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Posts tagged ‘misoginia’

Áustria – Vendida a casa onde José Fritzl torturou e estuprou a filha para um proprietário de uma “casa noturna”.

Essa notícia é muito perturbadora. Toda essa história é muito perturbadora. Um pai que manteve a filha em cativeiro estuprando-a repetidamente por 24 anos. 24 anos. Como se não bastasse os estupros e a privação, Elisabeth a vítima (sua filha), teve sete filhos decorrentes dos estupros, dos quais três (com 5, 18 e 19 anos) nunca haviam visto a luz do dia até serem resgatados em 2008.
Agora um dono de um “strip club” comprou a casa por 160.000 euros. É como um filme de terror, é como uma risada bem grande na nossa cara, no sofrimento das mulheres. O ódio às mulheres tanto não tem limites quanto é negligenciado. Eu sempre considero relevante lembrar que o patriarcado antecede ao capitalismo, porém eu também sei que o capitalismo e o patriarcado andam juntos e se sustentam entre si. A compra desta casa é uma ‘jogada de marketing’, e o mais incrível é que associa a exploração das mulheres com estupro e incesto como propaganda, nem se preocupa em negar e defender que “os clientes compram um serviço como qualquer outro”, como costumam dizer. Eu vejo assim pelo menos, pra mim tá bastante claro. Me perturba demais esta notícia, mexe com alguma coisa dentro de mim, um absolutamente medo do que tudo isso possa causar um “incremento” no abuso, exploração, sofrimento, na vida dessas mulheres. Porque a fantasia masculina está sempre garantida e impulsiona e gera o que os liberais chamam de “trabalho sexual”, em detrimento ao mal-estar, a insegurança, a vulnerabilidade, a exploração das mulheres, as desiguais oportunidades e a violência contra a mulher.

link da notícia:
http://metro.co.uk/2016/12/07/house-where-josef-fritzl-tortured-and-raped-daughter-sold-to-strip-club-owner-6306260/

* essa notícia veio no meu feed de notícias no fb através da página “Wipeout Misoginy”. Agora a Ação Antisexista tem pagina no fb também. Confere lá, curte e apoie!

Violência Masculina – uma reflexão após mais um feminicídio

Quantas mulheres ainda precisam ser assassinadas pelos seus (ex) maridos, (ex) namorados, (ex) amantes ou mesmo pretendentes para que sejamos ouvidas e garantirmos nossa sobrevivência? O que precisa para que as denúncias de mulheres contra seus abusadores sejam tratadas com seriedade?

A misoginia mata. A misoginia é combustível para o feminicídio. Mas para o feminicídio ainda se encontram justificativas e culpabilização da vítima. As mulheres são incessantemente questionadas sobre onde foi que erraram, o que fizeram ou deixaram de fazer. As mulheres lutam sozinhas, cada uma na sua ilha, contra todo um sistema que ataca a sua integridade ao mesmo tempo que a responsabiliza pelas violências sofridas. Mas para que exista uma violência sofrida existe uma violência cometida. A vítima de feminicídio não pode ser seu próprio algoz. A violência dos homens contra as mulheres só pode se manter numa sociedade patriarcal, que gera a violência e se alimenta dela para seguir existindo. Essa é a verdade cruel do patriarcado. Para que os homens continuem com o domínio nas suas mãos é necessário que o bem-estar das mulheres seja ignorado ou negado.

A violência misógina pode se manifestar para qualquer mulher, mulher estranha, mulher próxima. O grau maior de intimidade não garante segurança às mulheres, pelo contrário, o risco de uma mulher sofrer violência é proporcional a proximidade dela com homens. Esta constatação causa desconforto, eu sei, porém esse desconforto não pode prevalecer a integridade das mulheres, não pode ser mais importante e urgente do que garantir às mulheres sua existência.

Negar isso acaba por contribuir em perpetuar o feminicídio, pois cria-se uma falsa realidade de que o âmbito doméstico ou privado é seguro e confortável (porque sim, deveria ser). Essa falsa realidade pode se refletir no próprio comportamento das mulheres, que acabam igualmente introduzindo pra si a ideia de que aquele comportamento agressivo do seu parceiro pode não ser tão perigoso assim. Porém é um verdadeiro conflito interior, porque quando uma mulher sofre algum tipo de violência no âmbito privado ela mais do que ninguém sente na pele sua sobrevivência ou bem-estar ameaçados. Ela sabe. Não a subestime. Porém estamos dizendo a ela que é um problema que ela tem que resolver sozinha, como se não fosse um problema político, como se não fosse consequência do sistema patriarcal e da misoginia inerente a ele. Como se fosse um problema pessoal, o que geralmente leva a crer que ela é o problema. Nestas circunstâncias as mulheres permanecem na situação de risco porque não encontram saída, seus receios e suas experiências são desprezados e elas não tem a quem recorrer se não a si mesmas, e torcer para que o pior desfecho seja uma coisa que só existe na página do jornal.

Isamara Filier não pode mais falar e muito provavelmente não foi ouvida enquanto viva. Não nos parece agora “à toa” que Isamara lutou para obter a guarda do filho e garantir que o feminicida Sidnei Ramis de Araújo se mantivesse distante. Ela lutou com o que pode, e mesmo assim não foi suficiente, porque a violência masculina está na estrutura patriarcal e não sofre restrições nem barreiras. E mesmo que agora nos pareça obvio dos seus motivos para manter o ex marido distante, existe apoio de uma parte da sociedade ao feminicida, o que nos mostra a verdadeira face do patriarcado – o desprezo e ódio pelas mulheres e consequentemente pelo nosso bem-estar.

O senso de direito de Sidnei Ramis de cometer seu crime foi tão grande que ele é ainda o único que pode ser ouvido através da carta que deixou. Ele matou Isamara, o filho e outras dez pessoas, na maioria mulheres, sem lhes dar nenhuma chance de reagir e lhes calando para todo sempre.

Na luta pela libertação das mulheres é nossa responsabilidade não deixar as mulheres lutando sozinhas pela sua sobrevivência e bem-estar. Nós tampouco devemos culpabilizar as mulheres por se relacionarem com homens. A culpabilização das mulheres pelas violências que sofrem sempre foi e continua sendo uma poderosa ferramenta para justificar e desculpar a violência masculina.

aline rod.

Resistência Feminista – um breve “insight”

Uma sensação indescritível acontece quando ao observar uma mulher você gosta dela pelas mesmas razões que você a criticaria antes na sua vida. Quando você percebe que essa sensação acontece com você, é porque você conseguiu curar várias mazelas que foram bombardeadas e introduzidas de formas extremamente opressivas e mal intencionadas durante toda a sua vida. E você sente um gostinho de vitória ao confrontar todas expectativas dos manipuladores, que fizeram de tudo para te manter domesticada em benefício deles. Não conseguiram.

matrix.

aline rod.

Esperança nas Mulheres

Primeiro me trataram diferente.
Eu segui com a esperança que só é possível uma criança ter.

Depois foram trabalhando em minar minha autoestima.
Eu segui com a confiança abalada mas segui.

Logo mais percebi que minha segurança e integridade estavam em risco.
Eu segui desconfiada e mudei minha percepção das coisas mas segui.

Então sofri o primeiro abuso. O segundo e os que mais se sucederam. A violência e a humilhação que as mulheres sofrem por terem nascido mulheres. Porque existe uma cultura de ódio às mulheres. E eu segui já com meu coração apertado e meu sono interrompido.

Em constante estado de alerta.

Minha esperança mudou de parâmetro, já não era mais na humanidade, minha esperança passou de acreditar nas pessoas para lutar pelas mulheres. Na esperança de que um dia nos libertaremos.

Então passaram a me dizer que eu estava muito focada no “meu problema”. Mas não é “um problema”. Nem meu. O nome disso não é “problema”, é patriarcado – dominação exercida pelos homens – que oprime e explora as mulheres. A dominação masculina beneficia apenas os homens. Quer eles queiram, quer não.

Apesar de que deste homem que não quer, que acredita não querer, não nos é possível saber realmente o quanto ele não quer o benefício. Porque ele fala de um ponto de vista onde lhe é tudo garantido.

aline rod.

Nota Pública sobre a violência policial ocorrida durante a 1a Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre

Somos um coletivo de pessoas que se formou através de afetos, amizades, afinidades e momentos e vivências antes, durante e depois da I Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre (I FLIFEA POA). A feira tinha como seu principal objetivo a troca de materiais, de vivências e de experiências que pudessem debater coletivamente a respeito dos feminismos e da autonomia das mulheres frente às instituições e em relação a seus corpos. Esse objetivo estava se concretizando ao longo de dois dias de atividades, nos quais nos fortalecemos entre todas, conversamos, aprendemos, rimos e novas ideias puderam surgir a partir do encontro. Até que, juntas, muitas de nós sofreram a violência policial da noite de primeiro de novembro de 2015. Entre as agredidas estavam presentes algumas das que compunham a organização da FLIFEA, mas não só. A partir dos últimos acontecimentos vivemos uma nova forma de autogestão da experiência compartilhada onde “a organização da feira” se dissolve na nova coletividade que escreve este texto, composta por aquelas que foram diretamente afetadas pela repressão vivida na noite de domingo.

Dito isso, nos manifestamos através desta nota pública no blog da I FLIFEA POA, da maneira combinada entre nós como única manifestação pública do grupo mencionado acima. De acordo com isso, nenhuma de nós concedeu e nem concederá entrevista a qualquer veículo de comunicação e, embora estejamos recebendo assistência jurídica de advogadas feministas de maneira voluntária, elas também não nos representam frente à mídia. Também é importante apontar que não organizamos ou marchamos sozinhas no ato do dia dois de novembro de 2015, mas contamos com o apoio espontâneo de muitas pessoas que se sensibilizaram com nossa situação, e não tivemos relação alguma com o ato do dia seguinte, dia três de novembro de 2015. Nos fortalece muito e agradecemos o apoio das pessoas e organizações que estão se mobilizando autonomamente em relação ao ocorrido e nos comove a grande rede de solidariedade criada; no entanto, nos parece importante estabelecer que essa rede extrapola nossa dimensão organizativa e, portanto, não é possível nos responsabilizar pela totalidade dos eventos disparados pelo episódio. A quem resiste em solidariedade conosco, pedimos cuidado para não falarem em nosso nome, e, ainda, pedimos o respeito para não fazer o uso desse fato para apropriação em relação a agendas políticas partidárias, tampouco individuais.

Entendemos que a situação de agressão policial pela qual passamos se insere num contexto social de mobilização frente aos retrocessos que têm acontecido nas políticas para mulheres e ao crescimento do conservadorismo patriarcal no debate público sobre os direitos já conquistados e ainda por conquistar por mulheres e outros grupos minoritários. Tanto nos debates de políticas institucionais, quanto nos espaços de formação de opinião como redes sociais, diversas pautas feministas estão sendo mobilizadas neste momento, como os assédios cotidianos que vivemos desde a infância , nossa autonomia para decidir sobre nossos corpos, a violência vivida em espaços domésticos e a possibilidade de que as mulheres falem por si mesmas. Ao mesmo tempo, percebemos que a repressão que vivemos no último domingo gera comoção por diferentes motivos, que queremos apontar. Primeiro, a brutal violência por parte de policiais, homens, exercida contra mulheres, fazendo uso abusivo de autoridade através de aparatos de força (cacetetes foram usados e armas foram apontadas contra nossos corpos desarmados), evidencia a lógica militarizada e misógina que pauta a atuação dessa corporação. O ocorrido conosco também contribuiu para o reconhecimento das violências cotidianas que as mulheres sofrem, mobilizando aquelas pessoas que já trabalham para combater as causas dessas violências, e também sensibilizando aquelas que vivem ou já viveram essa realidade em suas vidas. Finalmente, consideramos que também foi notável o fato de estarmos nos propondo a construir um debate sobre feminismos num evento cultural no qual nossa arma era a construção de ideias políticas e de cumplicidade, e desse processo ter sido brutalmente atropeladas pela agressão policial.

Porém, queremos frisar questões importantes que contribuíram para a comoção que este fato gerou. Percebemos que isto se deu principalmente pela agressão ter ocorrido em um bairro central da cidade, com mulheres majoritariamente brancas, militantes feministas, muitas delas universitárias. Esses marcadores da nossa posição social foram o que tornou possível que uma agressão policial tenha se tornado um fato político desta dimensão e reflete o privilégio que temos em relação a tantos outros casos invisibilizados pela mídia, como a luta daquelas que se mobilizam contra a violência policial no país (pessoas negras,transperiféricascamponesasindígenasem situação de ruaem situacão de prostituicão.) Por isso, temos a responsabilidade de lembrar que enquanto esse é, para muitas de nós,um fato eventual em nossas vidas, para muitas outras, faz parte de um cotidiano marcado pela violência policial – entre tantas outras -, nas quais as ameaças de morte são de fato cumpridas. Sabemos que isso acontece porque, em nossa sociedade, há uma valorização diferenciada das vidas e da dignidade das pessoas, na qual existem vidas que valem mais que outras, vidas que merecem ser vividas,enquanto outras são lidas como descartáveis, principalmente pelo Estado que se utiliza de seu braço armado para agir de maneira violenta de diversas formas. Esse comportamento policial que acontece cotidianamente em contextos periféricos que promove o genocídio da população negra pôde ser observado durante o ocorrido na noite de domingo, uma vez que foi evidente que o alvo escolhido para a primeira investida física foi uma das poucas mulheres negras que estavam presentes naquele momento, confirmando as práticas e o caráter racista da instituição.

A repercussão da violência policial que sofremos nos afetou de diversas formas. Temos nos sentido coagidas a proceder de uma maneira específica dentro do sistema legal para comprovar a legitimidade de nosso relato publicamente. Vemos alguns procedimentos legais dentro disso como violentos para nós, mas também entendemos a necessidade de fazer o uso desses canais de denúncia, mesmo sabendo das suas limitações. Reivindicamos, outra vez, que sejam respeitadas nossa temporalidade e nossa liberdade de decidir como conduziremos a situação. Queremos pontuar, no entanto, que o que torna um fato publicamente legítimo não precisam ser apenas os procederes da lei que o Estado proporciona (e que muitas vezes vulnerabiliza e expõe as vítimas mais do que as protege) mas também a força do nosso relato, das marcas que reconhecemos nos corpos umas das outras e na nossa capacidade de articulação com uma extensa rede de solidariedade que nos tem prestado tanto apoio. Aquelas que vivem essas violências no seu cotidiano sabem da veracidade dos fatos, sabem o quanto fotos de machucados não ilustram suficientemente o que significa sofrer essas violências em todos os espaços, que é, afinal o assunto do qual queríamos tratar na intervenção teatral no dia de finadas, que estava sendo ensaiada naquela praça, quando os policiais chegaram. Essa intervenção tinha, inclusive, o propósito de denunciar e visibilizar o assassinato sistemático e constante de mulheres que ocorre pelas mãos dos homens – feminicídio -, tanto no âmbito doméstico-familiar quanto institucional, estatal e militar.
A discussão desse conceito – feminicídio – é muito recente e é resultado do exaustivo trabalho de denúncia de mulheres que se esforçam para evidenciar essa violência que costuma ser mascarada. No entanto, negamos a instituição do Estado e suas leis como a única fonte legitimadora dos fatos. Acreditamos que a construção da legitimidade pode se dar a partir de outros consensos éticos baseados na identificação mútua e em vivências compartilhadas por pessoas.

Informamos ainda que não daremos satisfação sobre as nossas movimentações no âmbito jurídico/institucional. Lembramos que mesmo juridicamente esse caso extrapola a nossa ação individual, e que outras instâncias podem se mobilizar para denunciar aspectos da (in)justiça independentemente da nossa vontade. Ainda, em relação à imprensa e à mídia, negamos a urgência de nos agendar de acordo com uma temporalidade imposta por redes sociais e outros meios de comunicação. Não podemos atropelar processos internos para atender a demandas externas, temos responsabilidades umas com as outras e, especialmente, de maneira alguma nos deixaremos pautar por uma mídia oportunista e tendenciosa. A demora para que apresentássemos informações foi argumento para o questionamento da veracidade de nosso relato. Reconhecemos essa como uma maneira de manipular fatos e indivíduos dentro de uma lógica alienante e um ritmo desumanizador de um modo de vida viciado no imediatismo. Não é essa a vida que queremos compartilhar umas com as outras e isso não nos será imposto. Essa suposta demora em responder a esses pedidos está diretamente relacionada com a necessidade que temos de nos ouvir e nos acolher nesse momento em que nos encontramos machucadas frente a situação real de agressão que passamos. Acreditamos ser cruel esse tempo midiático que transforma as feridas das pessoas em produto e audiência, e assim as violenta novamente. Estamos principalmente mobilizadas a dar um desfecho que não percorra esses caminhos e nos organizando horizontalmente de maneira a consolidar este fato como político para de fato transformar as feridas em luta.

Somos autônomas e nos organizamos a partir de práticas libertárias. Sabemos que práticas que questionam as instituições e o estado foram e são historicamente perseguidas. Por conta disso, receamos que o que aconteceu possa ter sido parte de ações politicamente motivadas por um discurso de ódio e não apenas a decorrência de uma abordagem que sucedeu mal. Frente a isso, esperamos que as expressões de solidariedade que tanto têm nos ajudado até agora se mantenham.

Precisamos, também, lembrar que desde antes mesmo da data da Feira, nossas medidas de segurança foram violadas com a criação do evento da Feira do Livro Feminista e Autônoma no facebook pela página Porto Alegre Cultura, que mesmo tendo sido avisada de que não queríamos expôr a Feira e as mulheres envolvidas na FLIFEA nesta rede, ignorou nossos protestos. Consideramos que o criador dessa página tem responsabilidade pelas ameaças que recebemos durante a Feira e pela agressão policial e, portanto, tem nosso sangue nas mãos. Fomos excessivamente expostas por esse evento contra a nossa vontade que possui quase 6 mil pessoas confirmadas e mais de 11 mil convidadas.

Por fim, agradecemos a todas que vieram prestar solidariedade nesse momento, independentemente de seu alinhamento político. O espaço da I FLIFEA POA se consolidou como um momento de rompimento com as lógicas de segregação e afastamento entre feminismos que estavam sendo vivenciadas em nossa cidade. O momento que estamos passando reforça essa ruptura; temos confiado e vivenciado o acolhimento umas das outras, nos fortalecendo tanto em nossas relações pessoais quanto políticas.
Valorizamos o engajamento daquelas que optam por lutar a partir de diferentes frentes e todas aquelas que se rebelam para não serem esmagadas por esse sistema que oprime iniciativas e (r)existências em liberdade e auto organização. Um conjunto de estratégias é mais eficiente do que qualquer uma delas isoladamente. Sabemos muito bem o que nos move.

Agradecemos àquelas mais experientes nas suas caminhadas de luta e resistência pelo apoio que vieram demonstrar. Mulheres que compartilham seus conhecimentos e saberes e possibilitam que partamos de um acúmulo para que cada geração de mulheres não precise começar do zero a cada batalha travada nessa guerra constante contra todas nós. Máximo respeito às velhas bruxas que vieram nos cuidar.

Seguiremos nas ruas fazendo arte, okupando os espaços, comunicando nossas posições e dando continuidade à luta, porque a nossa força de golpe é da mesma intensidade daquilo que vivemos. Bruxas resistem!

 

fonte:http://flifeapoa.noblogs.org/post/2015/11/06/nota-publica-sobre-a-violencia-policial-ocorrida-durante-a-1a-feira-do-livro-feminista-e-autonoma-de-porto-alegre/

 

Sobre os ‘KINGS’ – misoginia na cena Straight Edge de SP /// mais de um anos depois

Há quase um ano e meio atrás foi descoberto na cena Straight Edge de São Paulo que um grupo intitulado KINGS “compartilhava” (a exemplo da fraternidade masculina) pelo WhatsApp fotos de mulheres nuas:

“No comunicador WhatsApp forma-se um grupo composto somente por homens, denominado KINGS (REIS). Como supostos reis, eles se viram em poder de decisão perante os outros, escolhendo quais homens participariam do grupo e o conteúdo ali compartilhado. De maneira criminosa, eles expuseram mulheres em sua intimidade por meio de fotos que relatavam relações pessoais até o chamado revenge porn (pornô de vingança).”

Pelo que pesquisei me parece que vários destes KINGS continuam tocando com suas bandas e me impressiona muito ver que tocam com outras bandas em festivais que deveriam boicotar a participação destes caras, destas bandas das quais eles são membros.

Enquanto eles levam suas vidas normalmente, as mulheres se afastam dos espaços que lhes machucaram profundamente. Enquanto isso os espaços ficam cada vez mais ameaçadores para a segurança física e emocional de mulheres e meninas.

E as palavras “politizadas” que estes homens se utilizam, apenas lhes concedem mais espaço para cometerem atrocidades contra as mulheres como esta. Através de palavras, das letras de suas músicas mascaram com sucesso toda sua misoginia, todo desprezo que sentem pelas mulheres, e gozam tranquilamente de seu privilégio masculino, perpetuando ainda mais a dominação dos homens sobre as mulheres.

Um ponto importante é contextualizar que algumas bandas compostas por membros do grupo KINGS têm em seu histórico músicas pró-feministas sobre a libertação da mulher e o direito ao aborto (Direct Shot – Her Life, Her Rules) e sobre a opressão social sofrida pelas mulheres (Girl – Still x Strong). Portanto, nota-se que seus discursos são pura e rasa demagogia, já que os mesmos constroem suas imagens de homens politizados e, por isso, evoluídos, porém destroem e humilham as mulheres em espaços privados tanto quanto podem. “

Quase um ano e meio depois, vendo que os KINGS continuam circulando nos espaços e que Athos vocalista da banda DisXease está com tour marcada na Europa, coletivos feministas procuram alertar também a cena internacional.

 

Chega de passividade injusta, pois “passividade” é tomar um dos lados ativamente.

 

Leia mais sobre:

Denuncia de machismo na cena Straight Edge de São Paulo ( publicado na época, de onde tirei os dois parágrafos em aspas para compor esta postagem).

https://vimeo.com/121602758ideo  Aqui você pode ver o vídeo onde Athos na banda Inner Self dá sua opinião sobre o incidente. Você pode ver toda a arrogância masculina no seu discurso e nele a frase: “E se vc se acha porque vc colocou aquele capeta na sua camiseta e escreveu “isso é feminismo”, enfia no meio do seu cu. “  Direcionada a uma garota que usava uma camiseta com os dizeres “isso é feminismo”.

http://takepartinthisriotonlyforgirls.tumblr.com/ Carta aberta para a cena internacional feita por Girls To The Front. (em inglês)

 

Mulheres são parte da piada para a banda francesa ‘Attentat Fanfare!’

No dia 12 de janeiro passado, eu vi o show da banda francesa Atenttat Fanfare, no VL na cidade de Halle na Alemanha. O VL é uma hausprojekt, uma casa onde acontecem gigs, oficinas, encontros de grupos de esquerda e também é uma comunidade onde moram várias pessoas. Em seus princípios estão o anti racismo, o anti sexismo, a anti homofobia e a luta contra o anti semitismo.

Eu não fui propriamente para o show, mas estava na casa e acabei ficando. A banda subiu no palco. Os integrantes estavam todos fantasiados, exceto pela mulher que toca acordeon. O vocalista estava de pijamas e pantufas, e os outros integrantes vestiam outras fantasias ou acessórios ‘engraçados’. um deles estava ‘fantasiado’ de mulher. Não pude deixar de pensar que a piada era muito ruim.

Os homens sempre acham uma grande sacada se vestirem de mulher para serem engraçados e debochados. É misógino querer fazer graça com vestimentas associadas às mulheres. Enquanto para os homens pode ser uma brincadeira usar salto alto, maquiagem, etc, para a mulher é como o patriarcado nos força à feminilidade e estabelece como padrões de beleza que nos oprimem.

Apesar de eu ter críticas a esta e outras características da banda não foram estas as razões para eu escrever.

Faço aqui um relato do que se sucedeu durante o show.

No meio do show entre uma música e outra, o vocalista parou para anunciar a próxima música e começou dizendo: “eu estive no Rio no Brasil e lá as mulheres tem grandes ‘tetas’ e bundas incríveis.” E juntamente gesticulava desenhando seios e bundas grandes no ar com as mãos enquanto arregalava os olhos. Eu realmente não acreditei no ponto que chegara. Já estava bastante intragável aquela banda, mas este foi o dado mais concreto e sem nenhuma sombra de dúvida do que estava acontecendo ali. Esta frase só tem a seguinte leitura: misoginia e racismo. Falar das mulheres daquele jeito. Se referir daquela forma às mulheres brasileiras, de um país que muito provavelmente ele nunca tenha pisado, mas que se pisou também não melhora em nada.

Com esta atitude, ele mostrou sem nenhum constrangimento o seu privilégio como homem e como europeu. Ele achou muito engraçado utilizar do estereótipo que se têm – e que também se vende – da mulher brasileira. Ele não está nem aí para o que isso representa. O quanto as mulheres no Brasil são exploradas por exemplo pelo turismo sexual, que seus compatriotas, outros europeus e homens de outros países mais ricos fazem.

Ele simplesmente não sofre com a objetificação do seu corpo, ao contrário de nós mulheres que temos nossos corpos controlados pelo patriarcado e suas leis, onde nossos corpos são objetificados e vendidos em rótulos de cerveja, objetificados e violados inclusive por homens que confiamos. Onde os padrões de beleza nos oprimem e levam muitas mulheres a uma busca incansável e infrutífera pelo corpo perfeito do qual o capitalismo (além do patriarcado) se alimenta. Padrões estes que levam às mulheres, incluindo meninas muito novas, a depressão, anorexia, bulimia e outros transtornos que por si só já são muito sérios, mas que ainda podem levar à morte. Ele se coloca do degrau da misoginia, do privilégio de macho eurocentrado e racista. Ele se apresenta desta forma mesmo num local de reputação libertária e política. Porque os homens se sentem no direito de serem machistas e se beneficiam disso.

Eu reagi gritando contra o vocalista em meio ao som alto as seguintes frases: “you have no right to say what Brazilian women are! you sexist! you racist!”

Ele respondeu dizendo: “maybe I’m too drunk”.

O público seguiu dançando e eles continuaram tocando tranquilamente. E eu me retirei da sala.

Eu não quero com isso culpabilizar as pessoas que ali se encontravam pela falta de reação. Estou me atendo aos fatos, porque estes dizem bastante sobre como aconteceu e como eu me senti. E entendo que principalmente mulheres podem não se sentirem seguras para reagir. Acredito também que algumas pessoas “não viram”, não perceberam. Porém também não deixo de notar que parte deste “não ver” é por conta de que a luta contra a misoginia e o machismo não são consideradas causas legitimas. A luta das mulheres é luta de segunda ordem, para não dizer de terceira ou quinta muitas vezes na escala de hierarquia de lutas. Esta falta de reação me surpreendeu bastante neste contexto específico, diz muito sobre como patriarcado funciona e que é também dominante na cena de esquerda.

Eu posso dizer que eu notei. Eu fui atingida, nós todas as mulheres fomos atingidas pela atitude do vocalista,e por isso faço esta denúncia.

Gostaria de dizer que não sou patriota, não estava defendendo o “meu país”. Isso foi apenas coincidência, teria reagido contra ele da mesma forma se ele estivesse falando de qualquer mulher de qualquer outro lugar do planeta. O que ele fez é culpabilizar as mulheres por serem exploradas. Porque ele não falou dos homens que as exploram, das indústrias que as exploram, do sistema patriarcal. Ele estava objetificando e também debochando das mulheres que ele vê serem retratadas na mídia como enfeites de carnaval.

Porém a ofensa foi a todas as mulheres que ali estavam, quer as pessoas percebam isso ou não. E isso é misoginia.

Dizer que é “só uma piada” não é um bom argumento de defesa. Deu para perceber isso. Não melhora em absolutamente nada, apenas confirma o grau de misoginia e desrespeito pelas mulheres ao tratá-las como objeto também de chacota.

Machistas não passarão!

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Este relato está escrito já fazem uns dias e gostaria de informar que só está sendo publicado depois de eu ter colocado no offenes plenum da casa, que é uma reunião aberta à qualquer pessoa interessada em saber como a casa funciona, sugerir propostas e debater problemas como este. A casa se mostrou solidária e foi tirado nesta reunião que apoiariam minha iniciativa de relatar o ocorrido. As pessoas da casa também me falaram para avisá-las de qualquer situação sexista que ocorrer dentro dela porque não intencionam tolerar.

enilador

 

————————————————-  atualizado no dia 12.03.15

Carta de Repúdio a decisão do juiz Paulo Augusto Oliveira Irion pela soltura do estuprador Marlon Patrick Silva de Mello// Ato – Estupradores Não Passarão!

Nós, Mulheres Organizadas Combatendo a Violência Contra a Mulher, viemos por meio desta, repudiar a decisão do juiz Paulo Augusto Irion, de soltar o estuprador Marlon Patrick Silva de Mello, pego em flagrante pela polícia no dia 12 de outubro último.

Era uma noite de domingo quando a adolescente de 16 anos foi brutalmente estuprada e espancada por Rodnei Alquimedes Ferreira da Silva e Marlon Patrick na orla do Guaíba. A menina foi levada para o hospital em estado grave, inconsciente e desfigurada a ponto de dificultar seu reconhecimento por familiares.

A decisão do juiz demonstra como a violência contra a mulher é naturalizada e reforçada diariamente a tal ponto que, mesmo sendo pego em flagrante, o juiz considerou de maior valia o fato do estuprador ser réu primário, alegando que o estupro foi um caso isolado na vida de Marlon Patrick. No entanto, o fato isolado ao qual o juiz se refere não é um delito comum, mas um crime hediondo decorrente da misoginia e da cultura do estupro. É notório o quão irresponsável foi a decisão do juiz ao minimizar o crime e também a dimensão da dor da vítima, bem como as consequências na sua vida. A definição de fato isolado se aplica melhor na condenação de um estuprador.

A cultura do estupro se dá na objetificação de nós mulheres e no senso comum de que o corpo feminino é propriedade do homem. A cultura do estupro se dá na hiperssexualização de nós mulheres nas diferentes esferas sociais, e na forma monstruosa que mídia reproduz estes estereótipos. A cultura do estupro se dá na banalização do estupro, na culpabilização das vítimas que são sempre questionadas, sejam pelas roupas, pelo comportamento, ou qualquer outra justificativa que sabemos servir somente para abrandar o que não pode ser abrandado. Desta vez não foi diferente, quando vimos os jornais chamarem atenção para a aparência da vítima, ou ao fato do pai da menina declarar que a filha “estava rebelde ultimamente”, para citarmos alguns exemplos. Sabemos que estas justificativas são meios de desvalidar nossa palavra e menosprezar nossa dor.

Procurem a culpa onde ela está que vocês acharão. A culpa é do estuprador e nunca da vítima.

A decisão de soltar o estuprador expõe ainda mais a vítima, a coloca em risco e também outras mulheres, e desencoraja a denúncia por parte de todas as mulheres que sofrem abuso, enquanto incentiva a perpetuação da violência contra a mulher através da impunidade.

Esta resolução e a cobertura midiática não são exclusividades deste caso, mas o padrão pelo qual se mantém um arranjo social cruel que expõe as mulheres a violências.

Repudiamos a decisão do juiz e o consideramos incapaz de julgar crimes sexuais e de violência contra a mulher, e exigimos que a justiça ampare e proteja as vítimas negligenciadas por interpretações arbitrárias de magistrados.

A maioria dos juízes que julgam casos de estupro são homens. Questionamos se como homens sejam capazes de compreender e tratar de questão tão grave com a seriedade que nós mulheres merecemos.

 

Estupradores não passarão!

Não nos calaremos!

 

Em solidariedade a vítima,

 

Mulheres Organizadas Combatendo a Violência contra a Mulher

Porto Alegre, 22 de Outubro de 2014

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Foto do ato que aconteceu ontem na frente do Fórum central de Porto Alegre, onde o juiz Paulo Augusto Irion presidia uma audiência.

No ato foi lida a carta acima que também foi entregue no gabinete do juiz. Foram feitas falas e gritos de luta em solidariedade a vítima e a todas as mulheres sobreviventes de abuso. Foi expressado o nosso repúdio a forma como o juiz está tratando o caso: ele entendeu que o estupro foi um “caso isolado” na vida de Marlon Patrick Silva de Mello.

Várias pessoas que entravam e saíam do fórum paravam para entender e ouvir o que estava sendo dito e várias mulheres se solidarizaram ao ato e mostraram sua indignação. Fomos impedidas por seguranças do local  quando nos direcionamos na entrada da parte lateral do Fórum e a polícia foi chamada. Resistimos e continuamos nosso ato até o final.

 

 

Estupro Realidade Brutal – Mulheres São Violentadas e Silenciadas

Estupro. Violência e terrorismo que é realidade das mulheres. Não, não consegui me expressar direito. Jamais conseguiremos expressar a brutalidade de um estupro. Jamais conseguiremos através de palavras fazer jus ao que as mulheres estão passando desde sempre.

Ontem cheguei em casa e vi três notícias, uma atrás da outra. As três notícias eram:

-Duas adolescentes foram encontradas mortas enforcadas, penduradas numa árvore em uma vila no norte da Índia, depois de terem sido estupradas por cinco homens na última quinta feira.

-Menina de quinze anos foi estuprada por trinta e oito homens no norte da Malásia.

-Adolescente estuprada por cinco jovens em Pinhal (RS). Os estupradores filmaram e repassaram o vídeo pela internet.

Mais uma vez, mais um dia, mais uma mulher.Todos os dias mulheres são estupradas. Em todas as partes do mundo.Todos os dias mulheres são assassinadas.

Estou falando de estupro, esta violência que as mulheres sofrem dos homens. Não quero falar em violência “de gênero” e omitir quem é o agressor e quem é a vítima. Estou falando de estupro, esta de uma das faces da misoginia, do sistema patriarcal. Estou falando de estupro, do que as mulheres têm que passar, que está no nosso imaginário, na nossa biografia. Esta ameaça a qual estamos “habituadas” desde muito pequenas e que lutamos para que não nos aconteça. Mas nos acontece. Que é seguida de morte ou não. Mas que sempre alguma coisa mata.

O estupro é a face do machismo que viola nossos corpos, onde o estuprador quer ter o poder, quer ter o controle, quer minar que continuemos vivendo como vivíamos até então. Quer matar se não a gente a nossa liberdade. Porque não podemos ser livres. Não podemos escolher, decidir onde vamos, como estamos, nos sentimos. Não podemos gesticular, nos mover como queremos, isso tem que ter um preço. Precisamos ser castigadas. Só uma mulher sabe como sua vida, seu diário é baseado, é modificado, é moldado por esta constante ameaça.

Conheci mulheres que negam isso. Que dizem que não sentem o machismo. Que hoje em dia “isso” acabou. Quando questionei amigas que disseram essas coisas lhes perguntando “por que então você está chamando seu amigo para lhe acompanhar até sua casa?”, “por que você não vai a pé se é tão perto?” elas perceberam na hora o que até então não tinham levado ao nível da consciência.

Mulheres procuram proteção, e muitas vezes de outros homens. Os homens nos massacram e nos “salvam”. Mas nós sabemos que não é viável depender de um homem. Mulheres carregam chaves nos meios dos dedos, olham para trás com qualquer barulho, entram em banheiros públicos acompanhadas umas das outras, ou com muito cuidado, ou não entram, verificam portas e janelas quando estão sozinhas em casa de forma compulsiva, mudam de roupa, não correm em parques à noite, ou mesmo durante o dia, fazem autodefesa, carregam spray de pimenta, faca, arma de fogo, em fim, estamos sempre em alerta. Uma destas ações ou várias delas combinadas ou todas e muitas outras, fazem parte da vida das mulheres. Eu não estou preocupada se isso é paranoia para você. Se isso é muito pouco relaxante, ou pouco zen, ou pouco qualquer teoria mística. Porque estas coisas talvez não sejam para as mulheres. Estas coisas são privilégios de homens. A nós resta a “paranoia”. A nós resta a auto defesa necessária, a força e a técnica necessárias para seguirmos confiantes. E quem alcança esta força e técnica ao ponto de se sentir intocável? E aonde está o acesso a isso? E com quem está o conhecimento? Não estou desmotivando a autodefesa, pelo contrário, acredito ser fundamental para nossa autonomia. Mas não é como nadar num rio e se deixar levar numa corrente segura e morna. É uma luta. É um aprendizado. E também é uma capacitação que nem todas tem as mesmas chances ou vontade para tanto.

E com toda esta realidade que se mostra da forma mais hostil possível, nós ainda temos que nos calar. Nós mulheres somos violentadas e silenciadas ao mesmo tempo, obviamente, uma coisa é intrínseca a outra.

Somos silenciadas quando não nos acreditam. Somos silenciadas quando dizem que estamos exagerando. Somos silenciadas quando somos chantageadas de que estragaremos as coisas, a família, a cena “libertária”, a harmonia no trabalho, na escola, a boa vizinhança. Somos silenciadas com ameaças de mais violência, de morte, de exclusão. Somos silenciadas quando nos dizem que mulheres também estupram, quando não é dito para darmos atenção a esses casos – que também são fruto da cultura machista – mas para tirar nossa razão e vaporizar nossos inimigos. Somos silenciadas quando dizem que homens também são estuprados, sendo que sabemos que quando isso acontece os agressores são na quase totalidade homens, e isso não ajuda em nada os homens, geralmente meninos, que são estuprados. Isso também não é para dar a atenção devida a este menino, este homem, é um argumento utilizado de forma suja, sem solidariedade com estes meninos, com estes homens. É para nos calarem que usam destes argumentos. Somos silenciadas quando acusam textos como este que escrevo de cissexista porque ousa falar de mulheres. Então todas as especificidades que nós mulheres passamos são desvalorizadas, desprezadas, jogadas no lixo porque estamos sempre esquecendo alguém. Eu estou falando de mulheres porque, feminismo? Estou falando da violência dos homens contra as mulheres porque esta é a lei misógina. E caso precise lembrar misoginia é o ódio contra as mulheres, é o profundo desprezo pelas mulheres. Obviamente qualquer pessoa que seja “reduzida” a esta categoria sofrerá consequências da misoginia com suas especificidades.

E misoginia é também silenciar as mulheres e desprezar a forma como queremos nos organizar. É dizer a nós como devemos fazer o feminismo e o que o feminismo tem que abraçar, do que ele “deve” tratar.

E somos silenciadas quando não podemos denunciar o estupro pelo risco de respondermos a um processo judicial, fundamentado em leis machistas que favorecem os homens que estupram.

Nós mulheres somos estupradas e silenciadas pelos homens, somos silenciadas por suas leis e suas crenças e por quem compra essas leis e essas crenças.

 

enilador
31.05.2014

 

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Adolescente estuprada por cinco em Pinhal

 

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Adolescente estuprada.
Mais uma.
Mais uma mulher estuprada.
Mais uma vítima desta violência brutal, misógina que as mulheres estão sofrendo.

Não existem palavras que possam expressar o significado do estupro para a vítima. Não conseguimos em palavras expressar o verdadeiro terror que é a misogina. Estamos em guerra. As mulheres estão na guerra tentando sobreviver.

Um dos estupradores disse não ter feito “nada errado”. Sim, eles com certeza acham que não fizeram “nada errado”. Eles foram ensinados que as mulheres gostam de serem estupradas, está nos filmes pornô que eles vêm, faz parte da cultura do estupro em seus diversos níveis, e se elas não gostam também não importa porque quem importa na sociedade patriarcal? O que importa é como os homens se sentem. E o que eles querem fazer.

E se eles decidem estuprar é isso que importa. E se eles decidem abusar, é isso que importa. E se eles decidem torturar e matar, é isso que importa. Porque as mulheres são seres de segunda classe. Porque são os homens que decidem as coisas. Porque são os homens “que sabem”. De tudo.

 

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