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Nota Pública sobre a violência policial ocorrida durante a 1a Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre

Somos um coletivo de pessoas que se formou através de afetos, amizades, afinidades e momentos e vivências antes, durante e depois da I Feira do Livro Feminista e Autônoma de Porto Alegre (I FLIFEA POA). A feira tinha como seu principal objetivo a troca de materiais, de vivências e de experiências que pudessem debater coletivamente a respeito dos feminismos e da autonomia das mulheres frente às instituições e em relação a seus corpos. Esse objetivo estava se concretizando ao longo de dois dias de atividades, nos quais nos fortalecemos entre todas, conversamos, aprendemos, rimos e novas ideias puderam surgir a partir do encontro. Até que, juntas, muitas de nós sofreram a violência policial da noite de primeiro de novembro de 2015. Entre as agredidas estavam presentes algumas das que compunham a organização da FLIFEA, mas não só. A partir dos últimos acontecimentos vivemos uma nova forma de autogestão da experiência compartilhada onde “a organização da feira” se dissolve na nova coletividade que escreve este texto, composta por aquelas que foram diretamente afetadas pela repressão vivida na noite de domingo.

Dito isso, nos manifestamos através desta nota pública no blog da I FLIFEA POA, da maneira combinada entre nós como única manifestação pública do grupo mencionado acima. De acordo com isso, nenhuma de nós concedeu e nem concederá entrevista a qualquer veículo de comunicação e, embora estejamos recebendo assistência jurídica de advogadas feministas de maneira voluntária, elas também não nos representam frente à mídia. Também é importante apontar que não organizamos ou marchamos sozinhas no ato do dia dois de novembro de 2015, mas contamos com o apoio espontâneo de muitas pessoas que se sensibilizaram com nossa situação, e não tivemos relação alguma com o ato do dia seguinte, dia três de novembro de 2015. Nos fortalece muito e agradecemos o apoio das pessoas e organizações que estão se mobilizando autonomamente em relação ao ocorrido e nos comove a grande rede de solidariedade criada; no entanto, nos parece importante estabelecer que essa rede extrapola nossa dimensão organizativa e, portanto, não é possível nos responsabilizar pela totalidade dos eventos disparados pelo episódio. A quem resiste em solidariedade conosco, pedimos cuidado para não falarem em nosso nome, e, ainda, pedimos o respeito para não fazer o uso desse fato para apropriação em relação a agendas políticas partidárias, tampouco individuais.

Entendemos que a situação de agressão policial pela qual passamos se insere num contexto social de mobilização frente aos retrocessos que têm acontecido nas políticas para mulheres e ao crescimento do conservadorismo patriarcal no debate público sobre os direitos já conquistados e ainda por conquistar por mulheres e outros grupos minoritários. Tanto nos debates de políticas institucionais, quanto nos espaços de formação de opinião como redes sociais, diversas pautas feministas estão sendo mobilizadas neste momento, como os assédios cotidianos que vivemos desde a infância , nossa autonomia para decidir sobre nossos corpos, a violência vivida em espaços domésticos e a possibilidade de que as mulheres falem por si mesmas. Ao mesmo tempo, percebemos que a repressão que vivemos no último domingo gera comoção por diferentes motivos, que queremos apontar. Primeiro, a brutal violência por parte de policiais, homens, exercida contra mulheres, fazendo uso abusivo de autoridade através de aparatos de força (cacetetes foram usados e armas foram apontadas contra nossos corpos desarmados), evidencia a lógica militarizada e misógina que pauta a atuação dessa corporação. O ocorrido conosco também contribuiu para o reconhecimento das violências cotidianas que as mulheres sofrem, mobilizando aquelas pessoas que já trabalham para combater as causas dessas violências, e também sensibilizando aquelas que vivem ou já viveram essa realidade em suas vidas. Finalmente, consideramos que também foi notável o fato de estarmos nos propondo a construir um debate sobre feminismos num evento cultural no qual nossa arma era a construção de ideias políticas e de cumplicidade, e desse processo ter sido brutalmente atropeladas pela agressão policial.

Porém, queremos frisar questões importantes que contribuíram para a comoção que este fato gerou. Percebemos que isto se deu principalmente pela agressão ter ocorrido em um bairro central da cidade, com mulheres majoritariamente brancas, militantes feministas, muitas delas universitárias. Esses marcadores da nossa posição social foram o que tornou possível que uma agressão policial tenha se tornado um fato político desta dimensão e reflete o privilégio que temos em relação a tantos outros casos invisibilizados pela mídia, como a luta daquelas que se mobilizam contra a violência policial no país (pessoas negras,transperiféricascamponesasindígenasem situação de ruaem situacão de prostituicão.) Por isso, temos a responsabilidade de lembrar que enquanto esse é, para muitas de nós,um fato eventual em nossas vidas, para muitas outras, faz parte de um cotidiano marcado pela violência policial – entre tantas outras -, nas quais as ameaças de morte são de fato cumpridas. Sabemos que isso acontece porque, em nossa sociedade, há uma valorização diferenciada das vidas e da dignidade das pessoas, na qual existem vidas que valem mais que outras, vidas que merecem ser vividas,enquanto outras são lidas como descartáveis, principalmente pelo Estado que se utiliza de seu braço armado para agir de maneira violenta de diversas formas. Esse comportamento policial que acontece cotidianamente em contextos periféricos que promove o genocídio da população negra pôde ser observado durante o ocorrido na noite de domingo, uma vez que foi evidente que o alvo escolhido para a primeira investida física foi uma das poucas mulheres negras que estavam presentes naquele momento, confirmando as práticas e o caráter racista da instituição.

A repercussão da violência policial que sofremos nos afetou de diversas formas. Temos nos sentido coagidas a proceder de uma maneira específica dentro do sistema legal para comprovar a legitimidade de nosso relato publicamente. Vemos alguns procedimentos legais dentro disso como violentos para nós, mas também entendemos a necessidade de fazer o uso desses canais de denúncia, mesmo sabendo das suas limitações. Reivindicamos, outra vez, que sejam respeitadas nossa temporalidade e nossa liberdade de decidir como conduziremos a situação. Queremos pontuar, no entanto, que o que torna um fato publicamente legítimo não precisam ser apenas os procederes da lei que o Estado proporciona (e que muitas vezes vulnerabiliza e expõe as vítimas mais do que as protege) mas também a força do nosso relato, das marcas que reconhecemos nos corpos umas das outras e na nossa capacidade de articulação com uma extensa rede de solidariedade que nos tem prestado tanto apoio. Aquelas que vivem essas violências no seu cotidiano sabem da veracidade dos fatos, sabem o quanto fotos de machucados não ilustram suficientemente o que significa sofrer essas violências em todos os espaços, que é, afinal o assunto do qual queríamos tratar na intervenção teatral no dia de finadas, que estava sendo ensaiada naquela praça, quando os policiais chegaram. Essa intervenção tinha, inclusive, o propósito de denunciar e visibilizar o assassinato sistemático e constante de mulheres que ocorre pelas mãos dos homens – feminicídio -, tanto no âmbito doméstico-familiar quanto institucional, estatal e militar.
A discussão desse conceito – feminicídio – é muito recente e é resultado do exaustivo trabalho de denúncia de mulheres que se esforçam para evidenciar essa violência que costuma ser mascarada. No entanto, negamos a instituição do Estado e suas leis como a única fonte legitimadora dos fatos. Acreditamos que a construção da legitimidade pode se dar a partir de outros consensos éticos baseados na identificação mútua e em vivências compartilhadas por pessoas.

Informamos ainda que não daremos satisfação sobre as nossas movimentações no âmbito jurídico/institucional. Lembramos que mesmo juridicamente esse caso extrapola a nossa ação individual, e que outras instâncias podem se mobilizar para denunciar aspectos da (in)justiça independentemente da nossa vontade. Ainda, em relação à imprensa e à mídia, negamos a urgência de nos agendar de acordo com uma temporalidade imposta por redes sociais e outros meios de comunicação. Não podemos atropelar processos internos para atender a demandas externas, temos responsabilidades umas com as outras e, especialmente, de maneira alguma nos deixaremos pautar por uma mídia oportunista e tendenciosa. A demora para que apresentássemos informações foi argumento para o questionamento da veracidade de nosso relato. Reconhecemos essa como uma maneira de manipular fatos e indivíduos dentro de uma lógica alienante e um ritmo desumanizador de um modo de vida viciado no imediatismo. Não é essa a vida que queremos compartilhar umas com as outras e isso não nos será imposto. Essa suposta demora em responder a esses pedidos está diretamente relacionada com a necessidade que temos de nos ouvir e nos acolher nesse momento em que nos encontramos machucadas frente a situação real de agressão que passamos. Acreditamos ser cruel esse tempo midiático que transforma as feridas das pessoas em produto e audiência, e assim as violenta novamente. Estamos principalmente mobilizadas a dar um desfecho que não percorra esses caminhos e nos organizando horizontalmente de maneira a consolidar este fato como político para de fato transformar as feridas em luta.

Somos autônomas e nos organizamos a partir de práticas libertárias. Sabemos que práticas que questionam as instituições e o estado foram e são historicamente perseguidas. Por conta disso, receamos que o que aconteceu possa ter sido parte de ações politicamente motivadas por um discurso de ódio e não apenas a decorrência de uma abordagem que sucedeu mal. Frente a isso, esperamos que as expressões de solidariedade que tanto têm nos ajudado até agora se mantenham.

Precisamos, também, lembrar que desde antes mesmo da data da Feira, nossas medidas de segurança foram violadas com a criação do evento da Feira do Livro Feminista e Autônoma no facebook pela página Porto Alegre Cultura, que mesmo tendo sido avisada de que não queríamos expôr a Feira e as mulheres envolvidas na FLIFEA nesta rede, ignorou nossos protestos. Consideramos que o criador dessa página tem responsabilidade pelas ameaças que recebemos durante a Feira e pela agressão policial e, portanto, tem nosso sangue nas mãos. Fomos excessivamente expostas por esse evento contra a nossa vontade que possui quase 6 mil pessoas confirmadas e mais de 11 mil convidadas.

Por fim, agradecemos a todas que vieram prestar solidariedade nesse momento, independentemente de seu alinhamento político. O espaço da I FLIFEA POA se consolidou como um momento de rompimento com as lógicas de segregação e afastamento entre feminismos que estavam sendo vivenciadas em nossa cidade. O momento que estamos passando reforça essa ruptura; temos confiado e vivenciado o acolhimento umas das outras, nos fortalecendo tanto em nossas relações pessoais quanto políticas.
Valorizamos o engajamento daquelas que optam por lutar a partir de diferentes frentes e todas aquelas que se rebelam para não serem esmagadas por esse sistema que oprime iniciativas e (r)existências em liberdade e auto organização. Um conjunto de estratégias é mais eficiente do que qualquer uma delas isoladamente. Sabemos muito bem o que nos move.

Agradecemos àquelas mais experientes nas suas caminhadas de luta e resistência pelo apoio que vieram demonstrar. Mulheres que compartilham seus conhecimentos e saberes e possibilitam que partamos de um acúmulo para que cada geração de mulheres não precise começar do zero a cada batalha travada nessa guerra constante contra todas nós. Máximo respeito às velhas bruxas que vieram nos cuidar.

Seguiremos nas ruas fazendo arte, okupando os espaços, comunicando nossas posições e dando continuidade à luta, porque a nossa força de golpe é da mesma intensidade daquilo que vivemos. Bruxas resistem!

 

fonte:http://flifeapoa.noblogs.org/post/2015/11/06/nota-publica-sobre-a-violencia-policial-ocorrida-durante-a-1a-feira-do-livro-feminista-e-autonoma-de-porto-alegre/

 

Carta de Repúdio a decisão do juiz Paulo Augusto Oliveira Irion pela soltura do estuprador Marlon Patrick Silva de Mello// Ato – Estupradores Não Passarão!

Nós, Mulheres Organizadas Combatendo a Violência Contra a Mulher, viemos por meio desta, repudiar a decisão do juiz Paulo Augusto Irion, de soltar o estuprador Marlon Patrick Silva de Mello, pego em flagrante pela polícia no dia 12 de outubro último.

Era uma noite de domingo quando a adolescente de 16 anos foi brutalmente estuprada e espancada por Rodnei Alquimedes Ferreira da Silva e Marlon Patrick na orla do Guaíba. A menina foi levada para o hospital em estado grave, inconsciente e desfigurada a ponto de dificultar seu reconhecimento por familiares.

A decisão do juiz demonstra como a violência contra a mulher é naturalizada e reforçada diariamente a tal ponto que, mesmo sendo pego em flagrante, o juiz considerou de maior valia o fato do estuprador ser réu primário, alegando que o estupro foi um caso isolado na vida de Marlon Patrick. No entanto, o fato isolado ao qual o juiz se refere não é um delito comum, mas um crime hediondo decorrente da misoginia e da cultura do estupro. É notório o quão irresponsável foi a decisão do juiz ao minimizar o crime e também a dimensão da dor da vítima, bem como as consequências na sua vida. A definição de fato isolado se aplica melhor na condenação de um estuprador.

A cultura do estupro se dá na objetificação de nós mulheres e no senso comum de que o corpo feminino é propriedade do homem. A cultura do estupro se dá na hiperssexualização de nós mulheres nas diferentes esferas sociais, e na forma monstruosa que mídia reproduz estes estereótipos. A cultura do estupro se dá na banalização do estupro, na culpabilização das vítimas que são sempre questionadas, sejam pelas roupas, pelo comportamento, ou qualquer outra justificativa que sabemos servir somente para abrandar o que não pode ser abrandado. Desta vez não foi diferente, quando vimos os jornais chamarem atenção para a aparência da vítima, ou ao fato do pai da menina declarar que a filha “estava rebelde ultimamente”, para citarmos alguns exemplos. Sabemos que estas justificativas são meios de desvalidar nossa palavra e menosprezar nossa dor.

Procurem a culpa onde ela está que vocês acharão. A culpa é do estuprador e nunca da vítima.

A decisão de soltar o estuprador expõe ainda mais a vítima, a coloca em risco e também outras mulheres, e desencoraja a denúncia por parte de todas as mulheres que sofrem abuso, enquanto incentiva a perpetuação da violência contra a mulher através da impunidade.

Esta resolução e a cobertura midiática não são exclusividades deste caso, mas o padrão pelo qual se mantém um arranjo social cruel que expõe as mulheres a violências.

Repudiamos a decisão do juiz e o consideramos incapaz de julgar crimes sexuais e de violência contra a mulher, e exigimos que a justiça ampare e proteja as vítimas negligenciadas por interpretações arbitrárias de magistrados.

A maioria dos juízes que julgam casos de estupro são homens. Questionamos se como homens sejam capazes de compreender e tratar de questão tão grave com a seriedade que nós mulheres merecemos.

 

Estupradores não passarão!

Não nos calaremos!

 

Em solidariedade a vítima,

 

Mulheres Organizadas Combatendo a Violência contra a Mulher

Porto Alegre, 22 de Outubro de 2014

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Foto do ato que aconteceu ontem na frente do Fórum central de Porto Alegre, onde o juiz Paulo Augusto Irion presidia uma audiência.

No ato foi lida a carta acima que também foi entregue no gabinete do juiz. Foram feitas falas e gritos de luta em solidariedade a vítima e a todas as mulheres sobreviventes de abuso. Foi expressado o nosso repúdio a forma como o juiz está tratando o caso: ele entendeu que o estupro foi um “caso isolado” na vida de Marlon Patrick Silva de Mello.

Várias pessoas que entravam e saíam do fórum paravam para entender e ouvir o que estava sendo dito e várias mulheres se solidarizaram ao ato e mostraram sua indignação. Fomos impedidas por seguranças do local  quando nos direcionamos na entrada da parte lateral do Fórum e a polícia foi chamada. Resistimos e continuamos nosso ato até o final.

 

 

Não seremos massa de manobra!

Me encontro com sentimentos e pensamentos inquietantes. E sei que somos muitxs que assim se encontram. As manifestações contra o aumento da passagem me deram muita esperança, eu nunca pensei que fosse ver as pessoas reagindo tão sinceramente e bravamente nas ruas. Mas também assim como eu, muitxs estão indignadxs em nos depararmos com a tentativa de roubar do povo esta luta, que é sim contra o aumento da passagem. A mídia e a classe média estão tentando descaracterizar o movimento e tirar o protagonismo do povo,  pois este lhes convém que continuem à margem e à exploração e que não tenham voz nem razão.

Este movimento não é contra a “Corrupção”
Ao verem que milhares de pessoas estão indo as ruas, as alas conservadoras e de direita resolvem se apropriar e redefinir as demandas do movimento. Passam a dizer que este não é um movimento pelo passe livre e que “é muito mais”, que “o povo tá cansado de corrupção”. Mas este “muito mais” é na verdade “muito menos”. Qualquer tentativa de dizer que este movimento é contra a corrupção, torna a luta distante, difícil de ser combatida, já que todo mundo é contra a corrupção. Dizer que a luta é contra o governo -se subentende o governo vigente- passou a ser o novo jargão da direita oportunista. Esta tentativa de “ampliar”  as reivindicações é uma tentativa de ofuscar a luta contra o aumento das passagens como ela surgiu, e contra os gastos na Copa que ferem e subestimam a capacidade do povo de discernimento.

Oportunismo em utilizar o termo apartidário

A direita agora se utiliza do termo apartidário de forma oportunista e falsa, porque ela tem partido e tenta cooptar o movimento em favor de seus interesses enquanto partido político. Diz para nos uniformizarmos com uma única bandeira, a do Brasil, clamando o nacionalismo -que é um passo para o fascismo- que se opõe a nossa luta por igualdades e ignora que nossas reivindicações são internacionalistas. Este patriotismo surgido nas manifestações também ofusca a causa, por dizer “muda Brasil”, ou seja, não mude “apenas” o aumento da passagem, mude tudo, “mude de presidente”, quando não, “que volte a ditadura!”
Então nem precisamos mudar a tarifa da passagem, afinal o que são 20 centavos para o bolso da classe privilegiada? Então não precisamos lutar contra o aumento da passagem, porque temos coisas mais importantes para mudar!

Parem de dizer que o movimento é pacífico de forma mântrica

Só o que temos ouvido na mídia é que o movimento é pacífico e que uma minoria composta de “vândalxs” estão estragando as manifestações. É o novo mantra,  liga-se o rádio ou a televisão, se entra na internet e tá lá, “a manifestação era pacífica até que….” Até que o que? Que a polícia joga gás lacrimogênio nxs manifestantes para impedí-lxs de continuarem o protesto e como aconteceu aqui em Porto Alegre para nos impedirem de passarmos na frente da Zero Hora?  A manifestação era pacífica até que xs “vandalxs” e “saqueadorxs”  “injustificavelmente” confrontam o status quo e a violência da Polícia que está lhes descendo o pau?

“Sem violencia, Vandalismo Não!”

Nas manifestações de segunda feira um fenômeno decorrente da adesão dxs mais conservadorxs se mostrou muito presente. Pessoas preocupadíssimas com que as pixações “manchem a imagem” da manifestação e preocupadíssimas em serem mal interpretadas pela Polícia e pelos segmentos da sociedade. Pessoas entoando “sem violencia” ou “vandalismo não” para qualquer ato que não seja caminhar para frente, esquecendo-se de que são estxs vândalxs que estão lhes protegendo na linha de frente! São estxs vândalxs “violentxs” que defendem a manifestação das bombas de gás. Por que estas pessoas evitam criticar a violência policial que é contra PESSOAS e criticam e caracterizam como violência ações contra a propriedade privada, ou orgãos públicos que tem papel direto no preço das passagens, nos gastos com a Copa, e com a desigualdade entre as classes?
Tem um vídeo de São paulo que ilustra bem isto, um cara começa a pixar uma parede e é atacado com muita violência, empurrado, chutado e ameaçado! E onde está o grito “sem violência!”? Fica bem evidente que não é a violência o problema, a questão é pagar pau de “bonzinho”, porque afinal a “Polícia tá aí pra nos proteger né, afinal elxs ganham pouco também né, e elxs podem cometer violências porque elxs estão do lado da lei né”. Pois aqui em porto alegre na manifestação de quinta feira, apesar da mídia corporativa mentir descaradamente, o que aconteceu foi que os policiais começaram a jogar bombas de gás lacrimogênio de forma indiscriminada nxs manifestantes sem que estxs tivessem feito absolutamente nada. O vídeo veiculado pela própria mídia mostra imagens da polícia atacando primeiro, embora o texto do jornalista diz que a polícia revida, tentando sustentar uma mentira visível. E me digam por favor uma verdade, existe realmente equiparidade entre Polícia com escudos, capacetes, proteção e armas “não letais” que muitas vezes matam e manifestantes com lenços envoltos em vinagre?

Gás lacrimogenio- efeito moral….

Sim, o gás lacrimogenio tem um efeito moral. Porém, este efeito moral é decorrente de ameaça a integridade física, ele ataca fisicamente e quimicamente os corpos em graus mais ou menos sérios de acordo com a exposição. As bombas de efeito moral, são bombas materializadas, não são palavras ditas pela polícia como faz parecer o termo “efeito moral”. Elas tem objetivo de impedir, causar danos físicos e dispersar, ou seja enfraquecer a coesão entre manifestantes. De cima de um helicóptero ou do estúdio da TV pode bem parecer apenas uma bomba de “efeito moral”.

Não é o momento de recuar!

Não, este não é o momento de deixarmos às ruas, este não é o momento de cedermos terreno para a direita, a luta é historicamente nossa e não deixaremos que se apropriem! Não seremos massa de manobra!

por E.D.

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Bate Papo sobre a Marcha das Vadias e exibição do filme Monster- no Espaço Deriva

Em continuidade pelo mês de luta das Mulheres, nesta semana nós do Ação Antisexista, estaremos com duas atividades no Espaço Deriva. Hoje, terça feira 19, faremos leitura e debate sobre o zine “Considerações sobre a Marcha das Vadias e outros textos”, e na quinta feira, 21, vamos exibir o filme Monster. A prostituição é assunto em ambas atividades. Bom momento para discutirmos o que é ser uma prostituta de verdade…sobre as violências contra as mulheres e a misoginia implicada nestas violências.

Terça-feira, 19/março : Leitura e debate do zine Considerações sobre a Marcha das Vadias e outros Textos. 19h.

Quando surgiu a Marcha das Vadias eu fiquei um pouco confusa: eu me revoltei contra a declaração do policial canadense como todas as mulheres que criaram a Slutwalk, mas eu achei a estratégia bem falha em vários sentidos, coisa que eu explico em dois textos desse zine. O primeiro texto que escrevi, Considerações sobre a Marcha da Vadias, comecei em novembro de 2011, depois de um diálogo virtual com uma amiga que estava vivendo em outro país. Eu comecei a escrever a resposta e isso acabou se tornando um texto sobre o assunto. Eu fiquei muito tempo em cima do texto, mas não consegui concluir na época… deixei o texto de lado. Isso se deu porque eu via muita dificuldade em abordar e organizar todas as questões que envolviam o assunto, em função de sua complexidade e pela dicotomia que foi criada entre liberação e moralismo. As pessoas não queriam discutir sobre a estratégia adotada pela Marcha das Vadias. Talvez muitas de nós chegaram a pensar em reconstruir as estratégias, pois havia uma intenção de contestarmos também o ponto de vista machista do policial canadense, e não só dele. Mas a Marcha já tinha sido criada e não sofreria mudanças, ao perceber isso não me engajei. Retomei o texto este ano também fruto de diálogo sobre o assunto e da tradução dos textos de Rebecca Mott. das quais participei.

Este zine explica um pouco os pontos de vista que criticam as estratégias da Marcha das Vadias. É um compilação de dois textos da escritora feminista radical e sobrevivente de prostituição Rebecca Mott., e dois textos meus.

Rebecca Mott. como ex-prostituta nos traz seu ponto de vista, fruto de sua vida cheia de abusos e violência no passado. É impossível ficarmos alheixs ao que ela coloca. A violência contra uma é a violência contra todas, e o que Rebecca escreve é reflexo das violências das quais passou. Existe a ideia de quando uma mulher sofre violência, seu relato e opinião por serem frutos de trauma são deslegitimados, como se não houvesse racionalização, reflexão e elaboração no pensamento. Eu penso essa ser uma forma de reproduzir a desvalorização das ideias que as mulheres têm. Eu penso essa ser uma forma de supervalorizar o pensamento cientifico em detrimento do conhecimento adquirido por vivência.

Enila Dor, novembro de 2012.

Quinta-feira, 21/março: Exibição do filme Monster seguido de bate-papo. 19h.

Filme da diretora Patty Jenkins, 2003, 109min. O filme é baseado em parte da vida de Aileen Wuornos, mulher prostituída executada pelo Estado que a considerou como uma assassina em série, apesar de Aileen ter alegado legítima defesa, evidenciando como o Estado reprime e criminaliza a auto defesa das mulheres. O filme é ao mesmo tempo brutal e sensível, tocando também sobre sororidade e lesbianidade.

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Violência de Estado

A última Marcha da Maconha em são Paulo foi marcada por repressão e abuso policial, logo, violência de Estado.

Esta violência já começa quando a marcha em si é proibida de acontecer pelo Tribunal de Justiça um dia antes. A Marcha da Maconha propõe um diálogo, para que se discutam todas as questões envolvidas à legalização. Como falar em apologia a maconha não causa mais o efeito desejado, a marcha foi considerada apologia ao crime. Mas é justamente disso que a marcha se trata! O que estão dizendo com isso? Que as leis não podem ser questionadas, mudadas? Mais uma incoerência do sistema, pois muitas leis já foram modificadas e criadas desde a primeira constituição.

Xs manifestantes então decidiram por realizar uma Marcha Pela Liberdade de Expressão, pois clamam pelo debate.

Mas esta marcha também foi reprimida e a polícia usou de violência e muito gás lacrimogênio contra xs manifestantes, e que acabaram atingindo também varias outras pessoas que estavam nos arredores da marcha. Mais uma incoerência aí – a droga de Estado. O gás lacrimogênio causa muitos danos à saúde, mas é a droga usada pela polícia para “conter” manifestantes (pessoas). É droga legal e recomendada pelo Estado.

Para completar a cena, havia um grupo contra a marcha composto por neonazis, fascistas, ultra nacionalistas, que aplaudiam a violência policial assegurados pela proteção da mesma.

Proteção, Segurança, Violência, Drogas, Leis, Constituição, se tornam palavras que mudam de sentido de acordo com convenções e conveniências perpetuadas pelo Estado e pela estrutura de desigualdades das quais o sistema se alimenta.

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