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Além de sofrermos abusos, nos querem caladas – sobre as denúncias de abusos de homens contra as mulheres no meio musical

Nas últimas semanas surgiram denúncias de abuso por parte de homens de diferentes bandas, e com isso se iniciou um debate nas “redes sociais”. Como de costume, os debates são rasos, as pessoas sem um mínimo de entendimento das consequências que os abusos causam nas mulheres passaram a questionar a veracidade dos fatos e as mulheres abusadas, bem como apesar de uma total falta de compreensão sobre o feminismo, direcionaram suas opiniões sobre feministas provocando o silenciamento por parte de muitas mulheres e críticas àquelas que ousam confrontar a dominação masculina.
segue o texto publicado por lá.

Além dos abusos que nós mulheres sofremos, nos querem caladas, o abuso não pode ser revelado, tem que se manter como um segredo ou alguma coisa suja que não pode manchar esta ou aquela cena, o ambiente, a família, as amizades. Mas que amizades seriam exatamente as que não se preocupam com a nossa integridade física e emocional? Que só ficam contentes com a gente quando concordamos com seguirmos sendo oprimidas em silêncio? Qual a finalidade de perante uma denúncia desviar o assunto e diluir a gravidade das consequências dos abusos cometidos contra uma mulher? Diluir o assunto com o intuito de salvar a pele dos homens em detrimento de machucar as mulheres? Diluir o assunto para dividir as mulheres entre si? Por que é mais importante a preocupação com o emprego dos homens, com a carreira deles, com o seu status, do que com o corpo e o psicológico das mulheres? E seus traumas? E com a carreira delas? (sim muitas mulheres perdem o emprego quando sofrem abuso, não podem trabalhar porque o ‘parceiro’ não deixa entre outras causas). E só um pouco aí, quantas de nós mulheres que estão na música temos que incessantemente por anos a fio provar a nossa competência, ou talento, ou só o direito de estarmos ali com ou sem talento mesmo? O que significa que no meio de uma denúncia de abuso as pessoas acham mais “adequado”, mais urgente e relevante falar que “as vezes é possível que as denúncias sejam irresponsáveis”? Qual a finalidade de elaborar palavras que apenas servem como uma ótima justificativa e salvação para homens abusivos?
O que leva uma pessoa a achar o que ela julga irresponsável (e aí teríamos ainda que partir do princípio que seu julgamento é correto) causa mais danos do que a própria violência cometida? Isso só demonstra quem está em primeiro lugar e só corrobora com o porquê de continuarmos resistindo.

O que eu vi aqui foi que no meio de uma denúncia e de um debate que podia trazer mais solidariedade com as mulheres e entre elas mesmas, foi mais importante ressalvar que o orgulho dos homens não pode ser ferido sobre hipótese alguma, antes uma mulher abusada, do que um orgulho de homem machucado. E quanto carreira e sustentabilidade, pois somos nós mulheres em comparação aos homens que pertencemos a classe que recebe menos pelos mesmos serviços prestados, que criamos filhos sozinhas, que não conseguimos ou perdemos emprego por estarmos grávidas ou por termos filhos pequenos, e comumente porque nossa capacidade é questionada e é preferível colocar um homem no posto. Muito ruim as posições que li aqui, homens sendo acusados de abuso ou suas bandas e ao invés de se retratarem (perderam a chance) procuraram sem nenhum constrangimento usarem do momento para salvarem a pele de uma forma muito oportunista e ainda por cima sobre o sofrimento de mulheres abusadas. É possível que se acredite que nós não sabemos o que nos acontece com nós mesmas e que palavras incoerentes e que não condizem com a realidade vão entrar na cabeça de todas as mulheres e que o feminismo vai sumir? Não, o feminismo não vai sumir, o que precisa sumir antes disso é a opressão e exploração cometida contra as mulheres. Por quê não se começa primeiro apontando a opressão e se solidarizando ao invés de apontar os possíveis erros cometidos por mulheres abusadas? E quais erros essas mulheres realmente cometeram? Procurar apoio? Se sentirem mais dignas e quem sabe com sorte menos sozinhas? E elas tem que serem perfeitas?

O que de fato se sente quanto uma mulher retira uma denúncia? alívio? E alívio pelo que exatamente? Porque se estava preocupado com a saúde da moça ou porque agora a sua banda pode seguir de vento em popa? Alguém cavoca se é verdade mesmo que não aconteceu nada agora? Alguém pede agora provas de que o que não aconteceu não aconteceu mesmo?

Vocês sabem porque mulheres voltam atrás nas denúncias de violência? Vocês se sentem bem se eu disser que esse modus operandi visto aqui contribui para isso? E consequentemente com mais violência contra a mulher? Que ser paternalista e elogiar mulheres por se comportarem como “preferível” contribui para o silenciamento de mulheres? E para que sofram mais violências?

O desconforto que debates assim podem causar não pode ser mais importante que a segurança física e emocional das mulheres. Eu acho que é possível fazermos melhor que isso.

aline rod.

Vênus em Fúria #5 – 19Março

Vênus em Fúria #5 hoje!

Festival para arrecadar fundos para o Girls Rock Camp Brasil, projeto absolutamente importante, espetacular, para resgatar a autoestima de meninas, capacitando-as para a música e desenvolvendo a parceria entre meninas e mulheres. O festival é todo organizado e composto por mulheres – equipe técnica, roadies, produção e direção de palco, todas as bandas tem mulheres na sua formação – e isso é igualmente relevante e inspirador.
Muito feliz de poder tocar hoje e participar mesmo que de forma singela nesse projeto.
Obrigada por me convidarem.

Angry Female Voices! hoje!

AngryFemaleVoicesweb

Logo mais em Halle, alemanha, na Reil 78!

 

Ameaça/ Sisters For Liberation – som e letra

Orgulhosamente apresento o som da Ameaça:

Esta é uma faixa da demo da Ameaça, banda que toco bateria e faço os vocais.

Letra de Sisters For Liberation:

We are still here
We survived
You have been trying to erase our herstory
Our deeds
But we are still here
We will survive
We’ll tell by our own ways
We don’t need you
We never did

You try to possess us
You try to destroy us
We are still here
Many of us have survived
The ones who haven’t
The ones you killed
Are our bravest ones
They are in our hearts
Reminding us to keep the fight

Your fire
Your genocide
All of your hatred
All of your lies

We are not fighting for equality
We are not fighting for crumbles
We are sisters for liberation

We are still here
We survived

We are still here
We will survive


site da banda: https://ameaca.bandcamp.com/releases

aline rod.

Sobre os ‘KINGS’ – misoginia na cena Straight Edge de SP /// mais de um anos depois

Há quase um ano e meio atrás foi descoberto na cena Straight Edge de São Paulo que um grupo intitulado KINGS “compartilhava” (a exemplo da fraternidade masculina) pelo WhatsApp fotos de mulheres nuas:

“No comunicador WhatsApp forma-se um grupo composto somente por homens, denominado KINGS (REIS). Como supostos reis, eles se viram em poder de decisão perante os outros, escolhendo quais homens participariam do grupo e o conteúdo ali compartilhado. De maneira criminosa, eles expuseram mulheres em sua intimidade por meio de fotos que relatavam relações pessoais até o chamado revenge porn (pornô de vingança).”

Pelo que pesquisei me parece que vários destes KINGS continuam tocando com suas bandas e me impressiona muito ver que tocam com outras bandas em festivais que deveriam boicotar a participação destes caras, destas bandas das quais eles são membros.

Enquanto eles levam suas vidas normalmente, as mulheres se afastam dos espaços que lhes machucaram profundamente. Enquanto isso os espaços ficam cada vez mais ameaçadores para a segurança física e emocional de mulheres e meninas.

E as palavras “politizadas” que estes homens se utilizam, apenas lhes concedem mais espaço para cometerem atrocidades contra as mulheres como esta. Através de palavras, das letras de suas músicas mascaram com sucesso toda sua misoginia, todo desprezo que sentem pelas mulheres, e gozam tranquilamente de seu privilégio masculino, perpetuando ainda mais a dominação dos homens sobre as mulheres.

Um ponto importante é contextualizar que algumas bandas compostas por membros do grupo KINGS têm em seu histórico músicas pró-feministas sobre a libertação da mulher e o direito ao aborto (Direct Shot – Her Life, Her Rules) e sobre a opressão social sofrida pelas mulheres (Girl – Still x Strong). Portanto, nota-se que seus discursos são pura e rasa demagogia, já que os mesmos constroem suas imagens de homens politizados e, por isso, evoluídos, porém destroem e humilham as mulheres em espaços privados tanto quanto podem. “

Quase um ano e meio depois, vendo que os KINGS continuam circulando nos espaços e que Athos vocalista da banda DisXease está com tour marcada na Europa, coletivos feministas procuram alertar também a cena internacional.

 

Chega de passividade injusta, pois “passividade” é tomar um dos lados ativamente.

 

Leia mais sobre:

Denuncia de machismo na cena Straight Edge de São Paulo ( publicado na época, de onde tirei os dois parágrafos em aspas para compor esta postagem).

https://vimeo.com/121602758ideo  Aqui você pode ver o vídeo onde Athos na banda Inner Self dá sua opinião sobre o incidente. Você pode ver toda a arrogância masculina no seu discurso e nele a frase: “E se vc se acha porque vc colocou aquele capeta na sua camiseta e escreveu “isso é feminismo”, enfia no meio do seu cu. “  Direcionada a uma garota que usava uma camiseta com os dizeres “isso é feminismo”.

http://takepartinthisriotonlyforgirls.tumblr.com/ Carta aberta para a cena internacional feita por Girls To The Front. (em inglês)

 

Mulheres são parte da piada para a banda francesa ‘Attentat Fanfare!’

No dia 12 de janeiro passado, eu vi o show da banda francesa Atenttat Fanfare, no VL na cidade de Halle na Alemanha. O VL é uma hausprojekt, uma casa onde acontecem gigs, oficinas, encontros de grupos de esquerda e também é uma comunidade onde moram várias pessoas. Em seus princípios estão o anti racismo, o anti sexismo, a anti homofobia e a luta contra o anti semitismo.

Eu não fui propriamente para o show, mas estava na casa e acabei ficando. A banda subiu no palco. Os integrantes estavam todos fantasiados, exceto pela mulher que toca acordeon. O vocalista estava de pijamas e pantufas, e os outros integrantes vestiam outras fantasias ou acessórios ‘engraçados’. um deles estava ‘fantasiado’ de mulher. Não pude deixar de pensar que a piada era muito ruim.

Os homens sempre acham uma grande sacada se vestirem de mulher para serem engraçados e debochados. É misógino querer fazer graça com vestimentas associadas às mulheres. Enquanto para os homens pode ser uma brincadeira usar salto alto, maquiagem, etc, para a mulher é como o patriarcado nos força à feminilidade e estabelece como padrões de beleza que nos oprimem.

Apesar de eu ter críticas a esta e outras características da banda não foram estas as razões para eu escrever.

Faço aqui um relato do que se sucedeu durante o show.

No meio do show entre uma música e outra, o vocalista parou para anunciar a próxima música e começou dizendo: “eu estive no Rio no Brasil e lá as mulheres tem grandes ‘tetas’ e bundas incríveis.” E juntamente gesticulava desenhando seios e bundas grandes no ar com as mãos enquanto arregalava os olhos. Eu realmente não acreditei no ponto que chegara. Já estava bastante intragável aquela banda, mas este foi o dado mais concreto e sem nenhuma sombra de dúvida do que estava acontecendo ali. Esta frase só tem a seguinte leitura: misoginia e racismo. Falar das mulheres daquele jeito. Se referir daquela forma às mulheres brasileiras, de um país que muito provavelmente ele nunca tenha pisado, mas que se pisou também não melhora em nada.

Com esta atitude, ele mostrou sem nenhum constrangimento o seu privilégio como homem e como europeu. Ele achou muito engraçado utilizar do estereótipo que se têm – e que também se vende – da mulher brasileira. Ele não está nem aí para o que isso representa. O quanto as mulheres no Brasil são exploradas por exemplo pelo turismo sexual, que seus compatriotas, outros europeus e homens de outros países mais ricos fazem.

Ele simplesmente não sofre com a objetificação do seu corpo, ao contrário de nós mulheres que temos nossos corpos controlados pelo patriarcado e suas leis, onde nossos corpos são objetificados e vendidos em rótulos de cerveja, objetificados e violados inclusive por homens que confiamos. Onde os padrões de beleza nos oprimem e levam muitas mulheres a uma busca incansável e infrutífera pelo corpo perfeito do qual o capitalismo (além do patriarcado) se alimenta. Padrões estes que levam às mulheres, incluindo meninas muito novas, a depressão, anorexia, bulimia e outros transtornos que por si só já são muito sérios, mas que ainda podem levar à morte. Ele se coloca do degrau da misoginia, do privilégio de macho eurocentrado e racista. Ele se apresenta desta forma mesmo num local de reputação libertária e política. Porque os homens se sentem no direito de serem machistas e se beneficiam disso.

Eu reagi gritando contra o vocalista em meio ao som alto as seguintes frases: “you have no right to say what Brazilian women are! you sexist! you racist!”

Ele respondeu dizendo: “maybe I’m too drunk”.

O público seguiu dançando e eles continuaram tocando tranquilamente. E eu me retirei da sala.

Eu não quero com isso culpabilizar as pessoas que ali se encontravam pela falta de reação. Estou me atendo aos fatos, porque estes dizem bastante sobre como aconteceu e como eu me senti. E entendo que principalmente mulheres podem não se sentirem seguras para reagir. Acredito também que algumas pessoas “não viram”, não perceberam. Porém também não deixo de notar que parte deste “não ver” é por conta de que a luta contra a misoginia e o machismo não são consideradas causas legitimas. A luta das mulheres é luta de segunda ordem, para não dizer de terceira ou quinta muitas vezes na escala de hierarquia de lutas. Esta falta de reação me surpreendeu bastante neste contexto específico, diz muito sobre como patriarcado funciona e que é também dominante na cena de esquerda.

Eu posso dizer que eu notei. Eu fui atingida, nós todas as mulheres fomos atingidas pela atitude do vocalista,e por isso faço esta denúncia.

Gostaria de dizer que não sou patriota, não estava defendendo o “meu país”. Isso foi apenas coincidência, teria reagido contra ele da mesma forma se ele estivesse falando de qualquer mulher de qualquer outro lugar do planeta. O que ele fez é culpabilizar as mulheres por serem exploradas. Porque ele não falou dos homens que as exploram, das indústrias que as exploram, do sistema patriarcal. Ele estava objetificando e também debochando das mulheres que ele vê serem retratadas na mídia como enfeites de carnaval.

Porém a ofensa foi a todas as mulheres que ali estavam, quer as pessoas percebam isso ou não. E isso é misoginia.

Dizer que é “só uma piada” não é um bom argumento de defesa. Deu para perceber isso. Não melhora em absolutamente nada, apenas confirma o grau de misoginia e desrespeito pelas mulheres ao tratá-las como objeto também de chacota.

Machistas não passarão!

 

 

2ª Feira do Livro Anarquista e Festival

Confira a programação da feira no site flapoa.deriva.com.br
e a programação do festival abaixo:

Domingo 13/11 tocam as bandas:

Gracias por Nada ///Brasília
Ferida
Conduta Destrutiva
No Masters

Segunda 14/11 tocam:

Revolta Popular ///São Paulo
Lifelifters ///São Paulo
Flores do Holocausto /// Lajes
Tranca rua ///São Paulo
Digna Rabia
Vapaus

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Nem Escravas, Nem Musas – Radio Antena Negra 92,5

Ação Antisexista tá com o programa Nem Escravas Nem Musas na Rádio Antena Negra. O programa consiste em trazer noticias relevantes sobre machismo, misoginia, contextualizar e polemizar fatos e noticias que passariam desapercebidos nessa vastidão de informação desconexa, e  entre uma noticia e outra tocar bandas feministas e bandas com integrantes mulheres.

O programa vai ao ar toda terça-feira, a partir das 20h30 até as 22h30 e pode ser ouvido diretamente no seu rádio pela FM 92,5 se você mora na região central de porto alegre ou então pela internet de qualquer lugar do planeta. Para ouvir pela internet e para mais informações acesse http://antena-negra.noblogs.org.