A Característica Própria da Luta das Mulheres

Nos últimos anos o Dia Internacional de Luta das Mulheres em Porto Alegre, tem sido marcado por abranger pautas mais genéricas que afetam toda a população. Porém o feminismo precisa junto as pautas que escolher reivindicar, focar nas especificidades que as mulheres enfrentam.

O contexto político sempre vai afetar direta e duramente a vida das mulheres, através de leis, das estruturas sociais, relações de trabalho, políticas e infraestruturas deficientes para atenderem os problemas específicos de mulheres e pelo discurso presente. Como a estrutura é patriarcal, fundamentada na perspectiva de dominação masculina – e isso ocorre em todo canto do mundo- o que nós mulheres enfrentamos como consequência dessa ordem, são as violências específicas contra mulheres, os direitos negados e usurpados, negligência à nossa saúde, nossas vidas sob controle no mais íntimo de nossos seres. As formas diversas de como nós mulheres somos atacadas pelas violências masculinas tem um significado de violência bem específico – estupros, espancamentos, abusos, controle, ameaças, perseguição, feminicídio. Dizer não, pode ter como resposta uma agressão ou assassinato. O que significa igualdade quando tal direito básico humano é negado? O que significa autonomia quando nem mesmo uma escolha sobre si mesma é respeitada? Para nós mulheres o conceito de direitos humanos e autonomia têm completamente outra concepção da dos homens. Nossa percepção destes conceitos é diferente da percepção dos homens, não sabemos o que significam direitos humanos e autonomia do ponto de vista masculino. Para nós direitos humanos são aquilo que os homens já têm. Para nós, direitos humanos são os direitos concedidos aos homens – por homens. Não são todos os homens que têm os mesmos direitos, mas todos têm direitos diferentes de mulheres por serem homens. Por isso Igualdade de Gênero significa para o feminismo termos direitos que são apenas garantidos aos homens. Verdade é que o feminismo luta por abolir o conceito de gênero, porque nele estão incutidos os papéis desiguais entre a classe masculina e a feminina. Isso difere porém, das políticas identitárias, que promovem a criação de vários gêneros sem no entanto solucionar o problema dos estereótipos de gênero, que pelo contrário, são reforçados quando se assumem símbolos de feminilidade e masculinidade para suas autodefinições. A ressignificação do termo gênero acaba dando continuidade a negação dos direitos das mulheres quando rejeita, despreza ou minimiza a realidade biológica. Muitas vezes nossa luta é apropriada por setores que se consideram progressistas ou revolucionários. O que o feminismo diz é que gênero é a noção de que as mulheres são subalternas aos homens, é a divisão dos dois sexos em dois gêneros para garantir a supremacia masculina. Dividir em diversos gêneros os dois sexos não elimina a divisão sexual na sociedade que abrange todas esferas sociais.

A luta feminista não pode perder sua especificidade, se diluir até o ponto que perca seu sentido de existir- a não ser que não se precise mais dela.

Quando as pautas do Dia Internacional de Luta das Mulheres são genéricas sem enfatizar na diferenciação do que é ser mulher de ser homem na sociedade, a gente acaba contribuindo com o princípio de que a nossa luta é de segunda ordem. Não podemos reproduzir o desprezo das nossas realidades, pois é desprezar nossa existência.

É importante que se a gente fala em saúde a gente fale em saúde da mulher, não porque a gente não queira saúde pra todo mundo, mas porque a saúde não é absolutamente nem um pouco igual para homens e mulheres. O aborto é uma questão de saúde pública, e somos nós as mulheres que somos punidas ou mortas em decorrência da criminalização do aborto. No momento atual, o lobby antiaborto procura criar constituições estaduais com o objetivo de acabar com o aborto legal – os três casos em que o aborto é permitido no país: em caso de risco de vida para a mulher, quando a gestação é resultante de um estupro ou se o feto for anencéfalo. Este é o próprio contexto político atual, se é para falarmos no contexto que estamos, é mais que pertinente que no Dia Internacional de Luta das Mulheres se destaque isso. O esforço em retirar o direito das mulheres ao aborto já legalizado é uma das maiores ameaças que metade da população está sujeita, – na verdade um pouco mais que metade, segundo dados do IBGE de 2018, 51,7% é a população de mulheres no país, enquanto a de homens é de 48,3%. Já no congresso as mulheres representam apenas 15%, onde a elaboração e aprovação de leis, incluindo as do aborto, são feitas majoritariamente por pessoas que nunca ficarão grávidas nas suas vidas – os homens. Ainda falando em saúde, as pesquisas médicas por serem focadas em homens resultam com que as mulheres tenham menos remédios e tratamentos desenvolvidos, o que por sua vez é um risco à saúde e à vida de mulheres. Há uma negligência aos problemas biológicos específicos das mulheres, assim como aos efeitos adversos e dosagens inadequadas, com consequências terríveis para mulheres. Obviamente que a reivindicação por saúde no Brasil, se refere principalmente às populações mais pobres, do acesso à saúde, porém uma coisa não exclui a outra, ou melhor, no caso das mulheres exclui, pois as mulheres mais pobres, a maioria negra, sofre com a intersecção destes fatores (incluído o de ser mulher).

Quando nós feministas falamos em empregos, temos que apontar que as mulheres ainda ganham menos que os homens, segundo levantamento do IBGE em média 20,5% menos. A pesquisa mostra também que as mulheres dedicam mais tempo aos cuidados de pessoas e afazeres domésticos, são 18,1 horas por semana, enquanto os homens dedicam 10,5 horas semanais. A dupla jornada de trabalho, além de indicar que as mulheres gastam mais tempo com o trabalho não remunerado, faz com que as mulheres aceitem trabalhos mais precários. É verdade também que por dedicarmos mais tempo ou tempo integral no cuidado das pessoas, que as condições de educação dos nossos filhos e de emprego dos homens da nossa família, assim como a saúde de todos estes, são importantes para nós. Mas no dia de luta das mulheres é imprescindível que se destaque como se dão as questões de emprego, saúde e de educação das mulheres.

É importante que o 8 de março sempre reforce o que significa ser mulher nos diversos âmbitos sociais. As pautas que o movimento feminista escolhe têm sempre que enfatizar bem definidamente o ponto de vista das mulheres na sociedade. De outra forma se parecem mais como pautas da esquerda masculina, a impressão que se tem é que quando se opta por uma forma mais genérica de abordagem é justamente para não causar nenhum desconforto aos homens. É compreensível já que o movimento feminista é constantemente atacado por várias frentes, tanto a direita como a esquerda confluem quando diminuem a relevância da nossa luta. É compreensível que diante a tantos ataques e retrocessos, as mulheres queiram o apoio dos homens que elas julgam estarem do seu lado, porém este apoio nunca deve ser buscado como algo primordial, os homens podem ser aliados sem que sejam protagonistas ou agraciados.

aline rod.

[Repost] Chegamos no Dia internacional da Mulher

Chegamos no Dia Internacional da Mulher
sem que saibam o que é ser uma
sem que saibam de onde vem nossa opressão
outros protagonistas mais uma presunção
chegamos no dia internacional da mulher
e não querem saber como chegamos aqui
nem como sobreviveram nossas antepassadas
terem nos gerado é irrelevância
melhor quando esquecidas na sua insignificância
chegamos no dia internacional da mulher
o que fizeram não pode ser lembrado
e antes que o conhecimento seja repassado
deem um jeito dele junto ao corpo ficar soterrado
chegamos no dia internacional da mulher
nosso engenho é renegado
nosso sangue é derramado
nosso útero é desprezado
mas tem valor para ser alugado
chegamos no dia internacional da mulher
e ser mulher é uma roupa
ou fetiche
uma sensação matinal
que pode mudar no meio da tarde
ao estender uma roupa de baixo no varal
chegamos no dia internacional da mulher
e nosso corpo é tabu
é “biologia terf”
é biomedicina
é experimento
é xyz com vitamina
chegamos no dia internacional da mulher
e eles são comemorados
e o homem neste dia é situado
para garantir que ele sempre seja o primeiro colocado
chegamos no dia internacional da mulher
e nosso futuro é incerto
nossa esperança é abalada
mas quem se importa com gente desatualizada
chegamos no dia internacional da mulher
e a mais antiga opressão chamam de profissão
é capital é diversão
o poder tá na mão
o prazer está na exploração
chegamos no dia internacional da mulher
ela tá tentando escapar mas ninguém a nota
a quem interessa afinal
é só mais uma mulher morta
chegamos no dia internacional da mulher
o dia da arca de noé não esqueçam
é dia de salvar todas espécies que apareçam
porque afinal hoje é o dia de quem quiser

aline rod

Escrito e publicado pela primeira vez em março de 2018. http://acaoantisexista.tk/chegamos-no-dia-internacional-da-mulher/

O que rolou em 2019 aqui na Ação Anti Sexista

Se você quer ficar por dentro do que aconteceu aqui no blog em 2019 abaixo links para as postagens que escolhi pra você navegar com mais facilidade.

Comentário/Texto:

Arte/ Música/ Pensamento:

Calendário Feminista:

Notícia:

Que em 2020 a nossa luta avance!

Reunião de Avaliação do Festival É Pela Vida das Mulheres!

 

A reunião da FrePLA deste mês será de avaliação do Festival É Pela Vida das Mulheres. O Festival aconteceu no dia 28 de setembro passado pelo Dia Latino Americano e Caribenho Pela Descriminalização do Aborto.

Nesta quarta feira, estaremos fazendo esta avaliação coletiva e também dando continuidade aos encaminhamentos das novas ações.

16 de outubro às 18:30h no Camp – Escola de Cidadania

  • Reunião exclusiva para mulheres

 

Seguem algumas imagens do Festival!

 

As imagens falam por si. Foi um grande dia ver tantas mulheres juntas construindo e participando de uma variedade incrível de atividades. Pela vida das mulheres.

 

Festival É Pela Vida das Mulheres! 28.09// Amanhã!

 

O Festival É Pela Vida das Mulheres é amanhã!  Dia Latino Americano e Caribenho Pela Descriminalização do Aborto.

O Festival começa às 11h e vai até as 18:30, com muitas oficinas, rodas de conversa, apresentações artísticas e uma feira feminista! Terá ciranda durante todo o evento, proporcionando que as mulheres que cuidam de crianças possam participar, e a integração das crianças neste dia pela vida das mulheres!

Programação completa: http://acaoantisexista.tk/festival-e-pela-vida-das-mulheres-cronograma/

 

O Festival é articulado pela FRePLA e conta com a participação de vários coletivos de mulheres!

Gratuito e aberto ao público

Festival É Pela Vida das Mulheres – Cronograma

 

A FrePLA Convida para o Festival pela descriminalização do aborto que acontece sábado dia 28.09 na Redenção:

Cronograma do Festival!! Olha que linda tá a nossa programação! Venha fazer parte deste grande encontro pela vida de todas nós! Nem uma a menos!

🌿11:00h Abertura do Festival É Pela Vida das Mulheres! Intervenção da Trupe Abre Asas e momento de encontro e organização
🌿11:00h Ciranda – Brincadeiras com cuidadora até as 18:30h
🌿11:30h Feira Feminista até às 18h
🌿12:00h Piquenique Coletivo – Traga seu lanche e compartilhe este momento com a gente!
🌿13:15h Capoeira – Treinel Fabi Grupo de Capoeira Angola Zimba
🌿13:30h Roda de Conversa: Saúde Mental da Mulher – Coletivo Virgínias/Ação Anti Fascista *
🌿13:30h Oficina de Malabares para crianças – Atividade da ciranda
🌿14:00h Oficina de bordado: Costurando Existências Tecendo Resistências – Ocupação Feminista *
🌿14:45h Apresentação Artística: Miss Beleza – Performance *
🌿15:00h Roda de Conversa: Direitos Reprodutivos e a Rede de Atendimento em Aborto Legal Porto Alegre – Fórum do Aborto Legal/ Themis *
🌿16:00h Apresentação Artística: Pantaleore – Núbia Quintana – Comédia de arte; Performance *
🌿16:15h Roda de Conversa: Deficiência, Reprodução Social e o Direito ao Aborto -Coletivo Feminista Helen Keller *
🌿17:00h Apresentação Artística: Levanta Favela – Performance *
🌿17:20h Apresentação Artística: Poetas Vivas-Intervenção Poética*
🌿17:40h Apresentação Artística: Arielle – Intervenção Poética *
🌿18:00h Apresentação Artística: Luisa Gonçalves – Música *
🌿18:15h Apresentação Artística: Não Mexe Comigo Que Eu Não Ando Só – Percussão e Performance *

*Atividade com tradutora interprete de libras

28 de Setembro – Dia Latino Americano e Caribenho Pela Descriminalização do Aborto

Festival É Pela Vida das Mulheres – Panfleto

 

28 de Setembro Dia Latino Americano e Caribenho Pela Descriminalização do Aborto

Festival É Pela Vida das Mulheres à partir das 11h na Redenção

Panfleto frente e verso

 

 

Jornada pelo 28 Setembro – Dia Latino Americano e Caribenho Pela Descriminalização do Aborto

 

Programação:

 

 

Em breve sai a programação  do dia 28.09, quando acontece o festival É Pela Vida das Mulheres!

Falecimento de Magdalen Berns – Lésbica Feminista Radical

 

Magdalen Berns faleceu. Que triste notícia.

Magdalen foi uma lésbica feminista crítica à noção de gênero. Sua postura feminista radical, sempre em defesa dos direitos e interesses das mulheres lésbicas e de toda a classe de mulheres, a tornou tanto alvo de ataques constantes, como uma influência feminista. Ela foi inspiração para muitas lésbicas, admirada e respeitada por muitas pessoas em várias partes do mundo.

Corajosa, brilhante, charmosa, espirituosa.

Farás falta.

Magdalen Berns (6.05.1983 – 13.09. 2019)

Women’s Shero