Eu amanhã, ou, hoje logo mais, estarei me encontrando com minhas amigas e com outras mulheres feministas ou não. Eu irei nesta ou naquela atividade. E eu estarei as 17h na Greve Internacional de Mulheres por todas essas razões que eu coloquei aqui.
Se isso é um erro para alguns, eu vou ter tentado.
Nenhuma pessoa ou entidade é dona da Greve ou sozinha a representa, se existe tentativa de cooptação por grupos, ela deve igualmente ser combatida.

Vem, vamos tentar juntas, mais uma vez e para todo sempre, até que alcancemos a vitória, mesmo que isso só aconteça quando já não estivermos mais aqui.

Aline Rodrigues

Resistência Feminista – um breve “insight”

Uma sensação indescritível acontece quando ao observar uma mulher você gosta dela pelas mesmas razões que você a criticaria antes na sua vida. Quando você percebe que essa sensação acontece com você, é porque você conseguiu curar várias mazelas que foram bombardeadas e introduzidas de formas extremamente opressivas e mal intencionadas durante toda a sua vida. E você sente um gostinho de vitória ao confrontar todas expectativas dos manipuladores, que fizeram de tudo para te manter domesticada em benefício deles. Não conseguiram.

matrix.

aline rod.

Esperança nas Mulheres

Primeiro me trataram diferente.
Eu segui com a esperança que só é possível uma criança ter.

Depois foram trabalhando em minar minha autoestima.
Eu segui com a confiança abalada mas segui.

Logo mais percebi que minha segurança e integridade estavam em risco.
Eu segui desconfiada e mudei minha percepção das coisas mas segui.

Então sofri o primeiro abuso. O segundo e os que mais se sucederam. A violência e a humilhação que as mulheres sofrem por terem nascido mulheres. Porque existe uma cultura de ódio às mulheres. E eu segui já com meu coração apertado e meu sono interrompido.

Em constante estado de alerta.

Minha esperança mudou de parâmetro, já não era mais na humanidade, minha esperança passou de acreditar nas pessoas para lutar pelas mulheres. Na esperança de que um dia nos libertaremos.

Então passaram a me dizer que eu estava muito focada no “meu problema”. Mas não é “um problema”. Nem meu. O nome disso não é “problema”, é patriarcado – dominação exercida pelos homens – que oprime e explora as mulheres. A dominação masculina beneficia apenas os homens. Quer eles queiram, quer não.

Apesar de que deste homem que não quer, que acredita não querer, não nos é possível saber realmente o quanto ele não quer o benefício. Porque ele fala de um ponto de vista onde lhe é tudo garantido.

aline rod.

Ameaça/ Sisters For Liberation – som e letra

Orgulhosamente apresento o som da Ameaça:

Esta é uma faixa da demo da Ameaça, banda que toco bateria e faço os vocais.

Letra de Sisters For Liberation:

We are still here
We survived
You have been trying to erase our herstory
Our deeds
But we are still here
We will survive
We’ll tell by our own ways
We don’t need you
We never did

You try to possess us
You try to destroy us
We are still here
Many of us have survived
The ones who haven’t
The ones you killed
Are our bravest ones
They are in our hearts
Reminding us to keep the fight

Your fire
Your genocide
All of your hatred
All of your lies

We are not fighting for equality
We are not fighting for crumbles
We are sisters for liberation

We are still here
We survived

We are still here
We will survive


site da banda: https://ameaca.bandcamp.com/releases

aline rod.

Uma Visão Sobre a Política Queer – em inglês

A Point About Genderqueer Politics

When I first started playing and writing lyrics it was because I had all this idea of getting out from my chest the oppression of patriarchy. Of course I loved music, it was not only gloom. But I thought that all the pain could be transformed into something ‘useful’. Events that I had been passed through affected my life in a way that to scream and say were a way of surviving.

I wanted to fight sexism and misogyny and I thought that in the punk scene I would find a place of support and identification.

Some feminists who are not punks say that I should leave it. But I don’t want to leave it. At least not yet. I just don’t want to stop doing something that means to me, that it’s part of my life (playing and writing) just because people involved also reproduce sexism. In every place, every job, every school, every community, every kind of entertainment, you will always find sexism and misogyny. We can’t just stop living, and leaving spaces in order to make room for others, to make them feel comfortable without our presence, without our fight.

I have been passed through many situations in and out of the punk scene that makes me keep struggling. But I don’t want to talk about that now.

I just want to point that to fight sexism and misogyny in the punk scene is restless, just like it is in our daily basis. I have always been in the brink of war. In the war. For all the reasons – discrimination, jokes, abuse, fear, threat. For some time now something “new” happened. Not to ease our fight, not to be by our side. But to add more effort to our fight. It is the genderqueer views of feminism.

One of these days, a gender fluid man told me that he doesn’t believe in “biological stuff”. I asked what do you mean by that? He said, I for myself like to wear women’s clothes. That could be fine for me (could be) because first I “don’t believe” in “women’s clothes”, isn’t that a convention? I asked why was that, and what it has to do with “biological stuff”? He answered that sentence I was sensing it was coming up: “because I feel like a woman” but he added “sometimes”. Than I just made a simple question: yeah, and how does it feel to “feel like” a woman, please tell me because I actually wasn’t born with that feeling, you know, I was forced to be a woman”. It’s pretty senseless and a very shallow view to say that “you don’t believe in “biological stuff” and say that there is such a thing as “feeling like a woman”. This is as inconsistent as it can get. Like you are saying that there is a feminine brain? Isn’t that biological? Make your decision please to believe or not in “biological stuff”. Are you saying you don’t like gender roles but believe you are in the “feminine side” because you like lipsticks and skirts? Do you actually believe that being a woman means a certain costume to wear? Or even to be feminine? Don’t you really know that we are groomed to be feminine, there is nothing natural on that. And “natural” isn’t biological?

What I see is men thinking they are subverting a convention when in fact they are stressing the gender stereotypes when they say “I like skirts that must make me a woman”. Or all the other stuff we have been listening like “I always liked dolls”, “I was always very sensitive” and so on.

I know that convention exists and the need of people to be part of conventions. I know people have dysphoria. But that is another thing. Even so, we should question why people feel so bad in their bodies, and try to find the roots of their deep discomfort. And it’s not them who should be questioned, but society.

But I also can tell that in the punk scene, and also in the anarchist scene, when you ask directly to these men, are you a woman? They never answer yes. The majority of them say, I’m nonbinary. It’s like they themselves don’t even believe in what they are saying. It’s also a very good strategy to have a possibility to change your mind when it’s convenient. When the time of convenience comes.

And than he and another friend started asking me a lot of questions in a very male socialized way of asking. Very aggressive, very putting me against the wall. I felt more than pressured. I felt what men eventually make us feel: I felt hurt.

They were two men, none of them were reclaiming they were women just for the record. So they were telling me now how I should think and feel. How my feminism “is wrong” and how it “should be”, that I should “respect” people’s choices when they want to be treated like a woman (one of them told me that). First. “people” here means “men” right? Second. You really want to be treated like a woman? Do you want to see your brother have more respect even if you are the elder one since forever? So the hierarchy of age here it was suddenly forgotten. Do you want to be seen as object for your classmates and feel very uncomfortable when they touch you? When your best friend’s father touches you and you are not able to understand what have happened but you sense you have to be in silence, because although you know nothing about it you know for some reason it will be considered your fault? Do you want to go to the gynecologist when you are a teenager and the male doctor abuses you, because “why are you in his office in the first place?” Do you want to keep being abused for male doctors along your life? Do you want to be abused for many men because it’s ok to have sex, and it’s subversive, and they just keep hurting your feelings? Do you want to see your self esteem drowning because you were supposed to be thin, or to have the right curves? Do you want to be forced to get pregnant? I’ll ask again: Do you want to be forced to get pregnant? And forced to get pregnant again? Do you want to have no idea if you want to get pregnant or if it is just pressure of someone else’s expectations or because it’s just another form he can control you even more? Do you want to raise your children alone? Do you want to have no rights and support when deciding to make an abortion? Do you want to walk always in fear???? Do you really want to walk always in fear???

Do you want to be the one chosen to be raped because you are a woman in a group? Do you really want to be the favorite target of rape? And tortured? And killed? Do you want to get less money for the same job you do now? Do you want to have prostitution and pornography as the only “opportunity” for you? Would you rather being not here having this conversation because you couldn’t even be treated further like a woman as they killed you when your were born? Do you want to have been a victim of FMG? What does it mean for you to be treated like a woman? That somebody opens the f***ing door to relieve their consciousness? Or when someone acts nicely because he wants a “favor” in exchange?

And than they told me. You should explain yourself because you seem to be transphobic.

Should I really?

Shouldn’t you try listening to me? Shouldn’t you step back? Shouldn’t you stop telling us how we have to fight against the oppression that is inflicted to us and affects our entire lives in every level? Shouldn’t you better check your position? Shouldn’t you be telling other men what they should or shouldn’t do in order to stop women exploitation as you say you care?

I think you should.

aline rod.

Vítima ou Sobrevivente?

 

Somos todas vítimas do patriarcado porque é um sistema de opressão e exploração. Somos todas sobreviventes pelas mesmas razões.

Quando eu vejo as pessoas dizendo que as mulheres não devem “agir como vítimas” eu sinto duas coisas. Uma, que eu preferiria que as mulheres saíssem psicologicamente do estado de depressão. Porém não tem como não pensar que este estado de depressão é fruto de uma situação real que não foi inventada. A outra, é que eu não consigo deixar de pensar que quando alguém diz que as mulheres não devem “se fazer de vítimas” que existe por trás disso uma culpabilização das mulheres. Como se elas se sentissem vítimas sem o serem. O que não é possível.

Quando uma mulher é estuprada ela não está se vitimizando, ela está sendo vítima de um estuprador.

Quando uma mulher faz uma denúncia de estupro, ela não está se vitimizando ela está lutando contra a cultura do estupro, ela está alertando outras mulheres, ela está no seu processo de cura da qual só ela pode escolher como se sente – se uma vítima ou uma sobrevivente.

Quando uma mulher chora ao lembrar do abuso que sofreu ela não está se vitimizando. Ela está realmente?

Quando uma mulher não consegue reagir, ela não está se vitimizando! Ela está lutando pela sua sobrevivência.

Uma coisa é nós querermos promover força e resistência para nós mulheres, é querermos desenvolver uma elevação na nossa autoestima tão atacada a todo instante. Uma coisa é querermos promover um aumento na nossa moral, respirar em meio ao nosso abalo emocional. Mas outra coisa diferente é acharmos que só o termo sobrevivente é válido. O termo sobrevivente muitas vezes vem com o discurso do empoderamento. Porém o empoderamento em si é um conceito questionável, visto que se empoderar não é ter poder. Só se empodera quem não tem poder, quem tem poder não se empodera, mas exerce poder. Existe uma grande confusão quanto ao se sentir empoderada como se fosse uma solução. Mais uma das tantas falas do discurso liberal, mais voltado para a indivídua, o que ela toma como ‘empoderador’ independente de que faça uma mudança material na sua vida. Obviamente que a atitude que uma mulher exerce na sua vida traz mudanças materiais, o que estou querendo dizer é que nem sempre uma ‘atitude’ vai lhe garantir o tratamento que você merece. Se fosse assim, bastava a gente dizer que tal coisa nunca vai acontecer para esta coisa nunca acontecer, bastava estar com a atitude ‘certa’. É um discurso perigoso porque fala em termos de mérito e culpabiliza quem não é bem sucedida.

Eu não estou aqui ‘reivindicando’ o termo vítima como se eu achasse uma coisa maravilhosa alguma mulher se sentir vítima. To questionando o que tem me incomodado. E tem me incomodado faz tempo ver as pessoas substituírem a palavra vítima por sobrevivente como se fosse uma ordem, como se fosse uma falha se compreender como vítima. E principalmente para criticar uma mulher que se sente vítima depois de ter sido uma vítima. Por mais que seja melhor para ela ‘levantar a cabeça’, essa resolução não pode vir como uma regra que ela deve seguir. Além do que é bem possível que se autodenominar vítima ou sobrevivente seja parte de ciclos que podem se intercalarem, uma mulher bem pode se dizer vítima e sobrevivente dependendo do ponto de vista que ela enxergar.

Para ser bem sincera eu comecei a pensar sobre essa questão quando eu de cara pensei nas mulheres que não sobreviveram. Eu sempre penso nelas, eu sempre penso nas mulheres que não conseguiram, nas que foram assassinadas.

Se escolhemos dizer que não somos vítimas mas sobreviventes não estaríamos automaticamente chamando as mulheres mortas de as únicas vítimas e com isso lhes tirando ‘o poder’ do qual parece que só nós as sobreviventes teríamos? Não estaríamos com isso sendo meritocratas? Não estaríamos passando por cima dos túmulos dessas mulheres? Não estaríamos silenciando-as ainda mais? E isso por acaso não dá ainda mais poder ao assassino? Pois saibam que as mulheres morrem bravamente, que lutam pela sua sobrevivência, mesmo as que não a alcançam.

Eu totalmente entendo o valor de se sentir uma sobrevivente.

Mas os estupradores não estão violentando as mulheres para que elas se sintam empoderadas.

As vítimas sabem melhor do que ninguém que elas são também sobreviventes, mesmo que elas não usem o termo para si. Porque elas podem, se assim quiserem, te contar o que lhes aconteceu.

aline rod.

Certeza Inabalável

Nós mulheres estamos sobrevivendo desde que nascemos. São muitas herstórias que temos para contar, são muitos horrores pelos quais passamos mas ao contrário do que esperam, estamos aqui, lutando. Apesar de todas as tentativas de minarem com nossa autoestima, quando não com nossa vida, estamos aqui. E sabem porquê estamos aqui? Porque não temos outra escolha. Porque estamos aqui também pelas que não sobreviveram e pelas que virão. Nós sabemos o que queremos mas temos que constantemente descobrir e desbravar novos caminhos porque não nos deram nada mastigado, pelo contrário, escondem nossos feitos. Desde nossas antepassadas há lições que foram manipuladas para que não chegassem até nós. As tentativas de apagarem nossos conhecimentos e feitos são estratégias para impedir de sentirmos identificação, de nos reconhecermos como classe, isolando cada uma de nós, nos afastando umas das outras. Concomitantemente, a competição entre mulheres é motivada para que o isolamento seja ainda mais efetivo e para que seja desviada da nossa atenção o que realmente nos oprime, mantendo o caminho livre para mais exploração. São tentativas para impedir de nos organizarmos, sempre nos mantendo neste ciclo de voltar um passo atrás do que já foi previamente alcançado. Quando o conhecimento é destruído ou manipulado, nós mulheres temos que recomeçar de onde este foi “parado”. Vários desses “novos” caminhos que desbravamos já foram trilhados por outras mulheres anteriormente. Por isso é muito importante que nossos conhecimentos e descobertas sejam devidamente valorizados e repassados.

A exploração também vai se transformando e sim, também temos que lidar com novas formas de opressão. E por isso também qualquer mulher está sempre lidando com sobreviver a algo profundamente solidificado por ser antigo e estabelecido, e com sobreviver a um golpe novo, que requer urgência de atenção para que consigamos responder para evitarmos que o estrago seja ainda maior.

Enquanto estamos resistindo e lutando, existem forças contrárias bem mais institucionalizadas, que detêm poder. O que significa duplicar, triplicar nossos esforços para nos mantermos respirando e para construirmos uma realidade menos inóspita para nós e para as que estão por vir.

Por isso dizemos que toda mulher é uma sobrevivente. É contra toda essa guerra não declarada mas bem estabelecida que temos que nos sustentar psicológica, física e materialmente.

Nossa luta só pode ser feita por nós mesmas, ninguém nos libertará e ninguém além de nós pode realmente se sentir no direito para dizer como devemos agir. Sabemos bem que as tentativas de nos colocarem constantemente em cheque são parte do esquema para nos manterem colonizadas, para que a subjugação se mantenha naturalizada. Como se não tivéssemos saída. Pois a nossa saída é a libertação. E quando percebemos isso nossa certeza é inabalável. A certeza de que nossa libertação é a nossa única saída é uma certeza inabalável.

E isso é temido, e por isso nossa realidade é seguir sobrevivendo em meio a subjugação manifestada

em formas ardis com seus subterfúgios e nas mais brutais e explícitas.

As tentativas de moldar o feminismo para que acate as necessidades de outros grupos compõe de estratégia egoísta e é uma das mais efetivas para dissiparem nossos esforços. E também para nos dividirem.Uma coisa é solidariedade, outra coisa é exigirem que modifiquemos princípios e mecanismos de luta vitais para nós. E que conquistas quase alcançadas sejam revertidas ao ponto de nos colocar na estaca zero. É como se nós mulheres sempre pudéssemos ser um pouco mais exploradas, um pouco mais desprezadas, como se já não o fôssemos o bastante. Sabendo que nós mulheres fomos educadas a nutrir, não apenas esperam, mas exigem que passemos a encaixar na nossa luta necessidades que não são nossas sob ameaça de sermos ainda mais ostracizadas e recusadas. Mas nós aprendemos desde cedo a sermos recusadas, a termos o acesso negado. Sabemos lidar com o “nos ser negado”, pois nos ensinam logo no início sobre o que não é de nosso direito. Nos ensinam quais lugares podemos ir e quais não poderemos, quais comportamentos teremos que ter e quais seremos castigadas ou marginalizadas se os tivermos. Por isso, por termos sido acostumadas com imposição de limites específicos a nós, é que desenvolvemos determinadas habilidades, um tipo de inteligência desenvolvida para sobreviver.

O Feminismo é nossa luta preciosa, necessária e por sobrevivência. A Libertação é o nosso objetivo. Para todas.

Aline rod.

08 de março 2016

Nota Pública sobre a violência policial ocorrida durante a 1a Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre

Somos um coletivo de pessoas que se formou através de afetos, amizades, afinidades e momentos e vivências antes, durante e depois da I Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre (I FLIFEA POA). A feira tinha como seu principal objetivo a troca de materiais, de vivências e de experiências que pudessem debater coletivamente a respeito dos feminismos e da autonomia das mulheres frente às instituições e em relação a seus corpos. Esse objetivo estava se concretizando ao longo de dois dias de atividades, nos quais nos fortalecemos entre todas, conversamos, aprendemos, rimos e novas ideias puderam surgir a partir do encontro. Até que, juntas, muitas de nós sofreram a violência policial da noite de primeiro de novembro de 2015. Entre as agredidas estavam presentes algumas das que compunham a organização da FLIFEA, mas não só. A partir dos últimos acontecimentos vivemos uma nova forma de autogestão da experiência compartilhada onde “a organização da feira” se dissolve na nova coletividade que escreve este texto, composta por aquelas que foram diretamente afetadas pela repressão vivida na noite de domingo.

Dito isso, nos manifestamos através desta nota pública no blog da I FLIFEA POA, da maneira combinada entre nós como única manifestação pública do grupo mencionado acima. De acordo com isso, nenhuma de nós concedeu e nem concederá entrevista a qualquer veículo de comunicação e, embora estejamos recebendo assistência jurídica de advogadas feministas de maneira voluntária, elas também não nos representam frente à mídia. Também é importante apontar que não organizamos ou marchamos sozinhas no ato do dia dois de novembro de 2015, mas contamos com o apoio espontâneo de muitas pessoas que se sensibilizaram com nossa situação, e não tivemos relação alguma com o ato do dia seguinte, dia três de novembro de 2015. Nos fortalece muito e agradecemos o apoio das pessoas e organizações que estão se mobilizando autonomamente em relação ao ocorrido e nos comove a grande rede de solidariedade criada; no entanto, nos parece importante estabelecer que essa rede extrapola nossa dimensão organizativa e, portanto, não é possível nos responsabilizar pela totalidade dos eventos disparados pelo episódio. A quem resiste em solidariedade conosco, pedimos cuidado para não falarem em nosso nome, e, ainda, pedimos o respeito para não fazer o uso desse fato para apropriação em relação a agendas políticas partidárias, tampouco individuais.

Entendemos que a situação de agressão policial pela qual passamos se insere num contexto social de mobilização frente aos retrocessos que têm acontecido nas políticas para mulheres e ao crescimento do conservadorismo patriarcal no debate público sobre os direitos já conquistados e ainda por conquistar por mulheres e outros grupos minoritários. Tanto nos debates de políticas institucionais, quanto nos espaços de formação de opinião como redes sociais, diversas pautas feministas estão sendo mobilizadas neste momento, como os assédios cotidianos que vivemos desde a infância , nossa autonomia para decidir sobre nossos corpos, a violência vivida em espaços domésticos e a possibilidade de que as mulheres falem por si mesmas. Ao mesmo tempo, percebemos que a repressão que vivemos no último domingo gera comoção por diferentes motivos, que queremos apontar. Primeiro, a brutal violência por parte de policiais, homens, exercida contra mulheres, fazendo uso abusivo de autoridade através de aparatos de força (cacetetes foram usados e armas foram apontadas contra nossos corpos desarmados), evidencia a lógica militarizada e misógina que pauta a atuação dessa corporação. O ocorrido conosco também contribuiu para o reconhecimento das violências cotidianas que as mulheres sofrem, mobilizando aquelas pessoas que já trabalham para combater as causas dessas violências, e também sensibilizando aquelas que vivem ou já viveram essa realidade em suas vidas. Finalmente, consideramos que também foi notável o fato de estarmos nos propondo a construir um debate sobre feminismos num evento cultural no qual nossa arma era a construção de ideias políticas e de cumplicidade, e desse processo ter sido brutalmente atropeladas pela agressão policial.

Porém, queremos frisar questões importantes que contribuíram para a comoção que este fato gerou. Percebemos que isto se deu principalmente pela agressão ter ocorrido em um bairro central da cidade, com mulheres majoritariamente brancas, militantes feministas, muitas delas universitárias. Esses marcadores da nossa posição social foram o que tornou possível que uma agressão policial tenha se tornado um fato político desta dimensão e reflete o privilégio que temos em relação a tantos outros casos invisibilizados pela mídia, como a luta daquelas que se mobilizam contra a violência policial no país (pessoas negras,transperiféricascamponesasindígenasem situação de ruaem situacão de prostituicão.) Por isso, temos a responsabilidade de lembrar que enquanto esse é, para muitas de nós,um fato eventual em nossas vidas, para muitas outras, faz parte de um cotidiano marcado pela violência policial – entre tantas outras -, nas quais as ameaças de morte são de fato cumpridas. Sabemos que isso acontece porque, em nossa sociedade, há uma valorização diferenciada das vidas e da dignidade das pessoas, na qual existem vidas que valem mais que outras, vidas que merecem ser vividas,enquanto outras são lidas como descartáveis, principalmente pelo Estado que se utiliza de seu braço armado para agir de maneira violenta de diversas formas. Esse comportamento policial que acontece cotidianamente em contextos periféricos que promove o genocídio da população negra pôde ser observado durante o ocorrido na noite de domingo, uma vez que foi evidente que o alvo escolhido para a primeira investida física foi uma das poucas mulheres negras que estavam presentes naquele momento, confirmando as práticas e o caráter racista da instituição.

A repercussão da violência policial que sofremos nos afetou de diversas formas. Temos nos sentido coagidas a proceder de uma maneira específica dentro do sistema legal para comprovar a legitimidade de nosso relato publicamente. Vemos alguns procedimentos legais dentro disso como violentos para nós, mas também entendemos a necessidade de fazer o uso desses canais de denúncia, mesmo sabendo das suas limitações. Reivindicamos, outra vez, que sejam respeitadas nossa temporalidade e nossa liberdade de decidir como conduziremos a situação. Queremos pontuar, no entanto, que o que torna um fato publicamente legítimo não precisam ser apenas os procederes da lei que o Estado proporciona (e que muitas vezes vulnerabiliza e expõe as vítimas mais do que as protege) mas também a força do nosso relato, das marcas que reconhecemos nos corpos umas das outras e na nossa capacidade de articulação com uma extensa rede de solidariedade que nos tem prestado tanto apoio. Aquelas que vivem essas violências no seu cotidiano sabem da veracidade dos fatos, sabem o quanto fotos de machucados não ilustram suficientemente o que significa sofrer essas violências em todos os espaços, que é, afinal o assunto do qual queríamos tratar na intervenção teatral no dia de finadas, que estava sendo ensaiada naquela praça, quando os policiais chegaram. Essa intervenção tinha, inclusive, o propósito de denunciar e visibilizar o assassinato sistemático e constante de mulheres que ocorre pelas mãos dos homens – feminicídio -, tanto no âmbito doméstico-familiar quanto institucional, estatal e militar.
A discussão desse conceito – feminicídio – é muito recente e é resultado do exaustivo trabalho de denúncia de mulheres que se esforçam para evidenciar essa violência que costuma ser mascarada. No entanto, negamos a instituição do Estado e suas leis como a única fonte legitimadora dos fatos. Acreditamos que a construção da legitimidade pode se dar a partir de outros consensos éticos baseados na identificação mútua e em vivências compartilhadas por pessoas.

Informamos ainda que não daremos satisfação sobre as nossas movimentações no âmbito jurídico/institucional. Lembramos que mesmo juridicamente esse caso extrapola a nossa ação individual, e que outras instâncias podem se mobilizar para denunciar aspectos da (in)justiça independentemente da nossa vontade. Ainda, em relação à imprensa e à mídia, negamos a urgência de nos agendar de acordo com uma temporalidade imposta por redes sociais e outros meios de comunicação. Não podemos atropelar processos internos para atender a demandas externas, temos responsabilidades umas com as outras e, especialmente, de maneira alguma nos deixaremos pautar por uma mídia oportunista e tendenciosa. A demora para que apresentássemos informações foi argumento para o questionamento da veracidade de nosso relato. Reconhecemos essa como uma maneira de manipular fatos e indivíduos dentro de uma lógica alienante e um ritmo desumanizador de um modo de vida viciado no imediatismo. Não é essa a vida que queremos compartilhar umas com as outras e isso não nos será imposto. Essa suposta demora em responder a esses pedidos está diretamente relacionada com a necessidade que temos de nos ouvir e nos acolher nesse momento em que nos encontramos machucadas frente a situação real de agressão que passamos. Acreditamos ser cruel esse tempo midiático que transforma as feridas das pessoas em produto e audiência, e assim as violenta novamente. Estamos principalmente mobilizadas a dar um desfecho que não percorra esses caminhos e nos organizando horizontalmente de maneira a consolidar este fato como político para de fato transformar as feridas em luta.

Somos autônomas e nos organizamos a partir de práticas libertárias. Sabemos que práticas que questionam as instituições e o estado foram e são historicamente perseguidas. Por conta disso, receamos que o que aconteceu possa ter sido parte de ações politicamente motivadas por um discurso de ódio e não apenas a decorrência de uma abordagem que sucedeu mal. Frente a isso, esperamos que as expressões de solidariedade que tanto têm nos ajudado até agora se mantenham.

Precisamos, também, lembrar que desde antes mesmo da data da Feira, nossas medidas de segurança foram violadas com a criação do evento da Feira do Livro Feminista e Autônoma no facebook pela página Porto Alegre Cultura, que mesmo tendo sido avisada de que não queríamos expôr a Feira e as mulheres envolvidas na FLIFEA nesta rede, ignorou nossos protestos. Consideramos que o criador dessa página tem responsabilidade pelas ameaças que recebemos durante a Feira e pela agressão policial e, portanto, tem nosso sangue nas mãos. Fomos excessivamente expostas por esse evento contra a nossa vontade que possui quase 6 mil pessoas confirmadas e mais de 11 mil convidadas.

Por fim, agradecemos a todas que vieram prestar solidariedade nesse momento, independentemente de seu alinhamento político. O espaço da I FLIFEA POA se consolidou como um momento de rompimento com as lógicas de segregação e afastamento entre feminismos que estavam sendo vivenciadas em nossa cidade. O momento que estamos passando reforça essa ruptura; temos confiado e vivenciado o acolhimento umas das outras, nos fortalecendo tanto em nossas relações pessoais quanto políticas.
Valorizamos o engajamento daquelas que optam por lutar a partir de diferentes frentes e todas aquelas que se rebelam para não serem esmagadas por esse sistema que oprime iniciativas e (r)existências em liberdade e auto organização. Um conjunto de estratégias é mais eficiente do que qualquer uma delas isoladamente. Sabemos muito bem o que nos move.

Agradecemos àquelas mais experientes nas suas caminhadas de luta e resistência pelo apoio que vieram demonstrar. Mulheres que compartilham seus conhecimentos e saberes e possibilitam que partamos de um acúmulo para que cada geração de mulheres não precise começar do zero a cada batalha travada nessa guerra constante contra todas nós. Máximo respeito às velhas bruxas que vieram nos cuidar.

Seguiremos nas ruas fazendo arte, okupando os espaços, comunicando nossas posições e dando continuidade à luta, porque a nossa força de golpe é da mesma intensidade daquilo que vivemos. Bruxas resistem!

 

fonte:http://flifeapoa.noblogs.org/post/2015/11/06/nota-publica-sobre-a-violencia-policial-ocorrida-durante-a-1a-feira-do-livro-feminista-e-autonoma-de-porto-alegre/

 

Dia Internacional da Mulher – Relato sobre as demos de Potsdam e Berlim

No momento me encontro em Berlim. Aqui tenho articulado com grupos feministas e pude participar de duas demos que aconteceram final de semana passado pelo Dia Internacional da Mulher. Sábado aconteceu a demonstração e protesto organizada por Women in Exile & Friends na cidade de Potsdam que juntou mais de 200 mulheres. Caminhamos pela cidade com nossas faixas e cartazes, gritando frases contra o patriarcado e as fronteiras.

Domingo, no dia 8 de março marchamos também em protesto pelas ruas de Berlim. As mulheres da comunidade Curda estiveram em peso na marcha da qual organizaram juntamente com outros grupos feministas como o grupo International Women Space, e outros grupos de esquerda. Ao mesmo tempo acontecia outra marcha em Berlim organizada por outros grupos feministas. Ambas marchas finalizaram no Brandeburgertor (Portão de Brandenburgo) num total de 8 mil pessoas. Havia um palco montado onde algumas mulheres fizeram suas falas e também bandas compostas por mulheres  tocaram.

Aqui, não diferente do Brasil, também existem homens querendo protagonizar as marchas feministas. No início da marcha em Berlim, as Curdas falaram no microfone para que os homens presentes ficassem na parte de trás da marcha. Vários homens ignoraram este pedido, seja por não terem ouvido ou não terem “entendido” ou por não acharem relevante e propositalmente desafiarem isso. Mais de uma vez varias de nós íamos dizendo para eles irem para trás. Mas o espaço era público e com uma concentração muito grande de pessoas com várias delas se somando no meio do caminho o que tornou mais difícil. Felizmente nós mulheres eramos em número muito maior e nossas vozes e presença se sobressaíram.

As duas demos ( Potsdam e Berlim) foram organizadas por grupos feministas que têm ênfase nos direitos das mulheres imigrantes e refugiadas. Estes grupos lutam contra o racismo, a discriminação, a deportação e denunciam o tratamento dado pelo governo alemão. Uma das exigências destes grupos é abolir os “lagers” (campos de isolamento) como são chamados por ativistas os prédios  aonde as refugiadas e refugiados são obrigados a ficar. O nome utilizado pelo estado alemão é Asylheim (casas de asilo). Porém as pessoas que estão pedindo asilo são colocadas em espaços muito pequenos, tem seus direitos básicos negados, estão sempre sobre risco de serem deportadas, e são marginalizadas ao serem obrigadas a ficarem em áreas restritas e distantes dos centros lhes deixando mais vulneráveis a ataques racistas.

Estes grupos feministas de refugiadas e imigrantes fazem um trabalho para garantirem espaços seguros para as mulheres e trabalham com questões específicas que as mulheres enfrentam.

Não posso deixar de frisar a frente que as mulheres Curdas fizeram na demonstração com seus dizeres, com suas mãos erguidas, com sua música que todas cantavam bem alto. Desta maneira contribuíram para que a demonstração fosse bastante forte e emocionante de forma bastante impressionante.

Eu me sinto muito feliz por ter podido participar das marchas e por estar tendo a oportunidade de articular com as mulheres que encontro aqui de diferentes partes do mundo. Os grupos feministas, as mulheres e as nossas exigências formam uma rede de solidariedade e ações por uma luta em comum: a luta contra a opressão do patriarcado que nos ataca diretamente. A forma como somos atingidas pela opressão quando decorrente de virmos de locais diferentes (muitas formas são exatamente iguais) não nos afasta se respeitarmos nossas diferentes circunstâncias, e nos une ao nos reconhecermos  como classe explorada por vivermos em sociedades misóginas.

13.03.2015

Marcha em Berlim

Marcha em Potsdam

 

 

 

informação adicional sobre o dia: a demo feminista na cidade de Nuremberg foi atacada por neonazis que jogaram objetos e spray de pimenta nas pessoas que estavam na marcha. Algumas pessoas tiveram ferimentos leves.