Mulheres são parte da piada para a banda francesa ‘Attentat Fanfare!’

No dia 12 de janeiro passado, eu vi o show da banda francesa Atenttat Fanfare, no VL na cidade de Halle na Alemanha. O VL é uma hausprojekt, uma casa onde acontecem gigs, oficinas, encontros de grupos de esquerda e também é uma comunidade onde moram várias pessoas. Em seus princípios estão o anti racismo, o anti sexismo, a anti homofobia e a luta contra o anti semitismo.

Eu não fui propriamente para o show, mas estava na casa e acabei ficando. A banda subiu no palco. Os integrantes estavam todos fantasiados, exceto pela mulher que toca acordeon. O vocalista estava de pijamas e pantufas, e os outros integrantes vestiam outras fantasias ou acessórios ‘engraçados’. um deles estava ‘fantasiado’ de mulher. Não pude deixar de pensar que a piada era muito ruim.

Os homens sempre acham uma grande sacada se vestirem de mulher para serem engraçados e debochados. É misógino querer fazer graça com vestimentas associadas às mulheres. Enquanto para os homens pode ser uma brincadeira usar salto alto, maquiagem, etc, para a mulher é como o patriarcado nos força à feminilidade e estabelece como padrões de beleza que nos oprimem.

Apesar de eu ter críticas a esta e outras características da banda não foram estas as razões para eu escrever.

Faço aqui um relato do que se sucedeu durante o show.

No meio do show entre uma música e outra, o vocalista parou para anunciar a próxima música e começou dizendo: “eu estive no Rio no Brasil e lá as mulheres tem grandes ‘tetas’ e bundas incríveis.” E juntamente gesticulava desenhando seios e bundas grandes no ar com as mãos enquanto arregalava os olhos. Eu realmente não acreditei no ponto que chegara. Já estava bastante intragável aquela banda, mas este foi o dado mais concreto e sem nenhuma sombra de dúvida do que estava acontecendo ali. Esta frase só tem a seguinte leitura: misoginia e racismo. Falar das mulheres daquele jeito. Se referir daquela forma às mulheres brasileiras, de um país que muito provavelmente ele nunca tenha pisado, mas que se pisou também não melhora em nada.

Com esta atitude, ele mostrou sem nenhum constrangimento o seu privilégio como homem e como europeu. Ele achou muito engraçado utilizar do estereótipo que se têm – e que também se vende – da mulher brasileira. Ele não está nem aí para o que isso representa. O quanto as mulheres no Brasil são exploradas por exemplo pelo turismo sexual, que seus compatriotas, outros europeus e homens de outros países mais ricos fazem.

Ele simplesmente não sofre com a objetificação do seu corpo, ao contrário de nós mulheres que temos nossos corpos controlados pelo patriarcado e suas leis, onde nossos corpos são objetificados e vendidos em rótulos de cerveja, objetificados e violados inclusive por homens que confiamos. Onde os padrões de beleza nos oprimem e levam muitas mulheres a uma busca incansável e infrutífera pelo corpo perfeito do qual o capitalismo (além do patriarcado) se alimenta. Padrões estes que levam às mulheres, incluindo meninas muito novas, a depressão, anorexia, bulimia e outros transtornos que por si só já são muito sérios, mas que ainda podem levar à morte. Ele se coloca do degrau da misoginia, do privilégio de macho eurocentrado e racista. Ele se apresenta desta forma mesmo num local de reputação libertária e política. Porque os homens se sentem no direito de serem machistas e se beneficiam disso.

Eu reagi gritando contra o vocalista em meio ao som alto as seguintes frases: “you have no right to say what Brazilian women are! you sexist! you racist!”

Ele respondeu dizendo: “maybe I’m too drunk”.

O público seguiu dançando e eles continuaram tocando tranquilamente. E eu me retirei da sala.

Eu não quero com isso culpabilizar as pessoas que ali se encontravam pela falta de reação. Estou me atendo aos fatos, porque estes dizem bastante sobre como aconteceu e como eu me senti. E entendo que principalmente mulheres podem não se sentirem seguras para reagir. Acredito também que algumas pessoas “não viram”, não perceberam. Porém também não deixo de notar que parte deste “não ver” é por conta de que a luta contra a misoginia e o machismo não são consideradas causas legitimas. A luta das mulheres é luta de segunda ordem, para não dizer de terceira ou quinta muitas vezes na escala de hierarquia de lutas. Esta falta de reação me surpreendeu bastante neste contexto específico, diz muito sobre como patriarcado funciona e que é também dominante na cena de esquerda.

Eu posso dizer que eu notei. Eu fui atingida, nós todas as mulheres fomos atingidas pela atitude do vocalista,e por isso faço esta denúncia.

Gostaria de dizer que não sou patriota, não estava defendendo o “meu país”. Isso foi apenas coincidência, teria reagido contra ele da mesma forma se ele estivesse falando de qualquer mulher de qualquer outro lugar do planeta. O que ele fez é culpabilizar as mulheres por serem exploradas. Porque ele não falou dos homens que as exploram, das indústrias que as exploram, do sistema patriarcal. Ele estava objetificando e também debochando das mulheres que ele vê serem retratadas na mídia como enfeites de carnaval.

Porém a ofensa foi a todas as mulheres que ali estavam, quer as pessoas percebam isso ou não. E isso é misoginia.

Dizer que é “só uma piada” não é um bom argumento de defesa. Deu para perceber isso. Não melhora em absolutamente nada, apenas confirma o grau de misoginia e desrespeito pelas mulheres ao tratá-las como objeto também de chacota.

 

 

 

Women are part of the joke for the French band Attentat Fanfare

On the last January 12th I saw the show of this French band Attentat Fanfare, at VL in the city of Halle,Germany. VL is a hausprojekt, as they call here, a community where some people live, a place for gigs, workshops, left wing groups meetings and other things.

I was in the house and it happened that this band would play. The band got on stage. Except by the woman playing accordion they were all dressed in “funny” costumes. The singer was in pajamas and slippers and one of them was dressed “as a woman”.

I couldn’t help but think that it was a bad joke. Men always found a bright idea to dress up “as women” to make fun. It’s misogynistic to wear clothes associated to women in order to mock. While it can be a joke for men to wear high heels, make up, skirts, etc, for women these are things patriarchy forces us into femininity and establishes those as beauty standards that oppress us.

But. Although I’m critical of this and some other characterstics of this band, those weren’t the reasons for me writing this.

I’m reporting what took place during the concert.

In some part o the show, between songs, the singer started to announce the next song, he begun saying: “I was in Brazil and there women have big tits and great asses” (his words). At the same time his hands were drawing shapes of breasts and asses on the air while his eyes widned. I could not believe that he came at this far. For me the band was already hard to swallow, but that was a more tangible fact which left no room for doubts about what was going on. That sentence has only one interpretation: misogyny and racism. Talking about women on that way. To refer to Brazilian women on that way, from a country he probably never stepped in, but in case he did, it doesn’t count on his favor.

He showed his male and european privilege without any embarrassment. He found it very funny to reinforce the stereotype of Brazilian women. He simply doesn’t care of what this stands for. Of how women in Brazil are exploited by the sex tourism for example, which is a practice widely used for his compatriots, other european men, as well other men for any richer country.

He simply doesn’t have a clue what means to be objectified, different from us women, having our bodies been controlled by patriarchy and its laws, where our bodies are objectified and sold on beer labels, objectfied and violated for men including the ones we trust. Where the beauty standards oppress us and lead women on this restless and unsuccessful search for a perfect body/looking, which feeds both capitalism and patriarchy. Standards that are the cause for many women, also very young girls, for depression, eating disorders and other disturbances that are serius enough, but that can also lead to death. He placed himself from the step of misogyny, at the racist eurocentric male privilege place. He presents himself in this way, even in a place with political reputation. Because men feel entitled to be sexist and they benefit from it.

I reacted yelling at him in the middle of the noize the following sentences: “you have no right to say what brazilian women are! you sexist! you racist!

His answer was: “Maybe I’m too drunk”.

The audience kept dancing and they continued playing peacifully. And I left the room. I don’t want to blame the people there for their lack of reaction. I’m sticking into the facts for only one reason, because they (the facts) say a lot about what happened and how I did feel about it. I understand that sepecially women might not feel comfortable to react in situations like this. I also believe that some people didn’t see or realized it. However I also cannot help but noticing that part of “not seeing” it’s because the struggle against misogyny and sexism aren’t considered legitimate struggles. Women’s struggle is secondary, for not saying of third or fifth level in the hierachical scale of the struggles. This lack of reaction surprised me on that particular context and says a lot about how patriarchy works and also prevails in the left scene.

I can say that I have noticed, that it hit me, that his atittude hit all women, and that’s why I’ve decided to dennounce it.

I would like to inform I’m no patriot, I wasn’t defending “my country”. That’s just a coincidence, I would have reacted the same way if he would have talked about any women from any other place of the planet. What he did was to blame women for being exploited. He didn’t talked about the men who exploit them, about the industries that exploit them, neither about the patriarchal system. He objectified and also mock women who he sees been depicted in the media as carnaval accessories.

However, the offense was to all women in the room, even if people don’t realize it. And this is misogyny.

It’s not a good defense to say that it was just a joke. I realized that. And that doesn’t help it in any way, on the contrary, only confirms the level of misogyny and disrespect for women, because as doing so, you are treating women as object also for mockery.

Aline Rodrigues

Larga Viva – uma carta de repúdio a declaração de Paz Berti

Está sendo organizado para o dia 15 de março a Larga Viva, um evento pelo mês de março, para lembrar o dia 8, dia das mulheres, dia de luta.

Eu recebi um convite via e-mail para o evento e nele havia um link para o evento.

Acessei o link e tive o desprazer de ver a discussão gerada adivinhem pelo que? Tenho certeza que muitas já adivinharam, pois é, estão discutindo em como é excludente e autoritário o evento ser exclusivo de mulheres! Como ousam as mulheres fazerem um evento por elas e para elas?

Tudo começou porque o MC chamado Paz Berti se diz “censurado”, excluído e classificado porque não vai “poder” tocar neste evento pelo dia das mulheres que ousam serem as protagonistas do evento!

Ele diz assim:’Só queria informar que me tirarem da programação do próximo Largo Vivo por ter pênis e não xereca. Ta todo o errado!!! Tenho que lutar diariamente com atitudes machistas, homofóbicas e agora algumas femistas se sumarem. É complicado pensar um feminismo de esse jeito.’

Sim, é verdade, eu também custei a acreditar em tamanha ignorância e misogina. E tudo isso vindo de quem? De um cara que se diz feminista. Nem vou mencionar o fato que ele usou a palavra “femista”.

Vamos então colocar umas coisas para você Paz.

Primeiro, que você pode se dizer feminista mas isso não significa que: 1)você seja um 2) que homens possam ser feministas 3) qual “jeito” é o “feminismo certo” para você Paz Berti.

Você poderia ser uma aliado talvez, mas isso você também não é porque você acabou de demostrar.

O que aconteceu é que um homem se sentiu machucado e tá muito triste porque as mulheres não lhe priorizaram! E ele se diz feminista! Fala sério!

Notem que quando ele se refere a vagina ele fala “xereca”!, já ao se referir ao seu lindo pênis ele usa a palavra….pênis. Ele diz que sofre diariamente com atitudes machistas e homofóbicas e ele mesmo tem atitudes machistas e homofóbicas, e misóginas! É misoginia desqualificar a vagina em primeiro lugar! E é machismo supervalorizar seu pênis meu querido, caso você não saiba.

E aí este mesmo cara posa numa foto de saia sem camisa com uma garota do lado de mãos dadas também sem camisa, onde nos seus corpos está escrito “nem homem” “nem mulher”. Porém caro Paz, por mais que você ande por aí de saia você continua sendo privilegiado. E caso você não saiba você não é oprimido pelo patriarcado, você no máximo sente desconforto com as regras do mesmo, mas você é PRIVILEGIADO pelo patriarcado, de tal forma que basta você trocar suas saias por uma calça. Já nós mulheres mesmo de calças somos assediadas nas ruas, somos estupradas todos os dias, assassinadas por termos XERECAS (arg, que nojo esta coisa que fede a peixe já disseram muitos homens gays nos anos 70). Ou seja, não vai fazer nenhuma diferença para mim usar roupas neutras, hum seriam “masculinas”? Ou usar roupas que foram feitas para mulheres usarem.

Seguindo o show de horrores machista, ele tem apoiadoras que não titubearam em sair para “ajudá-lo”, em sua defesa, pobre coitadinho. Sabem por que isso acontece? Porque nós mulheres somos educadas para darmos prioridade aos homens. Porque nós mulheres sempre temos que ser apaziguadoras, porque nós mulheres estamos ‘classificadas’ – para usar o termo usado por Paz – como da classe inferior. Logo nós internalizamos o machismo e também somos capazes de atitudes machistas e misóginas. E é por isso que o feminismo existe caso você não saiba, para lutarmos contra o machismo e a misoginia vigentes e institucionais, lutarmos por nossa autonomia que inclui reaprendermos e buscarmos o que nos foi tirado e negado.

Uma das garotas que lhe defende diz assim:“Te ajudo e descolamos todo um equipo pra fazer dois palcos.Se ser feminista eh isso Sigo sendo anti machista e libertária.”

Sim gente, eu não estou inventando.

Eu também não acredito que passa pela cabeça de alguém alterar a programação, passar por cima literalmente das decisões e /ou vontades de outras mulheres para defender um homem, e tudo isso, ambxs dizem em nome do feminismo!

Pois o feminismo não é não uma luta para favorecer os homens! Ah não sabia! Pois é, o feminismo é uma luta das mulheres para as mulheres. E muitos homens que sentem desconforto com o machismo, que se sentem mal serão igualmente beneficiados nesta luta das mulheres.

Nós não seremos nem salvas, nem libertas, nem protegidas por vocês homens. São os homens que nos assediam nas ruas e em todos os espaços(trabalho, escolas, lazer, etc), são os homens que nos estupram, nos ameaçam, nos agridem física, emocional e verbalmente. Assim como você Paz acabou de fazer. Você está nos agredindo por não receber o tratamento que você acha que merece. E isso se dá por causa do seu privilégio, porque você não foi educado para ser excluído não é mesmo? Você cresceu tendo todos os espaços internos e externos sendo seus!

Nós não! Nós fomos educadas como inferiores e crescemos lutando por espaços ou nos conformando que os espaços não são nossos. Nós só temos estas duas opções. Nos conformar ou lutar!

Não Paz, você não é feminista, sinto lhe dizer. Você deve repensar o que você está sendo para o feminismo, para as mulheres e lésbicas, e repensar suas atitudes.

O machismo não se luta com paz. O machismo se enfrenta com muita luta, com muita batalha, até porque o machismo é a guerra não declarada contra as mulheres.