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Chegamos no Dia Internacional da Mulher

Chegamos no Dia Internacional da Mulher
sem que saibam o que é ser uma
sem que saibam de onde vem nossa opressão
outros protagonistas mais uma presunção
chegamos no dia internacional da mulher
e não querem saber como chegamos aqui
nem como sobreviveram nossas antepassadas
terem nos gerado é irrelevância
melhor quando esquecidas na sua insignificância
chegamos no dia internacional da mulher
o que fizeram não pode ser lembrado
e antes que o conhecimento seja repassado
deem um jeito dele junto ao corpo ficar soterrado
chegamos no dia internacional da mulher
nosso engenho é renegado
nosso sangue é derramado
nosso útero é desprezado
mas tem valor para ser alugado
chegamos no dia internacional da mulher
e ser mulher é uma roupa
ou fetiche
uma sensação matinal
que pode mudar no meio da tarde
ao estender uma roupa de baixo no varal
chegamos no dia internacional da mulher
e nosso corpo é tabu
é “biologia terf”
é biomedicina
é experimento
é xyz com vitamina
chegamos no dia internacional da mulher
e eles são comemorados
e o homem neste dia é situado
para garantir que ele sempre seja o primeiro colocado
chegamos no dia internacional da mulher
e nosso futuro é incerto
nossa esperança é abalada
mas quem se importa com gente desatualizada
chegamos no dia internacional da mulher
e a mais antiga opressão chamam de profissão
é capital é diversão
o poder tá na mão
o prazer está na exploração
chegamos no dia internacional da mulher
ela tá tentando escapar mas ninguém a nota
a quem interessa afinal
é só mais uma mulher morta
chegamos no dia internacional da mulher
o dia da arca de noé não esqueçam
é dia de salvar todas espécies que apareçam
porque afinal hoje é o dia de quem quiser

 

aline rod

Sua Diversão Minha Opressão

Quando eu era criança na época de carnaval eu lembro que uma das grandes “atrações” que as pessoas comentavam, era ficar vendo homens “vestidos de mulher”. Isso era para ser uma coisa pra lá de engraçada, quanto mais “extremo” na feminilidade mais engraçado era para ser. Me lembro que era enfatizado que eles faziam isso só no carnaval, havia esta necessidade de proteger a masculinidade com unhas e dentes. Porém eles não eram obrigados àquilo, era apenas uma grande diversão. Eu não entendia o porquê da graça e achava aquilo desconexo e dependendo assustador – eles usavam balões de ar no peito e maquiagem ultra carregada como coisas ridicularizantes, além dos hipersexualizantes apetrechos. Depois eu entendi que era para ser engraçado porque é fruto da misoginia, a própria homofobia implicada nisso é fruto da misoginia, pois significa a inferiorização do homem ao se “vestir como mulher”, sendo esta a graça. Nos dias de carnaval os homens para fazerem folia se fantasiam com os símbolos da nossa opressão.

Por que são símbolos da nossa opressão?

Ninguém nasce com um top rosa na cabeça e nem tem isso em mente como objetivo para quando estiver engatinhando, nenhuma bebê nasce pedindo ‘coloquem-me um brinco na orelha por favor’. Estes são costumes criados pela noção de gênero da qual faz parte o processo de feminilização imposto a nós mulheres, que começa assim que nascemos e perdura ao longo de nossas vidas. Sim, a feminilização é um processo artificial que não se caracteriza apenas por vestimentas, faz parte de uma perversa e intrincada estrutura que explora as mulheres, seu trabalho e seu corpo.

O gênero, essa “coisa mara” da qual as pessoas confundem com o sexo biológico, é um sistema que existe não para diferenciar inofensivamente homens de mulheres como parte de uma cultura supostamente igualitária. O gênero serve ao patriarcado como uma forma de manter as mulheres na classe subordinada enquanto protege os homens de serem tratados da mesma forma.

Agora, para os homens se “fantasiarem de mulher” é apenas uma diversão, não são obrigados a passar pelo processo de feminilização. É certo que os homens são criados no processo de masculinização, porém a masculinização é pertencente a classe de pessoas com privilégios garantidos. Se sentir desconfortável com o processo de masculinização não exclui os homens da classe dominante, verdade é que não tira as garantias que têm de melhor tratamento, melhores salários, e maior proteção a sua integridade física e psicológica em relação as realidades vividas por mulheres por serem mulheres.

O Carnaval tá aí, e com ele sempre vem esta prática dos homens usarem como fantasia roupas “de mulher”, algo que só faz sentido numa sociedade sexista e generista, que permite que se considere engraçado brincar exatamente com aquilo que objetifica e explora ao mesmo tempo que restringe e limita todo um grupo de pessoas. Poderia se pensar então, que esta prática seria uma forma de se subverter a estas convenções, porém nunca vai ser subversivo colocar uma vestimenta atribuída a uma classe subjugada enquanto se é livre das consequências de se pertencer a ela. Isso sempre vai ser uma prática colonizadora, principalmente quando o objetivo é de fazer graça, piada ou ser pitoresco.

Eu sei que textos assim causam desconforto, as pessoas pensam “por que levar tão a sério” ou “é só uma brincadeira”. É muito provável que você não vai ver nenhuma mulher entrando em briga na rua exigindo que os homens tirem suas fantasias (se o que lhes preocupa é o fato de poderem pular tranquilos o seu carnaval). Sempre me impressiona a fragilidade e a injustiça atrelada a esse tipo de preocupação. Nós mulheres lidamos todos os dias com a nossa opressão que se fantasia de diversas formas e também não se fantasia, nós respiramos nossa opressão, sentimos ela em todos os aspectos, e isso nos causa muito mais que um mero desconforto. Aprendam a lidar com a realidade como ela é, aprendam a lidar quando as mulheres reagem, quando denunciam, quando ameaçam a estrutura percebida como natural, porque ela não é natural. E quando ruir esta estrutura o que era desconforto vai se tornar o óbvio, e as pessoas vão lembrar ‘daquelas mulheres’ como heroínas e vão pagar para ver o filme sobre elas no cinema e sonhar em terem sido uma delas.

 

aline rod.

Nova fornada de zines!

Recentemente fiz três zines, um sobre textos/pensamentos aleatórios onde alguns já foram publicados na internet e outros não; outro com dois textos sobre gênero já publicados aqui (post 1; post 2) e o terceiro uma tradução que fiz do texto da Claire (Sister Outrider) que também já foi publicado aqui.

fico muito feliz sempre que “materializo” os textos e posso folhá-los. 🙂

a foto é da finalização da confecção

A Linguagem Misógina do Discurso Liberal e o Apagamento da Realidade das Mulheres

“Bio chicas” é um dos termos mais ofensivos e desrespeitosos que já ouvi ser usado para se referir a meninas. Ouvi este num debate sobre “desconstrução de gênero”. Engraçado, que esta abordagem de desconstrução nada mais é que apagar a opressão e exploração que nós mulheres sofremos desde que nascemos. Engraçado que esta tal desconstrução tem o objetivo de negar que a opressão e a exploração das mulheres são baseadas no sexo. O gênero é uma construção social, determinada pelo sexo, ou alguém acredita que é tirado unidunitê a cada pessoa que nasce e que se escolhe por acidente qual gênero esta pessoa vai ter? O gênero é determinado pelo sexo e vai determinar o tipo de tratamento que uma pessoa vai receber. As mulheres vão fazer parte da classe subordinada e os homens farão parte da classe dominante, e isso significa que as mulheres terão seus corpos controlados pelo estado e suas leis – por exemplo a criminalização do aborto – sendo as mulheres punidas por tal crime, correndo risco de vida em aborto clandestino, ou ainda obrigadas a manter a gravidez contra a sua vontade independente das condições que se encontram.
Este tratamento determinado pelo sexo também significa que as mulheres serão vistas como propriedade dos homens de tal forma que a violência perpetrada pelos homens contra as mulheres se dará tanto por homens próximos como por estranhos, fazendo parte da guerra não declarada contra as mulheres, o que por sua vez significa todos tipos de violência incluindo tirar suas vidas – o feminicídio.
Esse tratamento igualmente significa que as oportunidades na vida serão distintas desde a infância, sendo a autoestima e a autoconfiança de uma menina completamente atacadas desde muito cedo enquanto as dos meninos comumente estimuladas e insufladas. Isso significa que os corpos dessas meninas serão objetificados e hipersexualizados desde pequenas. Isso significa que meninas e mulheres fazem parte da classe que sofre de forma incontestavelmente maior com abuso e violência sexual.
Isso significa ainda, que estas oportunidades continuarão sendo distintas e que as mulheres irão receber salários menores pelos mesmos serviços prestados, ou serão “naturalmente direcionadas” a profissões menos valorizadas. Isso significa que a prostituição será uma “oferta” incomparavelmente mais presente para mulheres e meninas. Isso significa que as mulheres serão as protagonistas da tortura sofrida na pornografia que vende o estupro e a violência contra a mulher como entretenimento e diversão. E isso por sua vez significa manter a cultura do estupro.

Simplesmente não querem se referir as meninas como meninas porque isso estaria excluindo “meninas não bio”, considerando o sentimento destas mais importante e relevante do que as consequências materiais da opressão baseada no sexo que se seguirá por toda a vida de uma menina. Infelizmente a esquerda foi cooptada pelo liberalismo e não percebeu, e estamos vendo uma onda de políticas identitárias substituindo o feminismo e o tratando como ultrapassado. Não só negando o feminismo, mas distorcendo e moldando a luta das mulheres para que atenda as necessidades de outros grupos – porque as mulheres nunca serão prioridade. Sabemos muito bem que pertencemos a segunda classe no patriarcado, somos tratadas desde que nascemos assim, sabemos que a misoginia é tão verdadeira e poderosa que o backlash* sempre vai acontecer de uma forma nova e revestida.

Agora temos que lidar com o discurso do “subversivo” que nada mais é do que estar disfarçado nesta categoria, porém mantém a mesma ordem de que nós mulheres sejamos exploradas e que temos que acatar isso caladas. O discurso do subversivo ataca erroneamente as feministas chamando-as de conservadoras para ganhar a discussão. Argumento desonesto e sem absolutamente um mínimo de entendimento do que significa a luta feminista e o que significa a importância de garantir que não sejamos silenciadas.

O discurso liberal tá se encarregando de criar, “em nome da diversidade”, vários termos que apagam as realidades de nós mulheres, nos sufocando com o intuito de extinguirem nossa resistência. Porém isso nunca vai acontecer. Enquanto houverem mulheres nesse mundo haverá luta. Enquanto formos exploradas e oprimidas sempre haverão mulheres priorizando sua sobrevivência.

aline rod.

*backlash no contexto feminista é o contra-ataque ou reação negativa ao feminismo.

Uma Visão Sobre a Política Queer – em inglês

A Point About Genderqueer Politics

When I first started playing and writing lyrics it was because I had all this idea of getting out from my chest the oppression of patriarchy. Of course I loved music, it was not only gloom. But I thought that all the pain could be transformed into something ‘useful’. Events that I had been passed through affected my life in a way that to scream and say were a way of surviving.

I wanted to fight sexism and misogyny and I thought that in the punk scene I would find a place of support and identification.

Some feminists who are not punks say that I should leave it. But I don’t want to leave it. At least not yet. I just don’t want to stop doing something that means to me, that it’s part of my life (playing and writing) just because people involved also reproduce sexism. In every place, every job, every school, every community, every kind of entertainment, you will always find sexism and misogyny. We can’t just stop living, and leaving spaces in order to make room for others, to make them feel comfortable without our presence, without our fight.

I have been passed through many situations in and out of the punk scene that makes me keep struggling. But I don’t want to talk about that now.

I just want to point that to fight sexism and misogyny in the punk scene is restless, just like it is in our daily basis. I have always been in the brink of war. In the war. For all the reasons – discrimination, jokes, abuse, fear, threat. For some time now something “new” happened. Not to ease our fight, not to be by our side. But to add more effort to our fight. It is the genderqueer views of feminism.

One of these days, a gender fluid man told me that he doesn’t believe in “biological stuff”. I asked what do you mean by that? He said, I for myself like to wear women’s clothes. That could be fine for me (could be) because first I “don’t believe” in “women’s clothes”, isn’t that a convention? I asked why was that, and what it has to do with “biological stuff”? He answered that sentence I was sensing it was coming up: “because I feel like a woman” but he added “sometimes”. Than I just made a simple question: yeah, and how does it feel to “feel like” a woman, please tell me because I actually wasn’t born with that feeling, you know, I was forced to be a woman”. It’s pretty senseless and a very shallow view to say that “you don’t believe in “biological stuff” and say that there is such a thing as “feeling like a woman”. This is as inconsistent as it can get. Like you are saying that there is a feminine brain? Isn’t that biological? Make your decision please to believe or not in “biological stuff”. Are you saying you don’t like gender roles but believe you are in the “feminine side” because you like lipsticks and skirts? Do you actually believe that being a woman means a certain costume to wear? Or even to be feminine? Don’t you really know that we are groomed to be feminine, there is nothing natural on that. And “natural” isn’t biological?

What I see is men thinking they are subverting a convention when in fact they are stressing the gender stereotypes when they say “I like skirts that must make me a woman”. Or all the other stuff we have been listening like “I always liked dolls”, “I was always very sensitive” and so on.

I know that convention exists and the need of people to be part of conventions. I know people have dysphoria. But that is another thing. Even so, we should question why people feel so bad in their bodies, and try to find the roots of their deep discomfort. And it’s not them who should be questioned, but society.

But I also can tell that in the punk scene, and also in the anarchist scene, when you ask directly to these men, are you a woman? They never answer yes. The majority of them say, I’m nonbinary. It’s like they themselves don’t even believe in what they are saying. It’s also a very good strategy to have a possibility to change your mind when it’s convenient. When the time of convenience comes.

And than he and another friend started asking me a lot of questions in a very male socialized way of asking. Very aggressive, very putting me against the wall. I felt more than pressured. I felt what men eventually make us feel: I felt hurt.

They were two men, none of them were reclaiming they were women just for the record. So they were telling me now how I should think and feel. How my feminism “is wrong” and how it “should be”, that I should “respect” people’s choices when they want to be treated like a woman (one of them told me that). First. “people” here means “men” right? Second. You really want to be treated like a woman? Do you want to see your brother have more respect even if you are the elder one since forever? So the hierarchy of age here it was suddenly forgotten. Do you want to be seen as object for your classmates and feel very uncomfortable when they touch you? When your best friend’s father touches you and you are not able to understand what have happened but you sense you have to be in silence, because although you know nothing about it you know for some reason it will be considered your fault? Do you want to go to the gynecologist when you are a teenager and the male doctor abuses you, because “why are you in his office in the first place?” Do you want to keep being abused for male doctors along your life? Do you want to be abused for many men because it’s ok to have sex, and it’s subversive, and they just keep hurting your feelings? Do you want to see your self esteem drowning because you were supposed to be thin, or to have the right curves? Do you want to be forced to get pregnant? I’ll ask again: Do you want to be forced to get pregnant? And forced to get pregnant again? Do you want to have no idea if you want to get pregnant or if it is just pressure of someone else’s expectations or because it’s just another form he can control you even more? Do you want to raise your children alone? Do you want to have no rights and support when deciding to make an abortion? Do you want to walk always in fear???? Do you really want to walk always in fear???

Do you want to be the one chosen to be raped because you are a woman in a group? Do you really want to be the favorite target of rape? And tortured? And killed? Do you want to get less money for the same job you do now? Do you want to have prostitution and pornography as the only “opportunity” for you? Would you rather being not here having this conversation because you couldn’t even be treated further like a woman as they killed you when your were born? Do you want to have been a victim of FMG? What does it mean for you to be treated like a woman? That somebody opens the f***ing door to relieve their consciousness? Or when someone acts nicely because he wants a “favor” in exchange?

And than they told me. You should explain yourself because you seem to be transphobic.

Should I really?

Shouldn’t you try listening to me? Shouldn’t you step back? Shouldn’t you stop telling us how we have to fight against the oppression that is inflicted to us and affects our entire lives in every level? Shouldn’t you better check your position? Shouldn’t you be telling other men what they should or shouldn’t do in order to stop women exploitation as you say you care?

I think you should.

aline rod.