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Mulheres são parte da piada para a banda francesa ‘Attentat Fanfare!’

No dia 12 de janeiro passado, eu vi o show da banda francesa Atenttat Fanfare, no VL na cidade de Halle na Alemanha. O VL é uma hausprojekt, uma casa onde acontecem gigs, oficinas, encontros de grupos de esquerda e também é uma comunidade onde moram várias pessoas. Em seus princípios estão o anti racismo, o anti sexismo, a anti homofobia e a luta contra o anti semitismo.

Eu não fui propriamente para o show, mas estava na casa e acabei ficando. A banda subiu no palco. Os integrantes estavam todos fantasiados, exceto pela mulher que toca acordeon. O vocalista estava de pijamas e pantufas, e os outros integrantes vestiam outras fantasias ou acessórios ‘engraçados’. um deles estava ‘fantasiado’ de mulher. Não pude deixar de pensar que a piada era muito ruim.

Os homens sempre acham uma grande sacada se vestirem de mulher para serem engraçados e debochados. É misógino querer fazer graça com vestimentas associadas às mulheres. Enquanto para os homens pode ser uma brincadeira usar salto alto, maquiagem, etc, para a mulher é como o patriarcado nos força à feminilidade e estabelece como padrões de beleza que nos oprimem.

Apesar de eu ter críticas a esta e outras características da banda não foram estas as razões para eu escrever.

Faço aqui um relato do que se sucedeu durante o show.

No meio do show entre uma música e outra, o vocalista parou para anunciar a próxima música e começou dizendo: “eu estive no Rio no Brasil e lá as mulheres tem grandes ‘tetas’ e bundas incríveis.” E juntamente gesticulava desenhando seios e bundas grandes no ar com as mãos enquanto arregalava os olhos. Eu realmente não acreditei no ponto que chegara. Já estava bastante intragável aquela banda, mas este foi o dado mais concreto e sem nenhuma sombra de dúvida do que estava acontecendo ali. Esta frase só tem a seguinte leitura: misoginia e racismo. Falar das mulheres daquele jeito. Se referir daquela forma às mulheres brasileiras, de um país que muito provavelmente ele nunca tenha pisado, mas que se pisou também não melhora em nada.

Com esta atitude, ele mostrou sem nenhum constrangimento o seu privilégio como homem e como europeu. Ele achou muito engraçado utilizar do estereótipo que se têm – e que também se vende – da mulher brasileira. Ele não está nem aí para o que isso representa. O quanto as mulheres no Brasil são exploradas por exemplo pelo turismo sexual, que seus compatriotas, outros europeus e homens de outros países mais ricos fazem.

Ele simplesmente não sofre com a objetificação do seu corpo, ao contrário de nós mulheres que temos nossos corpos controlados pelo patriarcado e suas leis, onde nossos corpos são objetificados e vendidos em rótulos de cerveja, objetificados e violados inclusive por homens que confiamos. Onde os padrões de beleza nos oprimem e levam muitas mulheres a uma busca incansável e infrutífera pelo corpo perfeito do qual o capitalismo (além do patriarcado) se alimenta. Padrões estes que levam às mulheres, incluindo meninas muito novas, a depressão, anorexia, bulimia e outros transtornos que por si só já são muito sérios, mas que ainda podem levar à morte. Ele se coloca do degrau da misoginia, do privilégio de macho eurocentrado e racista. Ele se apresenta desta forma mesmo num local de reputação libertária e política. Porque os homens se sentem no direito de serem machistas e se beneficiam disso.

Eu reagi gritando contra o vocalista em meio ao som alto as seguintes frases: “you have no right to say what Brazilian women are! you sexist! you racist!”

Ele respondeu dizendo: “maybe I’m too drunk”.

O público seguiu dançando e eles continuaram tocando tranquilamente. E eu me retirei da sala.

Eu não quero com isso culpabilizar as pessoas que ali se encontravam pela falta de reação. Estou me atendo aos fatos, porque estes dizem bastante sobre como aconteceu e como eu me senti. E entendo que principalmente mulheres podem não se sentirem seguras para reagir. Acredito também que algumas pessoas “não viram”, não perceberam. Porém também não deixo de notar que parte deste “não ver” é por conta de que a luta contra a misoginia e o machismo não são consideradas causas legitimas. A luta das mulheres é luta de segunda ordem, para não dizer de terceira ou quinta muitas vezes na escala de hierarquia de lutas. Esta falta de reação me surpreendeu bastante neste contexto específico, diz muito sobre como patriarcado funciona e que é também dominante na cena de esquerda.

Eu posso dizer que eu notei. Eu fui atingida, nós todas as mulheres fomos atingidas pela atitude do vocalista,e por isso faço esta denúncia.

Gostaria de dizer que não sou patriota, não estava defendendo o “meu país”. Isso foi apenas coincidência, teria reagido contra ele da mesma forma se ele estivesse falando de qualquer mulher de qualquer outro lugar do planeta. O que ele fez é culpabilizar as mulheres por serem exploradas. Porque ele não falou dos homens que as exploram, das indústrias que as exploram, do sistema patriarcal. Ele estava objetificando e também debochando das mulheres que ele vê serem retratadas na mídia como enfeites de carnaval.

Porém a ofensa foi a todas as mulheres que ali estavam, quer as pessoas percebam isso ou não. E isso é misoginia.

Dizer que é “só uma piada” não é um bom argumento de defesa. Deu para perceber isso. Não melhora em absolutamente nada, apenas confirma o grau de misoginia e desrespeito pelas mulheres ao tratá-las como objeto também de chacota.

Machistas não passarão!

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Este relato está escrito já fazem uns dias e gostaria de informar que só está sendo publicado depois de eu ter colocado no offenes plenum da casa, que é uma reunião aberta à qualquer pessoa interessada em saber como a casa funciona, sugerir propostas e debater problemas como este. A casa se mostrou solidária e foi tirado nesta reunião que apoiariam minha iniciativa de relatar o ocorrido. As pessoas da casa também me falaram para avisá-las de qualquer situação sexista que ocorrer dentro dela porque não intencionam tolerar.

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————————————————-  atualizado no dia 12.03.15

Ações Feministas em POA – Mês de março mês de Luta!

Informando algumas ações feministas importantes feitas na cidade de Porto Alegre no mês de luta das mulheres!

///Pelo dia 8 de março, as Mulheres Libertárias em Luta (coletivo formado por mulheres vindas de diferentes grupos) *mais uma vez modificaram os nomes de ruas por nomes de algumas mulheres que foram perseguidas, assassinadas e torturadas pelo regime militar na América Latina, trazendo este ano a memória dos 50 anos do golpe militar que não esqueceremos e não perdoaremos.

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Claudia Silva Ferreira também foi lembrada na ação por ter sido vítima da brutalidade da polícia militar cada vez mais acentuada nas favelas, Claudia foi baleada e arrastada pela viatura policial por 250 metros e não sobreviveu, no dia 16 de março deste ano.

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Também houve colagem pelas ruas da cidade deste cartaz!

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Nossos corpos não estão em Jogo!

 

///Na noite de 28 de março um grupo de mulheres entrou no Bar Opinião e pixou todo o banheiro, esta foi uma ação em solidariedade à Vanessa Ventura que foi agredida por um segurança desta casa noturna escrota. Vanessa entrou no banheiro com um amigo, ao sair da cabine ela viu um segurança ali dentro. Ela achou que o segurança iria reclamar com ela de ter entrado com o seu amigo, porém o que se sucedeu foi que o segurança pôs a mão por baixo da saia dela, ela regiu e deu um tapa no segurança que segurou a cabeça dela e bateu contra a parede. Ela saiu do banheiro correndo e gritando por ajuda mas foi impedida por outros seguranças, em suas próprias palavras:

“Saí do banheiro apavorada, gritando pra todos o que aconteceu e, com os amigos que esperavam ali fora,tentamos ir atrás dele. Os seguranças, para nossa surpresa, começaram a nos barrar, acobertando o ocorrido, nos impedindo de alcançar o agressor e de nos comunicarmos com um responsável pela festa e/ou estabelecimento (para que fossem tomadas devidas providências)”.

Sendo assim em solidariedade e resposta o banheiro do bar ficou assim:

 

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Na mesma noite rolou o escracho na frente da festa “Selva” que estava acontecendo no bar Caribe, O escracho rolou pois a divulgação da festa foi feita com cartazes misóginos e racistas. Leia a carta de denúncia.

Abaixo um dos cartazes de divulgação da festa com uma mulher branca pintada de preto para caracterizar uma mulher negra “selvagem”:

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Não Toleraremos! Seguiremos Denunciando!

Lugar de Mulher é na luta!

Machistas Não Passarão!

 

* ano passado algumas ruas de Porto Alegre também amanheceram com nomes de mulheres feministas, lutadoras, sobreviventes.
http://mulhereslibertariasemluta.blogspot.com.br/

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>>>TRIGGER WARNING<<< DENÚNCIA VIOLÊNCIA SETE/NOVE

Segue a carta de denúncia contra o coletivo misógino e racista Sete/nove do dia 30 de março.
Viemos através dessa carta denunciar a conduta misógina e racista dos homens do coletivo Sete/nove e todos os que compactuam com essa atrocidade. Estamos todas humilhadas, abusadas, desrespeitadas, expostas e usadas. Isso é sobre todas as mulheres que foram vítimas desses caras.
O Sete/nove é um coletivo de fotografia de Porto Alegre composto por Alexandre Rudá de Melo e Henrique Fortes. Eles são os responsáveis pela organização do evento Selva#01, no bar CARIBE, Avenida João Pessoa nº905 e que tinha como proposta a “celebração para seres de todas as espécies (tipo horóscopo chinês), (…) SELVAgens salvarão o mundo, Pacha Mama te amamos, bixogrilagem inédita, aqui todos somos SELVA”.
Associadas a esta descrição estavam, primeiramente, fotos de mulheres brancas, dentro dos padrões de beleza impostos pela nossa sociedade, caracterizadas como indígenas, sexualizadas e em poses “selvagem”. Estas fotos geraram diversas críticas à festa, feitas principalmente por mulheres. Após os questionamentos, os organizadores da festa trocaram a imagem para outra que era composta por homens e mulheres, ainda caracterizadxs como índigenas e selvagens. Posteriormente, incluíram a foto de uma mulher branca pintada de preto, na tentativa de caracterizá-la como uma mulher negra, novamente em poses selvagens, expressando todo seu racismo velado na divulgação de uma festa chamada Selva.
Os questionamentos acerca da objetificação da mulher continuaram e nova problemática surgiu referente ao blackface, atitude racista por ser uma caracterização esteriotipada dx negrx. Muitxs denunciaram o racismo presente na foto e como resposta foram ignoradxs e tiveram seus comentários apagados. A polêmica em torno do flyer permitiu que outras companheiras se sentissem à vontade para compartilhar relatos acerca de condutas machistas e racistas adotadas pelos sócios da sete/nove em relação à elas. De repente, recebemos uma enxurrada de reclamações e denúncias de mulheres que, encorajadas pelos relatos umas das outras e pelo apoio das companheiras, romperam o silêncio que só protege os opressores e se uniram para se proteger. Denúncias como o fato de fotos dos seus peitos e suas bundas tiradas sem consentimento estarem disponíveis nas páginas de domínio desse coletivo, ou de meninas que se sentiram (ou que observaram outras meninas serem) desrespeitadas/enganadas durante ensaios fotográficos, além da evidente ausência de negrxs nas fotografias (sendo que quando estxs aparecem são mostrados de forma embranquecida).
Com uma breve pesquisa e com as informações facilitadas pela sensação de sororidade que se criou em torno desse evento, conseguimos compilar prints e links de outras atividades fascistas dos sócios da sete/nove como um grupo de teor extremamente misógino onde mulheres são expostas, avaliadas, hiperssexualizadas e objetificadas. Os dois têm seus nomes também ligados a uma conta no aplicativo instagram @iscagram que além de se referir às mulheres como ‘iscas’, expõe diversas pessoas em situação de vulnerabilidade de maneira debochada, como meninas desmaiadas ou passando mal em festas e vulnerabilidade social com fotos de moradores de rua. A expressão largamente utilizada por eles e seus amigos próximos ‘cadilandra’ (que segundo eles significa uma ‘gata malandra’) aparece tanto no grupo secreto misógino que se chama “Fórum da Cadilandragem” e em uma página de conteúdo também machista e misógino que se chama “Não sou Cadilandra mas…”. O administrador do grupo secreto é o Henrique Fortes e ambos os sócios apresentam ampla participação na página.
Mesmo depois de todo essa repercussão negativa sobre o evento, não foi cogitada uma retratação, nem o cancelamento da festa.
Como não houve diálogo, mesmo depois de diversas tentativas de nossa parte e à luz das novas informações a respeito dos organizadores do evento, resolvemos organizar um escracho no dia e local da festa. O nosso objetivo era denunciar e boicotar o evento. Cantamos nossas palavras de ordem, que manifestavam nossas opiniões sobre o machismo e o racismo praticados pelo coletivo sete/nove, não só na divulgação dessa festa, mas cotidianamente. Éramos vozes, palmas e batucadas em baldes pra fazer barulho. Os organizadores, quando saíam de dentro do bar para ‘espiar’ nossa manifestação tomavam um ar arrogante e nos provocavam com sorrisos debochados. Por volta da meia noite o dono do bar apareceu, já agressivo, falando que estávamos prejudicando o negócio dele. Tentamos dialogar e fomos ameaçadas de agressão. Mesmo assim, continuamos cantando. A polícia foi chamada pelo dono do bar e quando chegou ao local não fez absolutamente nada, sendo leviana com nossa denúncia de ameaça e com a denúncia de racismo dxs companheirxs negrxs. Na presença da brigada, um dos seguranças do bar saiu do estabelecimento, juntou-se à roda de pessoas na calçada e passou a fazer movimentos para intimidar os presentes, estralando os dedos e pescoço.
Mais pessoas se acumulavam em frente à festa: muitas não entravam, mas também não se juntavam a nós, estavam ali como espectadores. Outras, passavam pelo escracho e entravam na festa. O canto continuou, com novxs amigxs se juntando para dar força e cantar junto. Durante todo o processo, amigxs próximxs dos sócios da sete/nove ameaçaram, intimidaram e agrediram verbal e fisicamente várixs companheirxs (principalmente mulheres).
Em determinado momento, duas companheiras e um companheiro sentaram-se no degrau da porta do estabelecimento. Nesse momento o dono apareceu, com as mãos pra trás e protegido pelos seus dois seguranças. Ao ser questionado sobre o que tinha nas mãos, o dono do bar Caribe e os seguranças puxaram os cabelos de uma companheira e desferiram chutes nas costas de outra. Em seguida, o dono do bar atingiu várixs companheirxs com o CASSETETE que tinha nas mãos. Uma das meninas que estavam sentadas foi atingida na cabeça e começou a sangrar muito. As duas companheiras agredidas foram acompanhadas ao HPS onde realizaram os B.O e exames de corpo de delito. Parte dxs companheirxs permaneceu no local, absolutamente indignadxs e chocadxs com a atitude da produtora de continuar a festa como se nada tivesse acontecido. Xs companheirxs presentes no local chamaram a polícia diversas vezes e pediram para que outrxs companheirxs que acompanhavam por meios virtuais a manifestação também ligassem para a polícia para exigir que se dirigissem à João Pessoa. Decidimos então interromper o trânsito na avenida numa tentativa de atrair a polícia para o local, já que nenhumx de nós se sentia segurx estando ali.
Foram mais de 40 minutos com a rua fechada, até que a polícia aparecesse dizendo que estava ali pra cuidar do trânsito somente, que agressões aconteciam todos os dias e que podíamos continuar fechando a rua se quiséssemos.
Embora estivessem acompanhando nosso protesto desde o início, informadxs sobre o que aconteceu, a maioria das pessoas presentes (muitxs dos quais estavam em rodinhas ou sentadxs no meio fio do corredor de ônibus em conversas animadas num clima de confraternização de rua) estavam apáticxs com relação à violência sofrida pelas meninas. Integrantes do coletivo fotográfico Ovos e Llamas – que usa o espaço do bar Caribe e intermediou o contato entre o estabelecimento e o coletivo sete/nove – também não se posicionaram frente à situação¬. Os sócios da sete/nove circulavam livremente pela rua, que a essa altura já estava tomada por risos, cerveja e socialização. O clima por parte dxs organizadorxs era de deboche e vitória. Como durante o trancaço da rua houve alguns desentendimentos entre amigos/apoiadores do coletivo sete/nove e xs companheirxs manifestantes, avaliamos que se continuássemos em atrito com a organização do evento, ou com o dono do bar, provavelmente sofreríamos mais agressões, principalmente quando as pessoas que estavam dentro da festa saíssem. Não tivemos outra alternativa senão ir embora.
O que presenciamos nesse evento do sete/nove, pra muito além de todo racismo e machismo sofridos, foi a reação de uma classe média fascista, conivente com todo o tipo de violência contra a mulher e minorias, e que se recusa a reconhecer seus privilégios. Nesta noite, todxs xs espectadores daquelas situações absurdas de misoginia e racismo, todxs que entraram na festa, compactuaram com a violência sofrida por essas mulheres. Todxs são responsáveis pela agressão cometida pela equipe do bar Caribe. TODXS TÊM O SANGUE DAS COMPANHEIRAS AGREDIDAS NAS MÃOS. Sete/nove é fascismo!
Estamos organizadas, tudo o que foi relatado está gravado em vídeos e fotos, e não nos calaremos!
NÃO TEMOS MAIS MEDO! NÃO PASSARÃO!

Manifesto Yaki Livre!

Tirado de http://yakilivre.noblogs.org/manifesto-yaki-livre/

Esta é uma tradução ao português do manifesto escrito pelas companheiras mexicanas que estão na luta pela liberdade de Yakiri. No momento de publicação do manifesto, 17 de fevereiro de 2014, em “La Hoguera”, Yaki ainda estava presa. Agora, aguarda o processo em “liberdade”,depois de pagar no ato 140 mil da fiança, que foi fixada em 423.800 pesos no dia 5 de março, 86 dias depois da sua prisão. O valor total da fiança corresponde a cinco mil vezes o salário mínimo e é o valor previsto em constituição cobrado em relação a homicídios sem atenuantes. Mais uma vez o uso de legitima defesa de Yakiri não está sendo considerado.

http://lahoguera.confabulando.org/?p=3394

Manifesto Yaki Livre

Liberdade para Yakiri

Se nos julgam por sobreviver, a justiça quer todas nós mortas!

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No dia 9 de dezembro de 2013, em Doctores, bairro residencial da Cidade do México, os irmãos Luis Omar e Miguel Ángel Ramírez Anaya sequestraram Yakiri Rubí Rubio Aupart que estava indo encontrar a namorada. Ameaçam-na com uma faca, obrigam-na a montar na moto em que estão e levam-na contra a sua vontade ao hotel Alcázar. No quarto n° 27, Yakiri é insultada, golpeada e torturada sexualmente. Miguel Ángel Ramírez Anaya a estupra e, depois de tudo, tenta mata-la. Yaki consegue se defender, tomando a faca na mão de seu agressor.

Miguel Ángel Ramírez Anaya acaba gravemente ferido, foge em sua moto e morre pouco depois de sair do hotel.

Yakiri chega à agência 50 do Ministério Público, localizada na PGJDF (Procuradoria Geral de Justiça do Distrito Federal) e enquanto fazia a denúncia por estupro, sequestro, tortura e tentativa de homicídio, chega o outro agressor, Luis Omar Ramírez Anaya, e a acusa de assassinar seu irmão. Yakiri é imputada por homicídio qualificado. Levam-na à prisão sem notifica-la desconsiderando a veracidade de sua acusação, deixando ao agressor e cúmplice Luis Omar Ramírez Anaya livre e sem acusações. Duas denúncias e uma só detida: Yakiri.

No dia seguinte, o Procurador Geral de Justiça do DF, Rodolfo Ríos Garza, determinou iniciar um processo por homicídio qualificado, sem levar em conta o contexto de violência sexual em que se deu o óbito do agressor.

Por fim, Yakiri é levada à prisão de Santa Martha Acatitla onde ameaçam e batem nela. Transferem-na à prisão feminina de Tepepan, de onde só sai depois do pagamento de fiança.

Yakiri Rubi é privada de sua liberdade pelo juiz Santiago Ávila Negrón, titular do Juizado 68 Penal. Este juiz é réu em um processo aberto contra ele por assédio sexual a Betzabet Perea em 2011. Além disso, no ano 2004, foi reprovado no exame de atualização, no qual consta que Santiago Ávila Negrón apresenta “falta de técnica jurídica, omissão em notificar as partes, falta de motivação e incongruência em suas resoluções” (La Jornada, Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004).

Mexeu com uma mexeu com todas!!

A partir da Justiça Feminista sabemos que às mulheres historicamente foi imposta uma condição de obediência das normas patriarcais entre as quais se destaca a violência sexual como prerrogativa de domínio, melhor dizendo, o direito a invadir nossos corpos sem o NOSSO consentimento. É por isso que se castiga às mulheres quando nos defendemos, quando dizemos NÃO e reivindicamos a liberdade e a autonomia sobre nossos corpos.

Sabemos que existe uma cumplicidade evidente dentre os agressores sexuais e as instituições encarregadas de conceder justiça, que costumam proteger estupradores e feminicidas e criminalizar as mulheres ainda que se trate de situações evidentes de LEGÍTIMA DEFESA, como é o caso de Yakiri. Yakiri hoje está viva, lutou por sua vida e por sua liberdade. Nós a queremos do nosso lado e não nos esquecemos de todas as mortas por feminicídios daqui, de outras partes, de todo o mundo.

A liberdade de Yakiri significa a garantia da possibilidade de que todas as mulheres possamos decidir livremente sobre nossas vidas, de defender nossos corpos de toda a agressão. Por isso afirmamos que frente à qualquer agressão contra nossos corpos a defesa é legítima!

Frente à violência machista, autodefesa feminista. YAKIRI: LIBERDADE

#yakilibre
#yakirilibre
#euteriafeitoomesmo
#justiciaparayakiri
#yohubierahecholomismo

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Sobre o Argumento de que o Patriarcado Não Existe

Tem-se falado que o patriarcado não existe, ou de “que não é bem assim”.

Passou a ser relevante dizer que o patriarcado é também culpa das mulheres, quando não ‘principalmente’ culpa das mulheres já que são as mulheres que educam as filhas e filhos de forma machista.

Então é relevante dizer que o patriarcado é culpa das mulheres mesmo antes de reconhecê-lo como realidade massivamente opressora de mulheres?

Quando respondemos com força e personalidade somos acusadas de masculinizadas. Quando não agimos, somos acusadas de passivas e por isso temos o que merecemos. Quando somos violentadas, nos culpam porque estávamos no local errado na hora errada, com a roupa errada, ou tendo o comportamento errado. Quando as mulheres são prostituídas são acusadas de vagabundas, enquanto aos homens outras oportunidades são garantidas. Procuram nos enfraquecer, procuram assegurar que nunca sejamos autoconfiantes suficientes para desafiarmos a normatividade patriarcal. Nossas conquistas são ignoradas, nossa herstória é abafada.Vivemos num mundo onde os homens são os protagonistas das ciências, da política, das religiões, das filosofias… e quando mulheres conseguem feitos são muitas vezes esquecidas.

Somos educadas como inferiores, como pessoas que não tem o mesmo valor que os homens tem na sociedade, somos educadas a sermos passivas e obedientes.

E somos ensinadas também a negar o patriarcado. Obviamente. Porque reconhecer o patriarcado é perigoso para a ordem e para a manutenção do mesmo.

Quando percebemos nossa situação procuram nos desmotivar de nossa “rebeldia” dizendo que somos superiores, afinal somos mais sensíveis e mais delicadas, características tão sublimes que nem precisamos afinal sermos agentes de nossos processos.

Somos objetificadas, hipersexualizadas, erotizadas para o bel prazer do homem, mas agora de forma ardil descobriram que é só dizer que somos objeto do nosso próprio desejo para nos manterem bibelôs.

Então priorizar que as mulheres perpetuam o patriarcado, sem enxergar que somos desfavorecidas pelo mesmo, é injusto. Sim, as mulheres também perpetuam o patriarcado, não estou ignorando isso, mas este não é argumento para negar o patriarcado, antes pelo contrário é argumento que só demonstra o machismo como hegemonia. Além do que ao identificar este tipo de padrão de comportamento em mulheres está se admitindo que o patriarcado existe. É bem contraditório dizer que o patriarcado não existe afinal as mulheres reproduzem o patriarcado. Hã?

Acusar as mulheres de darem educação machista é distorcer a realidade para nos culpabilizar mais uma vez. As mulheres são as culpadas pela educação das filhas e filhos? Pois se perguntaram justamente, por que são as mulheres as responsáveis por isso? Não seria pela divisão de papéis imposta pelo patriarcado, e que à mulher fica a responsabilidade de criar filhas e filhos, sendo muitas das vezes as únicas responsáveis desta tarefa? Esta é uma questão anterior à maneira de educar – a de com quem fica a responsabilidade. A educação machista é parte da sociedade patriarcal, e as mulheres que dão educação machista não estão fazendo isso sozinhas, estão fazendo o “seu papel” nesta sociedade. E já respondendo a um possível argumento de que “mas então isso acontece também com os homens, eles estão apenas fazendo o papel que lhes foi imposto!” Sim, isso também acontece com os homens, a diferença é que o poder está com eles e são eles os privilegiados pelo patriarcado, quer gostem ou não. E são os homens por deterem poderes que impõem privilégios a seu favor.

É por isso que o feminismo existe.

enilador

Cenas Ativistas Não São Espaços Seguros Para Mulheres: Sobre o Abuso de Mulheres Ativistas por Homens Ativistas

Por Tamara K. Nopper

Como uma mulher que sofreu abuso físico e emocional cometido por homens, alguns com os quais eu tive longos relacionamentos, é sempre difícil ficar sabendo que outras mulheres ativistas estão sofrendo abuso por homens ativistas.

As questões interrelacionadas do sexismo, misoginia e homofobia em círculos ativistas são excessivas, e não é surpreendente que mulheres sejam abusadas física e emocionalmente por homens ativistas com os quais elas trabalham em vários projetos.

Eu não estou falando abstratamente aqui. Na verdade, eu sei de vários relacionamentos entre homens e mulheres ativistas nos quais as últimas são abusadas se não fisicamente, emocionalmente. Por exemplo, há muito tempo uma amiga minha me mostrou ferimentos em seu braço que ela me disse que foram causados por outro homem ativista. Essa mulher certamente luta emocionalmente, o que é de alguma forma esperado dado que ela sofreu abuso físico. O que era ainda mais desolador de se ver era como esta mulher era evitada nos círculos ativistas quando ela tentava falar sobre seu abuso ou quando se referia a ele. Alguns disseram a ela para ultrapassá-lo, ou para se focar em “verdadeiros” homens babacas tais como proeminentes figuras políticas. Outros disseram a ela para não deixar “problemas pessoais” interferirem na “realização do trabalho”.

Eu lutei com a recuperação de minha amiga também. Como sobrevivente de abuso, era difícil encontrar uma mulher que de certa forma era um espectro de mim. Eu procurava ela e ela volta e meia me falava sobre outra briga que ela e seu namorado haviam tido. Eu me vi evitando essa mulher porque, francamente, era difícil olhar para uma mulher que me recordava muito de quem eu era há não muito tempo: uma pessoa assustada, envergonhada e desesperada que balbuciaria para qualquer pessoa disposta a ouví-la sobre o que estava acontecendo com ela. Em outras palavras, eu, como essa mulher, tinha passado pelo desespero de tentar sair de uma relação abusiva e necessitando finalmente contar às pessoas o que estava acontecendo comigo. E assim como essa mulher era tratada, a maioria das pessoas, até mesmo aqueles que eu chamava de amigos, se esquivavam de me escutar porque eles não queriam ser incomodados ou estavam lutando com suas próprias lutas emocionais.

A vergonha associada em contar às pessoas que você tem foi abusada, e como eu, ficado numa relação abusiva, é agravada pelas respostas que você obtém das pessoas. Ao invés de se solidarizarem, muitas pessoas ficaram decepcionadas comigo. Muitas vezes as pessoas me disseram que elas estavam “surpresas” em descobrir que eu havia “me envolvido com esta merda” porque diferentemente de “mulheres fracas”, eu era uma mulher “forte” e “política”. Essa resposta é completamente misógina porque ela nega quão dominante é o patriarcado e o ódio às mulheres e ao “feminino”, e ao invés disso, tenta colocar a culpa nas mulheres. Isto é, nós ignoramos que mulheres estão sendo abusadas por homens e, ao invés disso, enfatizamos o caráter das mulheres como a razão definitiva pela qual algumas são abusadas enquanto outras não “se envolvem com esta merda”.

É impossível não pensar que outras mulheres ativistas que têm sido abusadas, quer seja por homens ativistas ou não, também enfrentam dificuldades semelhantes recuperando-se do abuso. Independentemente da política de alguém, as mulheres podem ser e são abusadas. Qualquer um que se recuse a acreditar nisso, ou simplesmente não escuta às mulheres, ou não pensa sobre o que as mulheres normalmente passam. E isso só acontece por hostilidade das pessoas em reconhecer quão pervasivos e normalizados são o patriarcado e a misoginia – tanto fora quanto dentro de círculos ativistas.

Mais, várias de nós queremos acreditar que homens ativistas são diferentes de nossos pais, irmãos, antigos namorados e machos estranhos com os quais nos confrontamos em nossas rotinas diárias. Nós queremos ter alguma fé que o cara que escreve um ensaio sobre sexismo e o posta em seu website não o está escrevendo somente para fazer uma boa imagem de sí mesmo, obter sexo, ou encobrir algumas de suas perigosas práticas com relação às mulheres. Nós queremos acreditar que as mulheres estão sendo respeitadas por suas habilidades, energia e comprometimento político e não estão sendo solicitadas a fazer algo porque elas são vistas como “exploráveis” e “abusáveis” por homens ativistas.

Nós queremos acreditar que, se um homem ativista fez um avanço indevido ou fisicamente/sexualmente agrediu uma mulher ativista, isso seria prontamente e atenciosamente lidado por organizações e comunidades políticas – e com a contribuição da vítima. Nós queremos acreditar que grupos ativistas não são tão facilmente seduzidos pelas habilidades ou pelo “poder nomeado” que um ativista masculino traz a um projeto ao ponto de estarem dispostos a deixar uma mulher ser abusada ou não se importarem com sua recuperação. E nós gostaríamos de pensar que “a segurança” em círculos ativistas não somente foca nas questões de listas de grupos na internet ou em usar nomes falsos em assembléias, mas que de fato inclui pensar proativamente sobre como lidar com a misoginia, o patriarcado e o heterossexismo tanto fora quanto dentro de cenários ativistas.

Mas todos esses desejos, todos esses sonhos obviamente não tendem a ser abordados. Em vez disso, eu sei de homens ativistas que trollam espaços políticos como predadores procurando por mulheres que eles possam manipular politicamente ou “transar sem ter que dar explicação”. Como padres abusivos, alguns desses homens literalmente movem-se de cidade em cidade procurando se divertir e encontrar carne fresca no meio daqueles que não são familiares com sua reputação. E eu tenho visto mulheres ativistas se dedicarem a homens ativistas (que frequentemente ficam com o crédito) na esperança de que o homem ativista abusivo irá finalmente se dar conta disso ou a apreciará enquanto ser humano.

Enquanto o romance entre ativistas é aprazível, eu acho nojento como homens ativistas usam o romance para controlar as mulheres politicamente e manter as mulheres emocionalmente comprometidas em ajudar esses homens politicamente, mesmo quando essas políticas são piegas ou problemáticas. Ou, em alguns casos, homens ativistas se envolvem com política para encontrar mulheres que eles possam envolver em relações abusivas e de controle.

E dado que o abuso traz à tona o pior da vítima, eu tenho visto que mulheres interagem com outras ativistas (particularmente mulheres) de maneiras que elas normalmente não fariam se elas não estivessem sendo politicamente e emocionalmente manipuladas por homens. Por exemplo, eu sei de mulheres ativistas abusadas que têm espalhado rumores sobre outras mulheres ativistas ou têm-se envolvido em brigas políticas entre seu namorado e outros ativistas.

O que é assustador é que eu sei de ativistas homens que estavam abusando e manipulando de mulheres ativistas ao mesmo tempo que escreviam ensaios sobre sexismo ou sobre competição entre mulheres. Às vezes o homem ativista irá redigir o ensaio com sua amiga ativista de forma a obter mais legitimidade. Eu sei de homens ativistas que numa hora citam Bell Hooks, Gloria Anzaldúa ou outras escritoras feministas e noutra estão perseguindo ou espalhando mentiras e fofocas sobre uma amiga ativista.E de homens ativistas que irão ensinar mulheres a serem menos competitivas com outras mulheres para dissimular seu comportamento abusivo e manipulador.

O que é mais desolador é o apoio que homens ativistas abusivos encontram de outros/as ativistas, homens ou mulheres, mas mais habitualmente de outros homens.As mulheres ativistas não só têm de confrontar e lidar com seu agressor em círculos ativistas, mas com uma comunidade política que se designa comprometida mas que no final das contas não dá importância alguma sobre a segurança emocional e física da vítima. Em muitas ocasiões eu tenho ouvido as histórias das mulheres sobre abuso serem recontadas e reformuladas por homens ativistas de uma maneira hostil e sexista. E quando eles remodelam essa história, eles geralmente o fazem naquela voz, aquela voz falsa, acusatória e zombeteira.

Por exemplo, quando eu estava dividindo com um homem ativista minhas preocupações sobre como uma mulher ativista estava sendo tratada por um homem ativista que mantinha uma posição proeminente em um grupo político, o homem “ouvindo” a minha história disse naquela voz “Oh, ela só está provavelmente brava porque ele começou a namorar outra pessoa” e passou a tirar sarro dela. Ele continuou a me dizer que, enquanto ele “reconhecia” que o homem estava errado, que cabe a mulher impor-se ao homem se ela quer que o tratamento pare.

Infelizmente essa característica de misoginia deste homem disfarçada como homem feminista é muito comum em círculos ativistas dado que muitos homens em geral acreditam que mulheres são abusadas porque elas são fracas ou que no fundo querem ter relacionamentos com homens abusivos. Mais, os comentários deste homem revelaram uma atitude que acredita que se mulheres ativistas têm problemas com homens ativistas, elas “denunciam o abuso” para encobrir desejos sexuais ocultos e raiva por terem sido rejeitadas por homens que “não irão comê-las”.

Eu acho repulsivo que a segurança física e emocional de mulheres seja de pouca preocupação para homens ativistas em geral. Enquanto homens ativistas irão falar da boca para fora sobre como eles precisam ficar com suas bocas caladas quando as mulheres estão falando ou como espaços somente de mulheres são necessários, muito frequentemente pessoas “críticas” e “políticas” não querem confrontar o fato de que as mulheres estão sendo abusadas por homens ativistas em nossos círculos.

Quando essa questão é “abordada”, mais frequentemente do que não, a atenção será dada a “batalhar com” o homem (ou seja, deixando-o permanecer e talvez só fofocando sobre ele). Eu tenho visto algumas situações onde homens abusivos são adotados, por assim dizer, por outros ativistas, que vêem a reabilitação do homem como parte de seus projetos mas que praticamente não pensam sobre o que isso significa para as mulheres que estão tentando se recuperar. Em alguns casos, o homem ativista abusador foi adotado enquanto a mulher foi rejeitada como “instável”, “louca” ou “muito sentimental”. Basicamente, esses grupos iriam antes ajudar um cara frio e calculista que pode “mantê-los unidos” enquanto ele abusa de mulheres ao invés de lidar com a realidade de que o abuso pode contribuir para as dificuldades emocionais e sociais das vítimas enquanto elas se esforçam para se tornarem sobreviventes.

E em alguns casos, mulheres ativistas irão evitar de ir à polícia porque elas criticam o complexo industrial penitenciário, mas também porque outros homens ativistas irão dizer-lhes que elas estão “contribuindo para o problema” ao “conduzirem o Estado para dentro”. Mas na maioria dos casos, o homem ativista não é castigado pelos problemas que ele criou. Deste modo, as mulheres estão presas tendo que descobrir como garantir sua segurança sem serem rotuladas como “traidoras” por seus colegas ativistas.

Enquanto acredito fortemente que nós devemos tentar trabalhar pela reabilitação ao invés da punição em si, eu estou dolorosamente consciente que nós frequentemente damos mais ênfase em ajudar homens a permanecerem em círculos ativistas do que apoiar mulheres através de suas recuperações, o que pode envolver a necessidade de ter o homem removido de nossos grupos políticos. Basicamente, o grupo irá normalmente determinar que o ativista abusador deve ser deixado a se reabilitar sem perguntar à mulher o que ela necessita do grupo para recuperar-se e ser apoiada em seu processo. Eu sei de vários exemplos em que mulheres foram forçadas a tolerar a indisposição do grupo ao se referirem ao abuso. Algumas irão permanecer envolvidas em organizações porque elas acreditam na causa e porque francamente, há poucos espaços para ir, se houverem, onde ela não sofra o risco de ser abusada por outro ativista ou que o abuso que sofreu não seja desconsiderado. Outras irão simplesmente deixar o grupo.

Eu tenho visto como essas mulheres são tratadas por outros/as ativistas – homens e mulheres – que tratam mulheres friamente ou fofocam que elas são egoístas ou traidoras por deixarem o lado pessoal interferir na “causa”. Ou quando mulheres ativistas que foram abusadas são “apoiadas”, é usualmente porque ela é considerada “eficiente” ou porque desconsiderar o abuso será “ruim para o grupo”. Nesse sentido, a saúde física, emocional e espiritual da mulher é ainda sacrificada. Em vez disso, o abuso sofrido deve ser levado em conta porque se ele não for, ela pode “parar de contribuir com o grupo” ou pode haver muita tensão no mesmo para que ele funcione de forma eficiente. De qualquer forma, a segurança das mulheres não é vista como digna de preocupação em si mesma.

Em geral, cenários ativistas não são um espaço seguro para mulheres porque nele circulam homens misóginos e abusivos. Além disso, muitos desses abusadores usam a linguagem, ferramentas de ativismo e apoio de outros ativistas como meio de abusar de mulheres e esconder seus comportamentos. E infelizmente, em muitos círculos políticos, independentemente de quanto nós falemos sobre o patriarcado ou misoginia, mulheres são sacrificadas de forma a manter a “causa” ou salvar a organização. Talvez seja tempo de nós realmente nos importarmos com o fato de que as mulheres ativistas estão vulneráveis a serem manipuladas e abusadas por homens ativistas e considerar que abordar isso proativamente é uma parte integral da “causa” pela qual ativistas devem lutar.

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O Machismo Também Saiu às Ruas

Nos protestos pelo Brasil pudemos observar que o machismo também “saiu às ruas”. É importante ressaltar isso, principalmente porque o machismo é sempre abrandado, quando não negado, e historicamente ignorado devido a “coisas mais importantes para se resolver ou para se focar”.

Desta vez porém, referente aos protestos, observamos e denunciamos o sentimento ufanista, a necessidade desesperada de caracterizar o movimento como pacifista, a violência perpetuada contra pixadorxs, a perseguição de manifestantes alcunhadxs como vândalxs, a tentativa de cooptação da direita, a infiltração de neonazis e da própria polícia, entre outras questões.

Nada menos do que imprescindível nos atermos sobre questões que sim, não tenham impedido os protestos de continuarem, mas que incomodaram uma grande parcela de manifestantes, principalmente mulheres e que podem sim terem impedido algumas de continuarem participando. Geralmente em eventos públicos, com aglomeração de pessoas, a gente vê manifestações de racismo, machismo e heterossexismo, e normalmente as pessoas ficam caladas. Tais preconceitos não acontecem apenas em eventos e aglomerações obviamente, diariamente nos deparamos com situações machistas, racistas e heterossexistas e nem sempre temos na ponta da língua uma resposta, ou não dispomos de energia, ou “presença de espírito” para respondermos, ou simplesmente percebemos outras problemáticas implícitas numa possível explicação. Além do que, estes preconceitos são reproduzidos de forma sistemática e normalizada, o que dificulta tentativas de diálogo que são tratadas com hostilidade, descartando que hostil é a manifestação do preconceito em primeiro lugar.

De certa forma poderia ser mais fácil confrontar preconceitos em situações similares a protestos como este, onde é trazido à tona as desigualdades, já que existe um terreno propício ao questionamento. Mas parece não ser tão fácil assim.

Os protestos estão dizendo que não aguentamos mais as desigualdades sociais e de classes, e que estamos dispostxs a lutar por demandas que nos são importantes e necessárias para nossas vidas e para a sobrevivência de vários grupos. Desta forma precisamos dar atenção para não oprimirmos outros grupos que sofrem outras opressões.

Durante estes protestos surgiram cartazes e gritos machistas, como os referentes a Dilma não enquanto presidente, mas enquanto mulher, como no cartaz que dizia: “de quantas mulheres precisa pro Brasil afundar? Di(u)ma.” Piadas como esta, estão carregadas de misoginia mas são encaradas com naturalidade, e fazem “todo mundo” rir. Exceto a quem ela atinge, como são as piadas de negrxs e de “viado” ou “sapatão” em que as pessoas dizem “não sou racista/homofóbico mas escuta essa!”

Ouvi em diferentes momentos mulheres serem chamadas de vadia no meio dos protestos, por não corresponderem ao esperado delas. Argumentei com estas pessoas que não fazia sentido elas se referirem assim àquelas mulheres e recebi de volta comentários de desprezo também por eu ser mulher.

É importante combatermos as opressões, incorporando como ação importante nas nossas lutas e no nosso cotidiano, até que o machismo, a misoginia e o preconceito encontrem resistência, e passem a não ser mais uma normalidade.

enila dor

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A Questão Feminina em Nossos Meios – Lucia Sanchez Saornil

O texto que segue é de Lucia Sanchez Saornil da organização Mujeres Libres da Espanha. A organização surgiu em 1936 na época da Revolução Espanhola, também contada como Guerra Civil Espanhola. O texto é um trecho de uma discussão entre Lucia e o secretário da CNT Mariano R. Vasquez que foi publicada no jornal Solidaridad Obrera em 1935.  O texto nos parece oportuno e ainda atual pois critica o pensamento científico da maternidade como característica definidora da mulher, ditando suas funções dentro da sociedade, e relata o machismo no meio anarquista da época.  Sentimos uma grande afinidade com o pensamento de Lucia, pois hoje ainda enfrentamos as mesmas dificuldades.

“Na atualidade, está socialmente questionada a teoria da inferioridade intelectual feminina ; um número considerável de mulheres de todas as condições sociais demonstrou praticamente a falsidade do dogma, poderíamos dizer, revelando a excelente qualidade de suas aptidões, em todos os ramos da atividade humana. Apenas nas camadas sócias inferiores onde a cultura penetra mais lentamente pode sustentar-se, ainda, uma crença tão perniciosa.

Quando, porém, o campo parecia limpo, um novo dogma, este com garantias científicas, aparentes, obstaculizou o caminho da mulher, levantando novos obstáculos à sua passagem; e é de tal qualidade que, por um momento, deve tê-la deixado pensativa.

Frente ao dogma da inferioridade intelectual da mulher, levantou-se o da diferenciação sexual. Já não se discute como no século passado, se a mulher é superior ou inferior; afirma-se que é diferente. Já não se trata de um cérebro de maior ou menor peso ou volume, mas de uns corpinhos esponjosos, chamados glândulas de secreção, que imprimem um caráter peculiar à criatura, determinando seu sexo e com este, suas atividades no campo social.

Nada tenho a objetar a esta teoria em seu aspecto fisiológico, mas sim às conclusões que se pretendem extrair da mesma. Que a mulher é diferente? De acordo. Embora talvez essa diversidade não se deva tanto à natureza, como ao meio ambiente em que se desenvolveu. É curioso que, quando se extraíam tantas conseqüências da teoria do meio na evolução das espécies, esta seja completamente esquecida quando se trata da mulher. Considera-se a mulher atual como um tipo acabado, sem levar-se em conta que não é mais do que o produto de um meio permanentemente coativo e é quase certo que, restabelecidas no possível as condições primárias, o tipo se modificaria ostensivamente, burlando, talvez, as teorias da ciência que pretendem defini-la.

Pela teoria da diferenciação, a mulher não é mais do que uma matriz tirânica que exerce suas influências obscuras até os últimos recantos do cérebro; toda vida psíquica da mulher é subordinada a um processo biológico, e tal processo biológico não é outro que o da gestação. “Nascer, sofrer, morrer”, dissemos num artigo anterior. A ciência veio modificar os termos, sem alterar a essência desse axioma: “Nascer, gestar, morrer”. E aí está todo o horizonte feminino.

É claro que se tentou cobrir essas conclusões com douradas nuvens apoteóticas. “A missão da mulher é a mais culta e sublime da natureza”, dizem; “ela é a mãe, a orientadora, a educadora da humanidade futura”. E, no entanto, fala-se em dirigir todos os seus passos, toda a sua vida, toda a sua educação para esse único fim; único ao que parece, em perfeita harmonia com sua natureza.

E novamente vemos, frente a frente, o conceito de mulher e o de mãe. Porque resulta que os sábios não descobriram nenhum mediterrâneo; em todas as idades, têm-se praticado a exaltação mística da maternidade; antes exaltava-se a mãe prolífica, parideira de heróis, de santos, de redentores ou tiranos; de agora em diante, exaltar-se-á a mãe eugênica, engendradora, gestadora, parideira perfeita; antes a agora, todos esforços são convergentes para manter em pé a brutal afirmação de Okén que citava outro dia: “A mulher não é o fim, mas o meio da natureza; o único fim e objeto é o homem”.

Eu disse que tínhamos novamente os conceitos de mulher e de mãe frente a frente, e disse mal; agora temos algo ainda pior: o conceito de mãe absorvendo o de mulher, a função anulando o indivíduo.

Dir-se-ia que no transcorrer dos séculos, o mundo masculino tem oscilado, frente à mulher, entre dois conceitos extremos: da prostituta à mãe, do abjeto ao sublime, sem deter-se no estritamente humano: a mulher. A mulher como indivíduo racional, pensante e autônomo. Se procurarmos a mulher nas sociedades primitivas, apenas encontraremos a mãe do guerreiro, exaltadora do valor e da força. Se a procurarmos na sociedade romana, apenas encontraremos a matrona prolífica que supre a República com cidadãos. Se a procurarmos na sociedade cristã encontra-la-emos já convertida em mãe de Deus.

A mãe é o produto da reação masculina frente à prostituta, que é para ele toda mulher. É a deificação da matriz que o abrigou.

Contudo – e ninguém deve escandalizar-se pois estamos entre anarquistas e nosso compromisso primordial é restabelecer as coisas em seus verdadeiros termos, derrubar todos os falsos conceitos, por mais prestigiados que sejam – , a mãe como valor social não deixou de ser, até o momento, a manifestação de um instinto, um instinto tanto mais agudo quanto a vida da mulher só girou em torno dele durante anos; porém, instinto, afinal; apenas, em algumas mulheres superiores, alcançou a categoria de sentimento.

A mulher, em troca, é o indivíduo, o ser pensante, a entidade superior. Em nome da mãe, quer-se excluir a mulher, quando se pode ter mulher e mãe, porque a mulher não exclui nunca a mãe.

Desdenha-se a mulher como valor determinante na sociedade, dando-lhe a qualidade de valor passivo. Desdenha-se o aporte direto de uma mulher inteligente por um filho talvez inepto. Repito que há que se restabelecerem as coisas em seus verdadeiros termos. Que as mulheres seja mulheres antes de tudo; somente sendo mulheres e que se terão as mães de se necessita.

O que verdadeiramente me assusta é que companheiros que se chamam de anarquistas, alucinados, talvez, pelo princípio científico sobre o qual se pretende estar assentado o novo dogma sejam capazes de sustentá-lo. Frente a eles, assusta-me essa dúvida: se são anarquistas, não são sinceros; se são sinceros, não são anarquistas.

Na teoria da diferenciação, a mãe é o equivalente do trabalhador. Para um anarquista, antes que o trabalhador, está o homem, antes que a mãe, deve estar a mulher (falo em sentido genérico). Porque para um anarquista, antes de tudo e acima de tudo, está o indivíduo.”

Extraído de Mujeres Libres da Espanha: Documentos da Revolução Espanhola : Editora Achiamé, 2007; Rago, Margareth; Biajoli, Maria Clara Pivato.

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Solidariedade à Paula

É com muita revolta que recebemos ontem a notícia da agressão à Paula por parte de Gustavo. Não conhecemos a Paula, mas o simples fato dela ser uma mulher que sofreu uma agressão nos faz sentir como se a conhecêssemos, e nos faz querer nos solidarizar e fazer de sua denúncia a nossa.  Soma-se a isso o fato de ela se proclamar uma libertária do mesmo meio e subcultura que é nossa luta, nossa casa. Já o Gustavo conhecemos, a última vez que o vimos foi na 2º Feira Feira do Livro Anarquista de POA, no ano passado. Gustavo propôs um bate papo na programação da feira e tocou com a banda Nieu Dieu Nieu Maitre da qual faz parte. Antes disso já havíamos tocado em gigs juntxs e ele esteve presente na okupa N4 onde morávamos. Ao saber desta agressão nos sentimos muito tristes e decepcionados com a atitude do Gustavo. É muito difícil descobrir que um amigo ou alguém próximo cometeu violência contra uma mulher, também porque simplesmente é difícil virar a cara para um amigo. Mas é insustentável para nós como anarcofeministas ficarmos caladxs diante desta denúncia.

A agressão cometida por Gustavo, sofrida por Paula, nos mostra mais uma vez que o machismo permeia mesmo dentro da cena libertária/punk, que se propõe a combater isso. Não é nenhuma novidade que nos deparamos com atitudes machistas dentro da cena, e nem que estas atitudes ficam impunes. Não é nenhuma novidade que os caras se valham do privilégio masculino e de sua influência, seja por tocarem numa banda, seja por engajamento político. E quantas vezes a culpa recai sobre as mulheres agredidas que geralmente tem menos voz na cena? Isso se dá porque infelizmente ainda não somos capazes de parar de reproduzir o machismo que acontece na sociedade. O fato das mulheres terem menos voz é reflexo do patriarcado e o fato de serem culpadas das agressões que sofrem, também.

Nos revolta ler no relato de Paula, como coisas nas quais acreditamos e pelas quais lutamos podem ser usadas para envolver e ludibriar outras pessoas principalmente numa lógica de gênero machista. É angustiante vermos pessoas ditas anarquistas se esconderem atrás de teorias. E tem sido muito comum vermos pessoas usarem do amor livre como pretexto para manipularem outras pessoas, ao mesmo tempo que não desconstroem sentimentos de possessão e ciúmes criando intrigas, inimizades e dinâmicas de poder.

A solidariedade é toda à Paula indiscutivelmente, o seu relato não pode ser desacreditado e cabe a comunidade libertária/punk abrigá-la. A Paula precisa de apoio, credibilidade e compreensão enquanto Gustavo precisa reconhecer a agressão que perpetrou para que ele perceba o que fez e não cometa o mesmo com outras mulheres/meninas. É muito comum agressores não admitirem que agrediram e que foram abusivos, sendo isso também uma violência.

Inúmeras vezes em casos semelhantes, as mulheres se afastam da cena porque os agressores ali circulam sem maiores problemas, fazendo com que elas se sintam constrangidas e intimidadas. Como comunidade anarquista/punk temos que focar no debate feminista e de gênero para prevenir estas agressões e trabalhar criando espaços seguros, e que promovam o apoio e o empoderamento das vítimas/sobreviventes.

Não nos satisfazemos com as propostas que se polarizam entre o silencio e a omissão ou o linchamento. No entanto, acreditamos que cabe a vítima tomar as decisões de como lidar com o agressor e a nós cabe apoiar ela e suas decisões.

A violência contra uma é violência contra todas!

açãoantisexista//
ferida//
no rest//

07/10/2012

leia o relato da Paula http://bastademachismo.blogspot.com.br/2012/10/venho-atraves-desta-carta-de-repudio.html

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